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sexta-feira, 10 de abril de 2015

ele.

ele começou a fazer birras. umas pequenas, outras grandes. um dia ele gritou e atirou tudo para o chão. perguntei-lhe o que se tinha passado e ele zangado respondeu: não consigo fazer uma bola. olhei para ele: frustrado, com a folha amarrotada na mão, o pé a bater com força no chão. quase sorri. mas não me quero rir das coisas mais importantes da vida dele: nesse dia a coisa mais importante da vida dele era desenhar uma bola. ajoelhei-me, mostrei-lhe como se faz uma bola, disse-lhe para continuar a praticar. estou a aprender a lidar com as birras. a maria nunca passou por esta fase: às vezes não sei como reagir. não dou palmadas, não gosto de o ignorar, não quero gritar com ele. não grito com pessoas de quem não gosto, porque hei-de eu gritar a quem mais amo? mas ele grita e diz não e cruza os braços. geme em vez de falar. sacode as pernas. chora desesperado. dois dias sem birras, um dia cheio delas. às vezes sinto que ele me está a levar a melhor. esta semana ele fez a maior birra de todas: não consegui encontrar a chucha preferida dele. olhei para ele, sentado na cama, a gritar: tão teimoso, destemido, irrequieto. nessa manhã, abraçada a ele, chorei: senti-me exausta, derrotada. à noite, sentei-me no sofá e vi a rapunzel com a maria. ele estava à mesa, com um lápis na mão, a luz do candeeiro acesa. perguntei-lhe muitas vezes se queria ir para ao pé de nós, ele disse sempre que não: estou a fazer uma coisa para ti. durante uma hora ele ficou lá. olhei para ele: tão concentrado, tão calmo. e depois o filme acabou e ele veio ter comigo: é para ti. nessa noite chorei outra vez. eu estava feliz: ele deu-me uma folha cheia de bolas.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

texto perdidos.

 1.

a minha avó fez ontem 91 anos.
fui visitá-la: cantei-lhe os parabéns ao ouvido. passei a minha mão pelos cabelos crespos dela: brancos em cima, loiros por baixo. disse-lhe que a maria e o miguel estavam lá fora. que tinha ido com eles à ginástica: a maria já sabe fazer bem as cambalhotas. contei-lhe coisas: sabias que o sócrates está preso. que está frio na rua. [será que me ouve?] que o miguel está constipado. a maria também.
[quando eu era pequenina passava dias em casa dela. ela nunca pegava em mim ao colo, me enchia de beijos ou me lia estórias de princesas. essa não era ela: nunca esperei isso dela. ela tinha uma gargalhada que me fazia rir. gozava com todos, implicava com tudo. nas festas cochichava aos meus ouvidos: que a outra era assim e assado. e ria-se dela de braços cruzados. o meu pai chamava-lhe a avó irra. fazia-nos bolo de cola-cola e arroz doce. tirava a placa para nos fazer rir. quando a maria nasceu passei a visitá-la menos vezes. ela começou a esquecer as coisas. os anos tornaram os abraços dela mais apertados, mais longos: estás magrinha, dizia. ela nunca me esqueceu, ela perguntava-me: de quem são estes miúdos? é a maria, o miguel. ela dizia: não tenhas mais nenhum. e ria-se muito alto: ela teve 6. depois ela perguntava-me outra vez: é a maria, o miguel. às vezes falávamos ao telefone e ela dizia-me que o angélico não tinha morrido: vi-o hoje na televisão. ela arrancou-me tantos sorrisos.]
contei-lhe coisas e depois elas entraram: lavaram-na, trocaram os lençóis, ajeitaram-lhe os braços. ela era só mais uma: ela era a minha avó que me fazia bolo de coca-cola. quando elas sairam eu chorei. peguei na mão dela e beijei-a: ela apertou-me os dedos. a força toda naquela mão. será que me ouve? e ali, naquele quarto de hospital, disse coisas que ela nunca me ouviu dizer. disse-lhe que ela tinha sido uma boa avó. que eu gostava muito dela. agradeci-lhe, pedi desculpa: beijei-a na testa. a minha avó: o corpo inerte, a cabeça pesada, um gemido constante, boca aberta, olhos fechados: aquela não era ela. encostei os meus lábios ao ouvido dela: disse-lhe para não ter medo. avó, não tenhas medo: não tenhas medo. ela apertou a minha mão. eu chorei.
ontem a minha avó fez 91 anos e eu cantei-lhe os parabéns.
não sei se ela me ouviu.

[ e hoje quando estava ali parada, com os pés na terra que cobria gente e o vento gelado a bater-me na cara: hoje enquanto todos choravam e remoíam, a cada pá que se enchia de terra, isto que é a condição humana, ouvi-a: o som da sua gargalhada. ela, que se ria de todos, a rir-se de nós. aquele som era o único na minha cabeça: aquela gargalhada.
vou guardá-la para sempre avó.]

2.

nunca lhe ensinei as letras. nem sequer o "a", o "e", o "i", o "o" ou o "u". às vezes ela pergunta: o que é que diz aqui? e eu leio, sem explicar. ela abre os livros e finge que está a ler. e eu ouço, sem corrigir. nunca lhe ensinei as letras: ela tem 3 anos. às vezes as vizinhas perguntam se ela já vai à escola: já sabes escrever o teu nome? e eu penso: ela tem 3 anos. aprendi as letras quando fui para a escola. não antes. nem sequer o "a", o "e", o "i", o "o", ou o "u". a minha mãe nunca me ensinou as letras. ensinou-me coisas que não esqueço: as letras guardou-as a todas. e quando eu fui para a escola a professora ensinou-me as letras. ensinou-me a ler e a escrever. a escrever o meu nome. eu tinha 6 anos. guardo a minha professora no coração: mesmo quando ela não nos sorria eu olhava para ela com respeito, admiração: ela ensinou-me as letras. para mim ela era especial: só uma professora podia ensinar as letras. um dia ela fez-me escrever o L maiúsculo vezes sem conta: às vezes olho para eles, escritos a lápis, cheios de curvas. nos dias de greve ela ensinava-nos as letras no jardim, sentada no chão. quando chegava a casa eu mostrava à minha mãe as letras que a professora me tinha ensinado. sempre gostei delas: as letras.
ontem a maria pediu-me: podes-me ensinar a escrever o meu nome? sorri. disse-lhe que isso era uma coisa muito importante: tens a certeza que queres aprender hoje? ela tinha a certeza. e eu ensinei. hoje ela continuou a praticar: mostrou-me maria muitas vezes. e eu, orgulhosa, dou-lhe os parabéns, digo que está perfeito, dou-lhe um abraço. e depois olho para o papel que tenho nas mãos: as letras que eu não guardei. digo-lhe: agora vai brincar. ela tem 3 anos. eu tinha 6. quero guardar as letras. e as vizinhas têm pressa, e o mundo tem pressa e eu a querer guardar as letras. quero guardá-las: mesmo que todos os outros meninos já saibam todas as letras, mesmo que ela demore mais tempo para fazer o L perfeito. quero que ela me mostre todos os dias as coisas novas que aprendeu: o mundo sem pressa num caderno de linhas. quero que ela guarde no coração: o primeiro dia de escola, todas as letras, a professora que as ensinou.
agora ela tem 3 anos: se ela não me pedir, posso guardá-las.


