a minha mãe recortava bonecas em cartolinas e desenhava-lhes roupas para nós brincarmos. ela vendia doces para fora: na nossa cozinha uma bancada de mármore muito grande estava sempre coberta de brigadeiros e doces de ovo com caramelo e uma noz em cima. a nossa casa cheirava a chocolate e ela deixava-nos sempre rapar a tigela. no dia em que a minha irmã mais nova nasceu ela passou na minha escola para me explicar o que ia acontecer. eu tinha 6 anos e ela não queria ir sem me dizer adeus. no gira-discos ela ouvia o bolero de ravel e segurava as nossas mãos pequeninas e fazia-nos rodopiar. preparava-nos festas de anos e os bolos eram caras de palhaços com bocas feitas de pintarolas e cabelos de fios de ovos. ela nunca me deu uma palmada. ela levava para casa cães que encontrava na rua e tomava conta deles até lhes encontrar um dono. ela enchia sacos de comida e levava-me pela mão até às barracas nas traseiras da nossa casa. chamava-me verinha. ainda chama.
o meu pai viajava muito mas sempre que voltava trazia-nos chocolates muito grandes que comprava no aeroporto. um dia eu fugi da creche e fui ter com ele à fábrica onde trabalhava: ele nunca mais me levou para lá. lembro-me de estar na cama com ele e a minha irmã mais velha: ele contava-nos a história da branca de neve com vozes engraçadas. no dia em que a minha mãe foi para a maternidade ele fez-nos muitos ovos estrelados para o almoço. ele dava-nos banho e embrulhava-nos nas toalhas com um abraço. na praia levava-me ao colo até à toalha para eu não me sujar com areia. ele nunca me deu uma palmada. ele fazia puzzles comigo no chão da sala. chamava-me verita. ainda chama.
é engraçado como a nossa mente funciona: estas são as coisas de que eu me lembro. eu era pequenina: não me lembro de muito. nesses dias que eu não lembro eles faziam o melhor que conseguiam. e davam-me colo, limpavam-me as feridas, secavam-me as lágrimas, faziam-me cócegas. e eu que não me lembro de muito.
[naquele dia eu estava com a minha irmã a fazer desenhos. não sei que idade tinha. talvez 5 porque ainda era só eu e ela. o meu pai entrou no nosso quarto com outro senhor. juntos foram ver a clarabóia que ficava lá no alto, onde nenhuma de nós chegava. o senhor ia arranjá-la. aproximei-me deles e dei ao meu pai o desenho que tinha acabado de fazer. era para ele. ele agradeceu-me e continuou a explicar ao senhor o que era preciso fazer. sentei-me a fazer outro desenho. quando a clarabóia se abriu caíu areia para o chão, estava suja. naquele momento a olhar para eles vi: o meu pai pediu desculpa ao senhor, apertou o desenho que lhe dei com as mãos e usou-o para limpar o vidro. ele fez tudo muito depressa, sem pensar. eu nunca o esqueci.]
[naquela noite eu estava sentada no chão da sala. estava escuro. tinha 6 anos. tinham passado horas desde que a minha irmã mais nova tinha começado a chorar. sentada no chão da sala eu olhava para a minha mãe: de robe comprido e um bebé muito pequenino nos braços. ela era a melhor mãe que eu podia ter: ela estava sempre lá. e nós éramos agora 3 filhas, uma casa e um casamento que nunca foi perfeito. na escuridão eu ouvia o choro da minha irmã, o choro da minha mãe que se balançava para trás e para a frente. ela estava sozinha e cansada. e zangada, ela disse: cala-te, cala-te senão atiro-te da janela. ela era a melhor mãe que eu podia ter: calma e carinhosa. e depois ela gritou. e eu nunca o esqueci.]
todos os dias tento dar o meu melhor: dou-lhes colo, limpo-lhes as feridas, seco-lhes as lágrimas, faço-lhes cócegas. esforço-me todos os dias. abraço-os e espero que eles me larguem primeiro: abraço-os o tempo que eles precisam. será que eles se vão lembrar disso? e depois desligo-me e faço coisas e digo coisas: coisas sem pensar: terei feito alguma coisa que eles não vão esquecer? eu nunca o esqueci. prometi a mim mesma fazer diferente. e um dia deitei o miguel muito pequenino na minha cama: ele chorava. segurei-o nos meus braços durante horas enquanto ele chorava e depois deitei-o na minha cama: tão pequenino. mas a limpar as minhas lágrimas gritei bem alto: cala-te. olhei para trás e ela ali: a maria. a pequena maria a olhar para mim. e eu que estava sozinha e cansada.
ela faz-me desenhos e recorta pedaços de revista que me entrega embrulhados numa folha: é para ti. guardo-os a todos. pedaços de panfletos de supermercado que guardo durante dias: se ela me perguntar por eles mostro-lhe. ela nunca pergunta. depois deito-os no lixo, mas abro bem o saco e empurro-os lá para o fundo para ela não os ver. sinto-me sempre mal quando o faço. depois esqueço. e todas estas coisas que eu faço fazem-me pensar em nós: seres humanos. como pequenas coisas sem importância nos marcam e definem. esse é o meu maior medo: falhar. esquecer-me que eles me estão sempre a observar e falhar: mesmo ali, naquela pequena coisa. medo de ser humana: vou falhar muitas vezes. os meus pais foram os melhores pais que eu podia ter, deram-me amor, conforto, segurança. e depois um dia distrairam-se. e eu nunca o esqueci.