1.
a minha avó fez ontem 91 anos.
fui visitá-la: cantei-lhe os parabéns ao ouvido. passei a minha mão
pelos cabelos crespos dela: brancos em cima, loiros por baixo. disse-lhe
que a maria e o miguel estavam lá fora. que tinha ido com eles à
ginástica: a maria já sabe fazer bem as cambalhotas. contei-lhe coisas:
sabias que o sócrates está preso. que está frio na rua. [será que me
ouve?] que o miguel está constipado. a maria também.
[quando eu
era pequenina passava dias em casa dela. ela nunca pegava em mim ao
colo, me enchia de beijos ou me lia estórias de princesas. essa não era
ela: nunca esperei isso dela. ela tinha uma gargalhada que me fazia rir.
gozava com todos, implicava com tudo. nas festas cochichava aos meus
ouvidos: que a outra era assim e assado. e ria-se dela de braços
cruzados. o meu pai chamava-lhe a avó irra. fazia-nos bolo de cola-cola e
arroz doce. tirava a placa para nos fazer rir. quando a maria nasceu
passei a visitá-la menos vezes. ela começou a esquecer as coisas. os
anos tornaram os abraços dela mais apertados, mais longos: estás
magrinha, dizia. ela nunca me esqueceu, ela perguntava-me: de quem são
estes miúdos? é a maria, o miguel. ela dizia: não tenhas mais nenhum. e
ria-se muito alto: ela teve 6. depois ela perguntava-me outra vez: é a
maria, o miguel. às vezes falávamos ao telefone e ela dizia-me que o
angélico não tinha morrido: vi-o hoje na televisão. ela arrancou-me
tantos sorrisos.]
contei-lhe coisas e depois elas entraram:
lavaram-na, trocaram os lençóis, ajeitaram-lhe os braços. ela era só
mais uma: ela era a minha avó que me fazia bolo de coca-cola. quando
elas sairam eu chorei. peguei na mão dela e beijei-a: ela apertou-me os
dedos. a força toda naquela mão. será que me ouve? e ali, naquele quarto
de hospital, disse coisas que ela nunca me ouviu dizer. disse-lhe que
ela tinha sido uma boa avó. que eu gostava muito dela. agradeci-lhe,
pedi desculpa: beijei-a na testa. a minha avó: o corpo inerte, a cabeça
pesada, um gemido constante, boca aberta, olhos fechados: aquela não era
ela. encostei os meus lábios ao ouvido dela: disse-lhe para não ter
medo. avó, não tenhas medo: não tenhas medo. ela apertou a minha mão. eu
chorei.
ontem a minha avó fez 91 anos e eu cantei-lhe os parabéns.
não sei se ela me ouviu.
[ e hoje quando estava ali parada, com os pés na terra que cobria gente e o
vento gelado a bater-me na cara: hoje enquanto todos choravam e
remoíam, a cada pá que se enchia de terra, isto que é a condição humana,
ouvi-a: o som da sua gargalhada. ela, que se ria de todos, a rir-se de
nós. aquele som era o único na minha cabeça: aquela gargalhada.
vou guardá-la para sempre avó.]
2.
nunca lhe ensinei as letras. nem sequer o "a",
o "e", o "i", o "o" ou o "u". às vezes ela pergunta: o que é que diz
aqui? e eu leio, sem explicar. ela abre os livros e finge que está a
ler. e eu ouço, sem corrigir. nunca lhe ensinei as letras:
ela tem 3 anos. às vezes as vizinhas perguntam se ela já vai à escola:
já sabes escrever o teu nome? e eu penso: ela tem 3 anos. aprendi as
letras quando fui para a escola. não antes. nem sequer o "a", o "e", o
"i", o "o", ou o "u". a minha mãe nunca me ensinou as letras.
ensinou-me coisas que não esqueço: as letras guardou-as a todas. e
quando eu fui para a escola a professora ensinou-me as letras.
ensinou-me a ler e a escrever. a escrever o meu nome. eu tinha 6 anos.
guardo a minha professora no coração: mesmo quando ela não nos sorria eu
olhava para ela com respeito, admiração: ela ensinou-me as letras. para
mim ela era especial: só uma professora podia ensinar as letras. um dia
ela fez-me escrever o L maiúsculo vezes sem conta: às vezes olho para
eles, escritos a lápis, cheios de curvas. nos dias de greve ela
ensinava-nos as letras no jardim, sentada no chão. quando chegava a casa
eu mostrava à minha mãe as letras que a professora me tinha ensinado.
sempre gostei delas: as letras.
ontem a maria pediu-me: podes-me
ensinar a escrever o meu nome? sorri. disse-lhe que isso era uma coisa
muito importante: tens a certeza que queres aprender hoje? ela tinha a
certeza. e eu ensinei. hoje ela continuou a praticar: mostrou-me maria
muitas vezes. e eu, orgulhosa, dou-lhe os parabéns, digo que está
perfeito, dou-lhe um abraço. e depois olho para o papel que tenho nas
mãos: as letras que eu não guardei. digo-lhe: agora vai brincar. ela tem
3 anos. eu tinha 6. quero guardar as letras. e as vizinhas têm pressa, e
o mundo tem pressa e eu a querer guardar as letras. quero guardá-las:
mesmo que todos os outros meninos já saibam todas as letras, mesmo que
ela demore mais tempo para fazer o L perfeito. quero que ela me mostre
todos os dias as coisas novas que aprendeu: o mundo sem pressa num
caderno de linhas. quero que ela guarde no coração: o primeiro dia de
escola, todas as letras, a professora que as ensinou.
agora ela tem 3 anos: se ela não me pedir, posso guardá-las.
3.
quando chamamos o miguel ele responde logo: o
que é? ele corre até nós e repete: o que é? quando chamamos a maria ela
nunca responde. a maior parte das vezes ela está só a fazer as coisas
dela, concentrada. sou -e ele concorda- mais paciente
que o pai. ele insiste, chama-a muitas vezes: não me ouviste a chamar?
às vezes, ao lado dele, digo-lhe: espera. e ela aparece. às vezes quando
ele a chama eu estou ao lado dela e vejo que ela está só a acabar: um
gesto, um pensamento, uma palavra. e ele chama outra vez e eu digo: ela
já está a ir. e um dia li um texto sobre crianças da idade deles, dizia:
quando chamar o seu filho conte devagar até 10. mostrei-lhe e disse-lhe
que ia começar a contar, disse-lhe para ele contar também. dizia que a
criança só precisa de tempo para parar e processar a informação. e
decidi partilhar isto com vocês porque é tão simples e funciona. aqui em
casa funcionou. chamo: maria. conto até 10. devagar. ela responde: o
que é? digo: maria chega aqui. conto 10 crocodilos. ela aparece: o que
é? às vezes temos de repetir, mas é raro. antes em 5 segundos já a
estavamos a chamar outra vez: 5 segundos não chega. todos os dias
aprendo com eles. contar até 10 também me ajuda a mim a ser mais
paciente, a viver mais devagar. ao ritmo deles, como deviamos viver
todos.