 3.

quando chamamos o miguel ele responde logo: o que é? ele corre até nós e repete: o que é? quando chamamos a maria ela nunca responde. a maior parte das vezes ela está só a fazer as coisas dela, concentrada. sou -e ele concorda- mais paciente que o pai. ele insiste, chama-a muitas vezes: não me ouviste a chamar? às vezes, ao lado dele, digo-lhe: espera. e ela aparece. às vezes quando ele a chama eu estou ao lado dela e vejo que ela está só a acabar: um gesto, um pensamento, uma palavra. e ele chama outra vez e eu digo: ela já está a ir. e um dia li um texto sobre crianças da idade deles, dizia: quando chamar o seu filho conte devagar até 10. mostrei-lhe e disse-lhe que ia começar a contar, disse-lhe para ele contar também. dizia que a criança só precisa de tempo para parar e processar a informação. e decidi partilhar isto com vocês porque é tão simples e funciona. aqui em casa funcionou. chamo: maria. conto até 10. devagar. ela responde: o que é? digo: maria chega aqui. conto 10 crocodilos. ela aparece: o que é? às vezes temos de repetir, mas é raro. antes em 5 segundos já a estavamos a chamar outra vez: 5 segundos não chega. todos os dias aprendo com eles. contar até 10 também me ajuda a mim a ser mais paciente, a viver mais devagar. ao ritmo deles, como deviamos viver todos.

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

ele.

estávamos no natal e eu era empregada de mesa. vivia numa casa que tinha o tamanho de um quarto. eu e ele estávamos juntos há poucos meses. naquele dia eu comecei a chorar: eu que trabalhava de manhã à noite. o cliente que me tratou mal. a minha máquina de lavar roupa que não funcionava. chorei e depois continuei a trabalhar. quando cheguei a casa vi a minha roupa alinhada num estendal improvisado. ele lavou-a toda: uma a uma. no dia que a maria nasceu, depois de as visitas sairem, ele olhou para mim: amo-te mais. disse-o depressa. olhei para ele e sorri, a maria pequenina deitada ao meu lado: não te amo mais, amo-te de maneira diferente. guardei aquelas palavras. quando o miguel nasceu o dinheiro não chegava para tudo. um dia fui ao martim moniz: vendi a libra de ouro que a minha avó me deu. ela deu-ma porque eu ia ser jornalista, eu vendi-a para pagar a luz. quando cheguei a casa dei-lhe o dinheiro: ele chorou. ele passou 6 meses sozinho: perdeu o dia em que ela fez 2 anos, o dia em que ele se sentou e gatinhou pela primeira vez. o dia em que ele deu a primeira gargalhada. ele perdeu tudo porque nos queria dar mais. melhor.
discutimos muito, quase todos os dias: pequenas coisas, nunca grandes. eu nunca atendo o telefone, não aviso que o detergente acabou, faço-lhes as vontades todas, perco as chaves, encho demasiado o saco do lixo. ele revira os olhos e bufa quando está impaciente: eu detesto. ele é insuportável quando tem fome. um dia ele acordou-me às 4 da manhã para me mostrar um peixe muito grande que tinha apanhado: tira-me uma fotografia. ele deixa as meias sujas no chão: ao lado da cama, todos os dias. ele esquece-se das datas. nunca me compra flores. mas também refila comigo porque eu ando descalça com este frio. porque não me sento para comer. ele deixa-me sempre um prato de sopa na prateleira de baixo: eu não chego lá acima. ele é sempre o primeiro a pedir desculpa. às vezes o único. ele chama-nos: meus amores.
nos últimos anos eu mudei. eu não sou a mesma, não sou como ele me conheceu: já não tenho abdominais definidos. as minhas sobrancelhas não estão sempre alinhadas. não uso maquilhagem ou lingerie com renda. não faço amor com ele todos os dias. não faço todas as semanas. não digo amo-te muitas vezes: antes dizia. eu mudei: sou sempre mãe, não sou sempre mulher. e sei que ele gosta de mim na mesma. que ele me vê para lá de todas estas coisas.
e eu também vejo. e amo-o ainda mais: sempre que o vejo a adormecê-los, a levá-los às cavalitas, a correr atrás deles no parque. sempre que ele traz no saco as bolachas que eles gostam, uma carteira de cromos para a maria. quando ele vai ao cinema ver a sininho e decora o nome das fadas. quando ele dá banho à maria e lhe desembaraça devagarinho os cabelos. quando o vejo a fazer ginástica no dia dos pais: a saltar mais alto que os outros. hoje, quando foi trabalhar com os olhos embargados. não desejo melhor para 2015, desejo o mesmo: 2014 foi um bom ano. juntos, com saúde. mas quero mais de nós: eu e ele. quero voltar a passear de mão dada. beijá-lo mais. dizer que o amo mais vezes. quero ser mais paciente, mais dedicada. quero casar com ele numa tarde quente de verão. 



quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

a árvore esquecida.

