fomos passar a páscoa com os meus avós. a viagem era longa. o coração do meu avô estava a recuperar. a última vez que eu o tinha visto era natal e ele estava muito magro numa cama de hospital. abril: passámos uma semana lá: eu, a minha irmã, a minha prima. comemos entremeada e chouriça assadas na lareira. bebemos vinho com coca-cola. eu tinha 16 anos. as pessoas ofereceram-nos saquinhos de amêndoas coloridas. naquele dia acordámos às 6 da manhã: iamos a favaios apanhar o autocarro para lisboa. a carreira. ele estava sentado na cama, encostado às almofadas. o meu avô chorava sempre no dia em que iamos embora. antes de sair ele chamou-me: pediu-me o aquecedor. levei-o depressa. tinha a mochila às costas. beijei-o na testa. saí.
o meu avô morreu naquela noite.
eram 5 da manhã quando ligaram para nos contar. a minha mãe e o meu pai acordaram-me. eu estava triste: perguntava-me se ele teria morrido se tivessemos ficado mais um dia. levantei-me e procurei por ela: a minha mãe. ele tinha morrido: o meu avô, o pai dela. ela estava a lavar a loiça. o dia ainda não tinha nascido: ela estava a lavar a loiça. porque é que ela não está a chorar?
naquele dia fizemos todos juntos a mesma viagem. quando chegámos já tinha anoitecido: tudo tão diferente. subimos as escadas: eu e o meu pai, as minha irmãs, a minha mãe à frente. ela foi a primeira a entrar. nunca o esqueci: ela gritou. a minha mãe atirou-se contra a porta a chorar: ela gritava. ela tinha um casaco castanho que era muito grande: os gritos abafados pelo casaco. toquei-lhe no braço: mãe. e depois vi.
no chão da sala: o meu avô. eles tiraram aquela mesa grande onde nos sentávamos todos nos dias de festa. erámos tantos. o meu avô ficava sempre na ponta. comiamos cabrito e tripas. a minha avó fazia um doce que tinha natas, pudim boca doce e pêssego enlatado por cima. naquele sítio estava o meu avô: um caixão aberto, rodeado de flores. a minha avó sentada no sofá. as pessoas chegavam e saiam, davam-nos beijinhos e diziam que tinham muita pena. dormi algumas horas. no dia seguinte ele continuava lá: as pessoas continuavam a chegar e a sair. olhei para ele e passei-lhe a mão pelo cabelo gelado. o meu primo, sentado à minha frente. ele disse: às vezes parece que se olhar fixamente ele se mexe. ele não se mexia. ele estava só ali: no chão. nenhum de nós sabia que ele ia estar no chão.
ouvi um barulho. fui à cozinha e encontrei a minha avó: ela, de avental, a bater bifes que já estavam temperados. porque é que estás a fazer isso? ela não me respondeu.
quando o carro que ia levar o meu avô chegou alguém nos foi avisar. a minha avó na sala, de avental, ajoelhou-se no chão ao lado dele. ela agarrou um ramo de flores. depois outro. ela disse: levem isto. e depois ela gritou: levem isto, tirem isto daqui. levem-no daqui. sentada no sofá vi a minha avó a atirar as flores contra o chão a gritar: levem-no daqui. a minha querida avó.
naquela noite dormimos na cama do meu avô: eu, a minha irmã, a minha prima. a minha avó dormiu ao nosso lado numa cama pequenina que se fechava ao meio. enquanto dormiamos ouvi-a chorar.
já escrevi aqui sobre a minha relação com a morte. não é boa.
o meu medo da morte começou quando vi a minha prima deitada na minha cama: inconsciente. naquele dia pedi ao deus em quem não acredito que não a levasse.
o meu medo voltou no dia em que perdi o primeiro filho.
piorou quando perdi o segundo.
às vezes eu dizia-lhe que precisava de ir ao médico: estou sempre a pensar que vou morrer.
o medo, a ansiedade: fazem o meu corpo doer mais. não me deixam dormir. depois desaparece: passam semanas, meses. e depois vejo alguma coisa que me muda: que me faz ter medo. ontem publiquei no facebook a razão porque não quero lá voltar: quero viver numa quinta. o facebook tem-me mostrado o mundo: o mundo é demais para mim. saber algumas coisas faz-me sentir pior. luto todos os dias para me sentir calma: não vai acontecer nada. respiro fundo. agradeço pelos dias iguais. algumas pessoas escreveram-me: algumas compreendiam, algumas disseram que ver as coisas más é o que nos faz valorizar as boas. mas e quando as coisas más nos impedem de viver as boas?
ele convidava-me muitas vezes: desde que a maria nasceu que nós não iamos jantar fora. só eu e ele. em setembro ele convidou-me outra vez. ele queria ir a um restaurante em algés. a 15 minutos da nossa casa. tinhamos de andar de carro 15 minutos para lá chegar. disse-lhe que não: disse-lhe que jantava com ele se fosse mais perto. ali: pensei na morte: eu e ele dentro do carro, eles sozinhos, eles sem ninguém. os dias passaram, ele não voltou a perguntar. naquela tarde comecei a pensar em mim: os meus medos. eu sei ser mais forte do que eles. às vezes sei. naquela tarde reservei uma mesa para dois num restaurante em algés. para ele aquele jantar significou muito: foi o primeiro jantar a dois em 3 anos. para mim significou mais: naquela noite venci o medo.
eu não preciso de coisas más para valorizar as boas: elas não me fazem abraçar os meus filhos mais vezes, nem com mais força. eu estou nessa fase: não quero saber. não quero ver.
deixar de usar o facebook não é um desafio pessoal. eu não vou obrigar-me a manter-me longe. é a minha defesa. preciso dela agora. quero dormir melhor. quero parar de chorar por lutas que não são minhas: esquecer a dor que não me pertence. quero isso: ser forte. ler e esquecer. quero que o meu medo seja mais pequeno que a minha paz. quero falar dos meus medos. ultrapassá-los. quero parar de querer mudar o mundo. quero viver numa quinta.