levei a maria ao sítio onde guardamos as coisas que já não precisamos. coisas que não usamos, coisas que já não queremos. fui lá procurar um cd antigo e levei-a comigo. ela gosta de lá ir. quando entrámos ela viu-a logo: mamã olha: uma árvore de natal. desmanchada, no chão, enfiada num saco demasiado pequeno. ela perguntou-me porque é que aquela árvore estava ali: era da tia mas a tia já não a quer. porquê?- insistiu ela. ela comprou outra, uma maior, mais bonita. já não precisa desta.
esta é feia?- perguntou ela, de sobrancelha franzida, a observá-la. não é feia maria, mas a tia já não precisa dela.
voltámos para casa e ela continuou a falar nela: a árvore de natal ali esquecida. às vezes digo ao miguel que não pode tirar as bolas da árvore porque ela fica triste. e aquela não fica triste ali sem bolas, perguntou ela. percebi a ansiedade dela: uma árvore de natal ali esquecida, sem bolas nem luzes. uma árvore que ninguém quer. e depois eles dormiram e eu fui buscar a árvore. também trouxe as bolas que não combinavam, as luzes que piscam demais, a fita que já não se usa. trouxe tudo. e enquanto eles dormiam salvei-lhe a árvore esquecida: tão magrinha e torta. a árvore que ninguém queria ali no quarto deles. quando a maria acordou perguntou logo: é aquela? e depois a felicidade dela: ela estava tão feliz. continuava a perguntar porque é que a tia já não a queria. ela disse: eu gosto mais desta. a árvore preferida dela: uma árvore que ninguém queria cheia de coisas que ninguém gosta. e tão bonita: olho para ela com os olhos da maria: ela é tão bonita.
a maria continuou ali ao pé dela: tem estrelas e corações e prendas pequeninas. eu, ali no quarto, a apanhar brinquedos do chão: tens muita sorte maria, duas árvores de natal. há meninos que não têm nenhuma. primeiro ela sorriu e disse um não arrastado. a sério, a mãe não está a brincar. expliquei-lhe o valor das coisas: o que custa uma árvore de natal. transformei o valor de uma árvore em iogurtes, arroz, douradinhos e bolachas. ela compreendeu. mas na cabeça dela não fazia sentido: um menino sem árvore de natal é como uma árvore de natal por montar, uma árvore- tão bonita- que ninguém quer. e eu, mãe, falho nisto. às vezes falho e sei que estou a falhar e continuo. estávamos a fazer a carta para o pai natal. o miguel quer um hipopótamo, um rinoceronte, um homem aranha. a maria: uma escavadora. só uma escavadora? sim. não queres mais nada? uma boneca? jogos? -perguntei.
eu quero uma escavadora. e mais maria? ela em silêncio, eu a fazer perguntas. e depois ela disse: uma escavadora e pensos com bonecos. eu a falhar: a maria quer uma escavadora e pensos rápidos com bonecos. ela vai ficar feliz com uma escavadora e eu a insistir, eu a querer que ela pedisse mais uma coisa, eu a falhar. queria ser diferente às vezes: não lhe dar mais do que ela pede, do que ela precisa. queria ser capaz de lhe dar só uma escavadora. às vezes falho, outras vezes recuso presentes: coisas que eles não precisam, coisas que eu não lhes poderia dar. sou eu a tentar, a aprender: a falhar umas, a acertar outras. é este mundo cheio de coisas que não precisamos que às vezes me ganha. e eu que continuo a aprender com eles: aquela árvore é tão bonita. devia ter comprado só uma escavadora.
[a maria, sentada no chão, a baloiçar a estrelinha pendurada ouve-me a explicar o valor das coisas para os pais do menino que não tem árvore de natal e diz baixinho, como quem pensa alto: podiamos-lhe dar esta. e podemos. podemos dar esta árvore tão bonita a um menino que não tenha nenhuma.]