levei a maria ao sítio onde guardamos as coisas que já não precisamos. coisas que não usamos, coisas que já não queremos. fui lá procurar um cd antigo e levei-a comigo. ela gosta de lá ir. quando entrámos ela viu-a logo: mamã olha: uma árvore de natal. desmanchada, no chão, enfiada num saco demasiado pequeno. ela perguntou-me porque é que aquela árvore estava ali: era da tia mas a tia já não a quer. porquê?- insistiu ela.  ela comprou outra, uma maior, mais bonita. já não precisa desta.
esta é feia?- perguntou ela, de sobrancelha franzida, a observá-la.  não é feia maria, mas a tia já não precisa dela. 
voltámos para casa e ela continuou a falar nela: a árvore de natal ali esquecida. às vezes digo ao miguel que não pode tirar as bolas da árvore porque ela fica triste. e aquela não fica triste ali sem bolas, perguntou ela. percebi a ansiedade dela: uma árvore de natal ali esquecida, sem bolas nem luzes. uma árvore que ninguém quer. e depois eles dormiram e eu fui buscar a árvore. também trouxe as bolas que não combinavam, as luzes que piscam demais, a fita que já não se usa. trouxe tudo. e enquanto eles dormiam salvei-lhe a árvore esquecida: tão magrinha e torta. a árvore que ninguém queria ali no quarto deles. quando a maria acordou perguntou logo: é aquela? e depois a felicidade dela: ela estava tão feliz. continuava a perguntar porque é que a tia já não a queria. ela disse: eu gosto mais desta. a árvore preferida dela: uma árvore que ninguém queria cheia de coisas que ninguém gosta. e tão bonita: olho para ela com os olhos da maria: ela é tão bonita.
a maria continuou ali ao pé dela: tem estrelas e corações e prendas pequeninas. eu, ali no quarto, a apanhar brinquedos do chão: tens muita sorte maria, duas árvores de natal. há meninos que não têm nenhuma. primeiro ela sorriu e disse um não arrastado. a sério, a mãe não está a brincar. expliquei-lhe o valor das coisas: o que custa uma árvore de natal. transformei o valor de uma árvore em iogurtes, arroz, douradinhos e bolachas. ela compreendeu. mas na cabeça dela não fazia sentido: um menino sem árvore de natal é como uma árvore de natal por montar, uma árvore- tão bonita- que ninguém quer. e eu, mãe, falho nisto. às vezes falho e sei que estou a falhar e continuo. estávamos a fazer a carta para o pai natal. o miguel quer um hipopótamo, um rinoceronte, um homem aranha. a maria: uma escavadora. só uma escavadora? sim. não queres mais nada? uma boneca? jogos? -perguntei.
eu quero uma escavadora. e mais maria? ela em silêncio, eu a fazer perguntas. e depois ela disse: uma escavadora e pensos com bonecos. eu a falhar: a maria quer uma escavadora e pensos rápidos com bonecos. ela vai ficar feliz com uma escavadora e eu a insistir, eu a querer que ela pedisse mais uma coisa, eu a falhar. queria ser diferente às vezes: não lhe dar mais do que ela pede, do que ela precisa. queria ser capaz de lhe dar só uma escavadora. às vezes falho, outras vezes recuso presentes: coisas que eles não precisam, coisas que eu não lhes poderia dar. sou eu a tentar, a aprender: a falhar umas, a acertar outras. é este mundo cheio de coisas que não precisamos que às vezes me ganha. e eu que  continuo a aprender com eles: aquela árvore é tão bonita. devia ter comprado só uma escavadora.

 

[a maria, sentada no chão, a baloiçar a estrelinha pendurada ouve-me a explicar o valor das coisas para os pais do menino que não tem árvore de natal e diz baixinho, como quem pensa alto: podiamos-lhe dar esta. e podemos. podemos dar esta árvore tão bonita a um menino que não tenha nenhuma.]

terça-feira, 18 de novembro de 2014

a minha quinta.

fomos passar a páscoa com os meus avós. a viagem era longa. o coração do meu avô estava a recuperar. a última vez que eu o tinha visto era natal e ele estava muito magro numa cama de hospital. abril: passámos uma semana lá: eu, a minha irmã, a minha prima. comemos entremeada e chouriça assadas na lareira. bebemos vinho com coca-cola. eu tinha 16 anos. as pessoas ofereceram-nos saquinhos de amêndoas coloridas. naquele dia acordámos às 6 da manhã: iamos a favaios apanhar o autocarro para lisboa. a carreira. ele estava sentado na cama, encostado às almofadas. o meu avô chorava sempre no dia em que iamos embora. antes de sair ele chamou-me: pediu-me o aquecedor. levei-o depressa. tinha a mochila às costas. beijei-o na testa. saí.
o meu avô morreu naquela noite.
eram 5 da manhã quando ligaram para nos contar. a minha mãe e o meu pai acordaram-me. eu estava triste: perguntava-me se ele teria morrido se tivessemos ficado mais um dia. levantei-me e procurei por ela: a minha mãe. ele tinha morrido: o meu avô, o pai dela. ela estava a lavar a loiça. o dia ainda não tinha nascido: ela estava a lavar a loiça. porque é que ela não está a chorar? 
naquele dia fizemos todos juntos a mesma viagem. quando chegámos já tinha anoitecido: tudo tão diferente. subimos as escadas: eu e o meu pai, as minha irmãs, a minha mãe à frente. ela foi a primeira a entrar. nunca o esqueci: ela gritou. a minha mãe atirou-se contra a porta a chorar: ela gritava. ela tinha um casaco castanho que era muito grande: os gritos abafados pelo casaco. toquei-lhe no braço: mãe. e depois vi.
no chão da sala: o meu avô. eles tiraram aquela mesa grande onde nos sentávamos todos nos dias de festa. erámos tantos. o meu avô ficava sempre na ponta. comiamos cabrito e tripas. a minha avó fazia um doce que tinha natas, pudim boca doce e pêssego enlatado por cima. naquele sítio estava o meu avô: um caixão aberto, rodeado de flores. a minha avó sentada no sofá. as pessoas chegavam e saiam, davam-nos beijinhos e diziam que tinham muita pena. dormi algumas horas. no dia seguinte ele continuava lá: as pessoas continuavam a chegar e a sair. olhei para ele e passei-lhe a mão pelo cabelo gelado. o meu primo, sentado à minha frente. ele disse: às vezes parece que se olhar fixamente ele se mexe. ele não se mexia. ele estava só ali: no chão. nenhum de nós sabia que ele ia estar no chão.
ouvi um barulho. fui à cozinha e encontrei a minha avó: ela, de avental, a bater bifes que já estavam temperados. porque é que estás a fazer isso? ela não me respondeu.
quando o carro que ia levar o meu avô chegou alguém nos foi avisar. a minha avó na sala, de avental, ajoelhou-se no chão ao lado dele. ela agarrou um ramo de flores. depois outro. ela disse: levem isto. e depois ela gritou: levem isto, tirem isto daqui. levem-no daqui. sentada no sofá vi a minha avó a atirar as flores contra o chão a gritar: levem-no daqui. a minha querida avó.
naquela noite dormimos na cama do meu avô: eu, a minha irmã, a minha prima. a minha avó dormiu ao nosso lado numa cama pequenina que se fechava ao meio. enquanto dormiamos ouvi-a chorar.

já escrevi aqui sobre a minha relação com a morte. não é boa.
o meu medo da morte começou quando vi a minha prima deitada na minha cama: inconsciente. naquele dia pedi ao deus em quem não acredito que não a levasse.
o meu medo voltou no dia em que perdi o primeiro filho.
piorou quando perdi o segundo.
às vezes eu dizia-lhe que precisava de ir ao médico: estou sempre a pensar que vou morrer.
o medo, a ansiedade: fazem o meu corpo doer mais. não me deixam dormir. depois desaparece: passam semanas, meses. e depois vejo alguma coisa que me muda: que me faz ter medo. ontem publiquei no facebook a razão porque não quero lá voltar: quero viver numa quinta. o facebook tem-me mostrado o mundo: o mundo é demais para mim. saber algumas coisas faz-me sentir pior. luto todos os dias para me sentir calma: não vai acontecer nada. respiro fundo. agradeço pelos dias iguais. algumas pessoas escreveram-me: algumas compreendiam, algumas disseram que ver as coisas más é o que nos faz valorizar as boas. mas e quando as coisas más nos impedem de viver as boas?

ele convidava-me muitas vezes: desde que a maria nasceu que nós não iamos jantar fora. só eu e ele. em setembro ele convidou-me outra vez. ele queria ir a um restaurante em algés. a 15 minutos da nossa casa. tinhamos de andar de carro 15 minutos para lá chegar. disse-lhe que não: disse-lhe que jantava com ele se fosse mais perto. ali: pensei na morte: eu e ele dentro do carro, eles sozinhos, eles sem ninguém. os dias passaram, ele não voltou a perguntar. naquela tarde comecei a pensar em mim: os meus medos. eu sei ser mais forte do que eles. às vezes sei. naquela tarde reservei uma mesa para dois num restaurante em algés. para ele aquele jantar significou muito: foi o primeiro jantar a dois em 3 anos. para mim significou mais: naquela noite venci o medo. 

eu não preciso de coisas más para valorizar as boas: elas não me fazem abraçar os meus filhos mais vezes, nem com mais força. eu estou nessa fase: não quero saber.  não quero ver.
deixar de usar o facebook não é um desafio pessoal. eu não vou obrigar-me a manter-me longe. é a minha defesa. preciso dela agora. quero dormir melhor. quero parar de chorar por lutas que não são minhas: esquecer a dor que não me pertence. quero isso: ser forte. ler e esquecer. quero que o meu medo seja mais pequeno que a minha paz. quero falar dos meus medos. ultrapassá-los. quero parar de querer mudar o mundo. quero viver numa quinta.



domingo, 19 de outubro de 2014

num dia diferente.

ontem foi um dia especial. diferente.
quando criei este blogue tinha apenas um objectivo: partilhar. partilhar com vocês, partilhar tudo com eles, um dia mais tarde. no dia que partilhei a história da maria, que num acto espontâneo de generosidade deu o seu único bebé com cabelo, aconteceu: comecei a receber convites, ofertas. aceitei três prendas para os meus filhos: percebi pelas palavras que me escreviam que era importante para quem me as oferecia eu aceitar. recusei todas as outras: roupas caras que eu não lhes visto, coisas que eu não preciso, sítios onde não me iria sentir confortável. a semana passada recebi outro convite: dormir com os meus filhos num hotel de 4 estrelas com direito a bilhetes para o jardim zoológico e acesso aos bastidores para conhecerem os golfinhos. perguntei-lhes o que precisava de fazer em troca. se precisava de pagar alguma coisa. se precisava fazer publicidade. eles disseram: nada. só ir. levei alguns dias para lhes responder. e depois pensei: podia eu dar-lhes esta oportunidade um dia? provavelmente não. e foi por isso que, humildemente, eu aceitei. a maria e o miguel estavam ansiosos por irem ao zoo. eu e ele ansiosos por tomar banho numa banheira: temos um quadrado que é tão pequeno. a minha mãe riu-se quando lhe liguei a perguntar se precisava levar toalhas. descobri mais tarde que também não precisava de ter levado o secador de cabelo. vi a cara deles: foi a primeira vez que entraram num hotel de 4 estrelas. foi a primeira vez que eu dormi num. era bonito. foi divertido vê-los admirados com tudo: com cartões que abriam portas, com uma televisão fininha pendurada na parede, com um corredor tão comprido, com um elevador que tinha música. aquela vista de um 9º andar para uma lisboa cheia de luzes, tão diferente do nosso rés-do-chão.
e depois dormimos: todos na mesma cama. 
este ano não tivemos direito a férias: aquela noite disse à maria que estávamos de férias. ela sorriu. ela passou o verão todo a pedir férias: ela pedia sempre que eu dizia que os amigos não estavam no parque porque tinham ido de férias. eu também quero ir, dizia ela.
eu não tomei o tal banho de imersão: tomei um duche rápido enquanto o miguel dava gargalhadas escondido num roupeiro vazio. a maria ficou encantada com tudo o que era pequenino. perguntou-me se podia ficar com ele e eu disse que sim. ela olhou para mim de olhos bem abertos e perguntou: a sério? ela tinha as duas mãos juntas e no meio lá estava ele: aquele sabonete tão pequenino. durante o pequeno-almoço dei-lhe um pacote pequenino de marmelada, um frasco pequenino de doce de morango: ela sorriu e guardou-os no bolso. como tesouros.
fiquei feliz por ter dito que sim, que aceitava. às vezes digo que não porque acho que me vou sentir a mais: eu, de calças de ganga e t-shirt velha. com cabelo frisado e sobrancelhas por arranjar. digo que não: não a jantares com amigas, a fotografias com muita luz, a sítios que não sejam a minha casa. perco oportunidades. fiquei feliz por ter dito que sim: por lhes ter dado esta oportunidade. fiquei feliz quando a maria tocou naquele golfinho e se virou para mim: ela tinha o sorriso mais bonito. ela estava feliz: tão feliz. o miguel viu as girafas, os macacos e os elefantes: ele disse muitas vezes que estava feliz. e ele ficou feliz com ovos e bacon para o pequeno-almoço. 
pensei se devia escrever isto aqui: a tal publicidade que chateia. não tinha de o fazer. mas ontem foi um dia especial e era isso que eu queria partilhar. só isso: estas palavras, estas imagens. foi um dia especial para eles. por isso vou agradecer, só desta vez, ao novotel: obrigado, por todos os sorrisos. foi um bom dia. especial: como um sabonete pequenino que hoje encontrei escondido debaixo da cama. sei que ela vai guardá-lo para sempre. como um tesouro das nossas férias.


sábado, 11 de outubro de 2014

sou mãe: falho.

a minha mãe recortava bonecas em cartolinas e desenhava-lhes roupas para nós brincarmos. ela vendia doces para fora: na nossa cozinha uma bancada de mármore muito grande estava sempre coberta de brigadeiros e doces de ovo com caramelo e uma noz em cima. a nossa casa cheirava a chocolate e ela deixava-nos sempre rapar a tigela. no dia em que a minha irmã mais nova nasceu ela passou na minha escola para me explicar o que ia acontecer. eu tinha 6 anos e ela não queria ir sem me dizer adeus. no gira-discos ela ouvia o bolero de ravel e segurava as nossas mãos pequeninas e fazia-nos rodopiar. preparava-nos festas de anos e os bolos eram caras de palhaços com bocas feitas de pintarolas e cabelos de fios de ovos. ela nunca me deu uma palmada. ela levava para casa cães que encontrava na rua e tomava conta deles até lhes encontrar um dono. ela enchia sacos de comida e levava-me pela mão até às barracas nas traseiras da nossa casa. chamava-me verinha. ainda chama.
o meu pai viajava muito mas sempre que voltava trazia-nos chocolates muito grandes que comprava no aeroporto. um dia eu fugi da creche e fui ter com ele à fábrica onde trabalhava: ele nunca mais me levou para lá. lembro-me de estar na cama com ele e a minha irmã mais velha: ele contava-nos a história da branca de neve com vozes engraçadas. no dia em que a minha mãe foi para a maternidade ele fez-nos muitos ovos estrelados para o almoço. ele dava-nos banho e embrulhava-nos nas toalhas com um abraço. na praia levava-me ao colo até à toalha para eu não me sujar com areia. ele nunca me deu uma palmada. ele fazia puzzles comigo no chão da sala. chamava-me verita. ainda chama.
é engraçado como a nossa mente funciona: estas são as coisas de que eu me lembro. eu era pequenina: não me lembro de muito. nesses dias que eu não lembro eles faziam o melhor que conseguiam. e davam-me colo, limpavam-me as feridas, secavam-me as lágrimas, faziam-me cócegas. e eu que não me lembro de muito. 

[naquele dia eu estava com a minha irmã a fazer desenhos. não sei que idade tinha. talvez 5 porque ainda era só eu e ela. o meu pai entrou no nosso quarto com outro senhor. juntos foram ver a clarabóia que ficava lá no alto, onde nenhuma de nós chegava. o senhor ia arranjá-la. aproximei-me deles e dei ao meu pai o desenho que tinha acabado de fazer. era para ele. ele agradeceu-me e continuou a explicar ao senhor o que era preciso fazer. sentei-me a fazer outro desenho. quando a clarabóia se abriu caíu areia para o chão, estava suja. naquele momento a olhar para eles vi: o meu pai pediu desculpa ao senhor, apertou o desenho que lhe dei com as mãos e usou-o para limpar o vidro. ele fez tudo muito depressa, sem pensar. eu nunca o esqueci.]
[naquela noite eu estava sentada no chão da sala. estava escuro. tinha 6 anos. tinham passado horas desde que a minha irmã mais nova tinha começado a chorar. sentada no chão da sala eu olhava para a minha mãe: de robe comprido e um bebé muito pequenino nos braços. ela era a melhor mãe que eu podia ter: ela estava sempre lá. e nós éramos agora 3 filhas, uma casa e um casamento que nunca foi perfeito. na escuridão eu ouvia o choro da minha irmã, o choro da minha mãe que se balançava para trás e para a frente. ela estava sozinha e cansada. e zangada, ela disse: cala-te, cala-te senão atiro-te da janela. ela era a melhor mãe que eu podia ter: calma e carinhosa. e depois ela gritou. e eu nunca o esqueci.]

todos os dias tento dar o meu melhor: dou-lhes colo, limpo-lhes as feridas, seco-lhes as lágrimas, faço-lhes cócegas. esforço-me todos os dias. abraço-os e espero que eles me larguem primeiro: abraço-os o tempo que eles precisam. será que eles se vão lembrar disso? e depois desligo-me e faço coisas e digo coisas: coisas sem pensar: terei feito alguma coisa que eles não vão esquecer? eu nunca o esqueci. prometi a mim mesma fazer diferente. e um dia deitei o miguel muito pequenino na minha  cama: ele chorava. segurei-o nos meus braços durante horas enquanto ele chorava e depois deitei-o na minha cama: tão pequenino. mas a limpar as minhas lágrimas gritei bem alto: cala-te. olhei para trás e ela ali: a maria. a pequena maria a olhar para mim. e eu que estava sozinha e cansada.
ela faz-me desenhos e recorta pedaços de revista que me entrega embrulhados numa folha: é para ti. guardo-os a todos. pedaços de panfletos de supermercado que guardo durante dias: se ela me perguntar por eles mostro-lhe. ela nunca pergunta. depois deito-os no lixo, mas abro bem o saco e empurro-os lá para o fundo para ela não os ver. sinto-me sempre mal quando o faço. depois esqueço. e todas estas coisas que eu faço fazem-me pensar em nós: seres humanos. como pequenas coisas sem importância nos marcam e definem. esse é o meu maior medo: falhar. esquecer-me que eles me estão sempre a observar e falhar: mesmo ali, naquela pequena coisa. medo de ser humana: vou falhar muitas vezes. os meus pais foram os melhores pais que eu podia ter, deram-me amor, conforto, segurança. e depois um dia distrairam-se. e eu nunca o esqueci.

domingo, 5 de outubro de 2014

a irmã mais velha.

à mesa do jantar descasquei-lhe uma pêra, cortei-a em pedaços, coloquei-a num prato e dei-lhe. come a pêra miguel. não, disse ele: nã quéo. insisti. perguntei-lhe se preferia uma maçã. ele disse que sim. descasquei-lhe uma maça, cortei-a em pedaços, coloquei-a num prato e dei-lhe. come a maçã miguel. não: nã quéo. de cara zangada, olhos arregalados disse: nem penses, tens de comer fruta. a maria, sentada ao lado dele, observava em silêncio enquanto comia a pêra que ele não quis. eu e o miguel: ele tão pequenino, de cara séria, teimoso. eu: a mãe a fazer o meu papel. tens de comer a fruta. até que ela pegou na maçã dele e a trincou. -maria!, disse eu. ela não me respondeu. ela disse: que delícia! prova miguel, queres? queres provar? come como eu, se não gostares podes cuspir, está bem? prova, vá lá, prova. e ele provou. ele comeu a maça toda. ela olhou para nós com um sorriso. ela tem 3 anos e 4 meses: ela é a irmã mais velha.


sexta-feira, 19 de setembro de 2014

hoje, um ano depois.

passou um ano: há um ano tinhamos acabado de chegar à noruega. eu, a maria, o miguel: tinhamos esperado 6 meses para ir ter com ele.
quando as pessoas me perguntam como é que foi estar em oslo respondo sempre depressa: foi horrível. mas não foi horrível. foi diferente. às vezes tenho vontade de lá voltar só para esquecer os maus momentos: para fazer as pazes com aquela cidade, para criar novas memórias.
a vida em oslo arrastava-se: os dias eram curtos, as horas intermináveis. viviamos num apartamento do patrão dele: tentámos arrendar a nossa própria casa, nunca conseguimos. nunca senti que fossemos tratados de maneira diferente a não ser quando tentávamos arrendar uma casa: não éramos noruegueses. passámos muitas horas dentro daquela casa. ele saía para trabalhar, eu ficava com eles. os dias foram ficando cada vez mais curtos: o sol chegava tímido às 9 horas e desaparecia depressa, logo depois de almoço. lembro-me de estar com eles a brincar no parque: noite escura às 3 da tarde. isso fazia-nos rir às vezes: quando demorávamos tanto tempo a despacharmo-nos para sair que quando conseguiamos já estava escuro. a maria e o miguel dormiam sestas longas, embalados pela chuva. nas primeiras semanas tive a companhia do meu pai, depois era só eu: eu ali naquela casa. eu à espera: dele que estava a trabalhar, deles que estavam a dormir. havia pouco para fazer naquela casa. sentava-me naquele sofá a olhar para a janela: ruas desertas. senti-me muito sozinha: senti-me sozinha muitas vezes. eu, a maria e o miguel dormiamos em duas camas pequenas que juntámos com uma corda. ele dormia ao lado, no chão. a casa estava vazia: as gargalhadas deles faziam eco. para sair com os dois tinha de descer 3 andares de escadas. não conhecia as ruas, estava escuro. a chuva. a neve. eles ficaram doentes muitas vezes: corri para o hospital muitas madrugadas. às vezes os dias eram fáceis e tudo nos fazia rir. às vezes não eram.
a noruega foi difícil: foi difícil o frio -tanto frio- que me congelava as mãos, que me aumentava as dores. foi difícil ver o meu pai chorar pelo skype: as saudades. foi difícil ver a maria tão triste: ela cada vez mais fechada, mais distante. ela a mudar. discutiamos muitas vezes: eu e ele. eu e ele ali: às vezes a enfrentar os dias juntos, às vezes tão longe um do outro. tive medo. eu chorava com medo do fim. eu a guardar os meus medos em silêncio para os fazer sorrir. a eles: a maria, o miguel. eu a chorar e a perguntar-lhe baixinho enquanto eles dormiam: o que é que estamos aqui a fazer? foi difícil. foi. mas depois nós juntos, os momentos felizes: o primeiro aniversário do miguel. o dia em que eu acordei e corri para os chamar: a neve que cobria tudo, nós de pijama à janela. a maria a ensinar o miguel a andar: os primeiros passos do rapazinho. ela a fazer bonecos de neve. eu e ela a comermos salsichas na rua, enroladas num cobertor: a cara dela cheia de ketchup. nós na esplanada sempre que o sol aparecia. não tirei muitas fotografias na noruega. tenho muitas deles dentro de casa, tenho poucas daquela cidade. acho que na altura me faltou a vontade de a guardar. hoje arrependo-me de não ter registado tudo: as horas que passávamos no supermercado a tentar perceber o que era cada coisa. o bife que um dia decidimos comprar e dividimos por todos: um bife custava 20 euros. as visitas do daniel, o colega de trabalho dele, que nos enchia a casa e fazia os meus filhos sorrir. ela ainda pergunta por ele. a maria a fingir que falava norueguês. as crianças a dormirem nos carrinhos à porta das creches. o gelo no chão: eu a escorregar. o português de fio de ouro ao peito que conhecemos no parque.
a noruega não foi horrível. mudou-me: dou ainda mais valor à minha família: os meus pais, as minhas irmãs. gosto de os ter por perto, de ver a minha sobrinha crescer. fez-me ter mais respeito pelos que moram longe. não é fácil. nunca é a nossa casa, o nosso sítio. dou mais valor ao que tenho, ao que me rodeia. pequenas coisas. às vezes pergunto-me como estariamos agora se lá tivessemos ficado. provavelmente estariamos bem: numa casa nossa, com amigos novos, com mais dinheiro. não seriamos mais felizes do que somos aqui. nunca. eu sei disso.
na madrugada em que fui para o aeroporto a minha mãe dormiu comigo. eu e ela na cozinha preparámos o pequeno-almoço. eu estava com medo do vôo. olhámos para o relógio: tinha de os acordar. os minutos passaram depressa. quando chegou a hora caminhei pela casa: despedi-me. o táxi chegou: já estava na hora? parou- disse a minha mãe. o relógio da tua cozinha parou.
às vezes é assim que eu penso nesta passagem pela noruega: todo o tempo que estivemos lá só existiu ali. quando voltámos: o tempo ali parado. o tempo todo no relógio da minha cozinha. estava tudo na mesma, não tinha mudado nada. e pela primeira vez isso não nos incomodou: só confortou os nossos corações.



noruega2 from vera agostinho on Vimeo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2014

a árvore.

vamos cedo para o parque. uma senhora aparece. todos os dias ela apanha as folhas do chão. às vezes deita-as no lixo, às vezes guarda-as no saco. fala sozinha. eles param a olhar para ela. a maria pergunta-me sempre: porque é que a senhora está a fazer aquilo? respondo sempre: não sei. depois a senhora olha para eles que, assustados, correm depressa. escondem-se debaixo do escorrega. ontem a maria não correu: ontem ela ficou ali parada, colada à grade, com as mãos cerradas. ela perguntou: porque é que estás a fazer isso? a senhora, curvada a apanhar folhas, endireitou-se, olhou para a maria e disse: porque esta é a minha árvore. ela contou à maria que há muitos anos- há tantos, tantos anos- a escolheu num canteiro e a levou na mão. que a viu crescer lá em casa dela. que depois a plantou ali. ela disse à maria que apanhava as folhas velhas e caídas para ela estar sempre bonita. que falava com ela para ela não se sentir sozinha. que às vezes o vento soprava e as folhas diziam-lhe adeus. a maria, de testa franzida, ouviu tudo muito atenta. quando a senhora se foi embora ela disse-lhe adeus. e depois olhou para cima e gritou: árvore nós ficamos aqui mais um 'cadinho.


quinta-feira, 5 de junho de 2014

nós temos tudo.

nós não temos muito dinheiro: não vamos a restaurantes, compramos marca branca, roupa na primark. não temos iphones, nem plasmas, nem bimby. nunca comemos bifes do lombo. temos um carro que às vezes não pega. nas férias vamos às praias da caparica. vendemos o que já não precisamos para ganhar algum. tentámos emigrar para não estarmos sempre a contar tostões. nunca conseguimos poupar: nunca sobra nada. houve meses piores: em que um pacote de fraldas fazia diferença nas contas. em que adiávamos as contas da luz para o mês seguinte. mas agora as coisas vão correndo bem, vão andando: e às vezes compramos frango assado para o jantar. um brinquedo novo para eles. entradas no oceanário. caracóis e gelados na esplanada. o nosso frigorífico tem sempre comida. eu faço um bolo todas as semanas. vivemos bem: não sinto falta de nada.
em abril ele foi despedido.
chegou a casa: abraçou-me. pediu desculpa. disse-me: fui despedido.
disse-lhe que ia correr tudo bem, que iamos arranjar trabalho: ele, eu. eu ia servir às mesas outra vez. a maria e o miguel dormiam a sesta na nossa cama. conseguiamos vê-los: um sono já leve. vi na cara dele o medo de não ter o que lhes dar: um brinquedo novo. gelados na esplanada. uma bolacha. um medicamento. uma sopa. encostado à parede ele chorou enquanto eu lhe limpava as lágrimas. 

ele começou a trabalhar este mês.
foram semanas difíceis: ele a adaptar-se a estar sempre em casa connosco. eu e eles a adaptarmo-nos a estar sempre em casa com ele. às vezes mais nervosos porque os dias passavam. às vezes mais deprimidos porque os dias passavam. às vezes com medo porque os dias não paravam de passar. é mais difícil do que se pensa: lidar com isto foi difícil.
mas passou: ele começou a trabalhar. correu tudo bem. tivemos sorte.
eles não sentiram falta de nada.

estava a pensar em todas estas coisas quando vi um apelo: uma família em dificuldades. o pai desempregado, a mãe, um filho, uma menina como a maria. pediam alimentos. pensei que podiamos ajudar. não acredito em deus: naquele momento apeteceu-me agradecer-lhe este novo trabalho. expliquei à maria o que íamos fazer: iamos comprar comida para uma menina como ela. e ela ajudou-me a colocar as coisas no cesto enquanto dizia: massa para a menina. arroz para a menina. leite para a menina. cereais para a menina. disse-lhe que se ela quisesse também podia dar um brinquedo dela à menina. quando chegámos a casa ela correu para o quarto para o escolher.
sozinha na cozinha passei os alimentos para um saco grande: a massa, o leite, o feijão, o arroz.  lembrei-me que não tinha arroz agulha na minha despensa: tinha carolino, arroz de risotto, basmati, integral. não tinha agulha. guardei um dos 4 pacotes na minha despensa.
a maria apareceu à minha frente com a carolina na mão: queria dá-la à menina. perguntei-lhe se tinha a certeza. se não ia sentir falta dela: era a única boneca que ela tinha com cabelo. ela pediu durante meses um bebé com cabelo. ela disse que tinha a certeza: queria dá-la à menina: meteu-a no saco.
fui espreitar o miguel: dormia aconchegado, enrolado nos meus lençóis que cheiravam a amaciador. estava a ficar melhor da gastroenterite: dei-lhe tudo o que ele precisava nesses dias: medicamentos para as cólicas, peito de frango cozido, papa de arroz, bananas e puré de maçã, torradas com compota. não lhe faltou nada. beijei-o na testa: deixei-o dormir.
fiz uma chávena de café, cortei uma fatia do bolo que fiz naquela semana e sentei-me no sofá de 4 lugares a ver um dos 74 canais que nunca vejo. quando olhei para o lado vi a maria: estava a brincar com a carolina. perguntei-lhe se já não a queria dar. ela respondeu-me que sim, que a queria dar. estava a brincar com ela porque "às vezes vou ter saudades dela e ela vai ter saudades minhas". eu não respondi: sorri: olhei para a televisão.
à minha frente sempre: a maria. para lá e para cá. parou: com as mãos nos meus joelhos disse-me "sabes mãe, a carolina é a única que tem cabelo, mas este bebé tem dentes, este tem chapéu, este tem uma banheira e este fala.": atrás dela alinhados no chão: 4 bonecos. ela tinha um sorriso no rosto enquanto apontava para eles. "vês?"-perguntou. vi. vi: carolino, risotto, basmati, integral.
levantei-me envergonhada. eu não sou uma pessoa egoísta, a sério que não. mas senti-me a maior, a pior das egoístas: senti-me mal. mais pequenina do que ela, que com 3 anos já é tão grande. disse-lhe que sim, que via. disse-lhe que ela tinha razão. chamei-me nomes enquanto tirei o arroz agulha da minha despensa e o coloquei no saco: a carolina já lá estava outra vez.
às vezes digo que os meus filhos me mudam todos os dias, me ensinam coisas: grandes lições.
uma vez uma amiga que ainda não é mãe perguntou-me: a sério? tipo o quê?
tipo isto, "vês?".


sexta-feira, 23 de maio de 2014

a vizinha, o velho, o homem do saco.

ela tem cabelos brancos. usa batas aos quadradinhos. mexe-se devagarinho. mora na cave do prédio ao lado: a vizinha. às vezes quando estendo a roupa vejo-a no terraço: pergunta sempre pelos meninos. diz-me sempre que quando precisar posso lá deixá-los, ela toma conta deles. sabe o nome da maria e do miguel. quando nos cruzamos com ela na rua ela pergunta sempre à maria: posso levar o mano para a minha casa? eu sorrio e espero pela resposta. ela diz sempre que não. diz muito baixinho que não. e depois seguimos caminho e a maria olha muitas vezes para trás.
e às vezes o miguel não quer comer e atira o prato de massa para o chão, espalha o papel higiénico pela sala, grita muito alto quando lhe quero mudar a fralda, levanta a mão à maria, rasga os livros dela, trepa a mesa. e eu digo-lhe: às vezes digo: menino mais uma dessas e vais para a casa da vizinha. às vezes eu não o digo com um sorriso. ele sorri sempre, diz que sim com a cabeça. a maria fica calada.

hoje quando acordámos estava a chover. as minhas dores: os meus pés, o meu cotovelo direito, os meus punhos. estiquei um rolo de papel no chão, tirei-lhes as meias, cobri-lhes os pés de tinta. queria fazer alguma coisa por eles: queria esquecer as minhas dores. eles correram pelo papel deixando pegadas coloridas para trás. gritaram e deram gargalhadas sempre que escorregaram e ficaram cobertos de tinta. a maria tinha uma pinta na testa. sentada no chão comecei a pintar com os meus dedos. estava longe: a sentir a tinta a escorregar, a desafiar a dor no meu dedo. quando olhei para o lado vi: o miguel na sala a olhar para a televisão com os pés no tapete. gritei: não gritei com ele. dei um grito. gritei porque me tinha esquecido de fechar aquela porta e ele lá estava com os pés em cima daquele tapete que já tinha nódoas de plasticina, de leite com chocolate, de canetas de feltro. quando eu gritei a maria gritou também. quando eu, ainda sentada, disse: vem para aqui migas, a maria disse também, muito aflita, vem para aqui migas. eu repeti duas vezes: vem para aqui. de repente ele virou-se para trepar o sofá: ele, coberto de tinta. levantei-me num salto, corri até ele, peguei-lhe ao colo. durante todo esse tempo a maria não parou de gritar. quando me virei para ela e pousei o miguel em cima do papel perguntei-lhe porque é que ela estava a gritar: vi naquele momento: ela não me estava a imitar, ela não estava a brincar: ela estava assustada. peguei-lhe nos braços cobertos de tinta e perguntei-lhe: o que é que se passa. ela chorava. perguntei-lhe outra vez. disse: tens de me dizer. ela soluçava quando me disse com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto: eu não quero que o mano vá para a vizinha.
o meu coração ficou em pedaços.
não senti dores no meu corpo: naquele momento as palavras dela fizeram-me sentir a pior mãe. a minha dor era tão pequena. olhei-a nos olhos. disse-lhe que nunca o faria: nunca vou fazer isso. pedi-lhe desculpas por todas as vezes que o disse. prometi nunca mais o repetir. sempre que penso naqueles gritos de pânico: ela a pensar que o miguel estava a fazer a maior asneira de todas. ela a pensar que eu estava muito zangada e o ia castigar. eu não sou assim: eu não os castigo porque eles me pintam o sofá ou as paredes. ou porque me rasgam os livros. às vezes ele diz-me que eu devia ter mais gosto pela nossa casa, que não os devia deixar mexer porque eles estragam. eu não me podia importar menos. mas mesmo assim ela pensou que eu o ia castigar: o meu coração ali: em pedaços. abracei a maria com muita força.

em pé, encostada à parede, a olhar para os dois a pintarem os braços um do outro senti-me triste. senti-me orgulhosa. humilde. triste por tê-la um dia feito sentir tanto medo. orgulhosa pelo amor tão bonito que ela sente pelo irmão. humilde: a minha filha de 3 anos acabara de me ensinar uma lição. todos os dias em tudo o que eu faço: faço-o porque quero que eles se sintam amados. seguros. felizes. mas ela tem emoções e medos: não os vou voltar a subestimar. não vou assustá-los, vou respeitá-los.
vou ser melhor: da próxima vez eu vou dizer à vizinha que ela não o pode levar. nunca.
prometo maria.

segunda-feira, 12 de maio de 2014

a altura certa.

a maria não sabe as cores.
às vezes acerta e o verde é verde. para ela não há amarelo nem azul: há a "cor do sol" e a "cor do céu". nunca se lembra da palavra branco nem da palavra preto. eu não sei porque é que a maria não sabe as cores. pintamos com lápis de cor, fazemos bolos de plasticina colorida: eu digo-lhe o nome das cores e ela repete. no dia seguinte o amarelo é a "cor do sol".

a maria sabe contar até 10 mas salta sempre o 7.
um dois três quatro cinco seis oito nove dez. digo sempre: esqueceste-te do 7. ela sorri e diz "e sete".

nunca lhe ensinei uma letra.

numa manhã do mês de abril: eu, uma ama, uma avó. estávamos no parque. a maria subia uma corda, o miguel brincava com carrinhos. perguntaram-me a idade deles. ele tem ano e meio. a maria está quase a fazer 3 anos. já não tem idade para usar fralda: aquela avó que eu não conhecia disse-me que a maria já não tinha idade para estar de fralda. já me o tinham dito antes: a mim, a ela: está mais que na altura. diziam-me mesmo sem eu perguntar.

o ano passado: a maria tinha acabado de fazer 2 anos. alguém me disse: agora está na altura de deixar as fraldas. ela tinha pouco mais de 2 anos e foi fácil e rápido. e pronto: ela usava cuecas e todos lhe deram os parabéns. alguns meses depois fomos para a noruega e a maria, insegura, chorava e pedia-me para usar fralda. arrumei as cuecas num saco, nunca lhe pedi para as voltar a usar.
este ano: dois dias depois de fazer 3 anos a maria disse-me "amanhã quero vestir estas cuecas da porquinha peppa". perguntei-lhe se tinha a certeza, ela disse que sim. e pede sempre que tem vontade, acorda-me de madrugada porque não quer fazer na fralda, não precisa de aplausos nem de incentivos. ela tomou a primeira grande decisão dela. e está feliz.
o ano passado foi fácil e rápido: mas um dia ela teve um acidente no parque e chorou de vergonha à frente de todos os meninos. um dia ela sujou o tapete, o chão, a roupa. ela chorou sempre que falhou. um dia eu quase desisti ao vê-la chorar.
devia ter desistido.

há dois meses levei o miguel ao pediatra: ele escreveu "menos de 5 palavras". os avós diziam que ele tinha de falar, desenrolar a língua. não diz nada? e ele que não dizia nada.
eu nunca insisti: nunca me sentei à frente do miguel e repeti a mesma palavra vezes sem conta: de-va-ga-ri-nho. talvez a culpa fosse minha. eu falava com ele como uma pessoa fala com outra pessoa. hoje: a maria diz que o miguel já aprendeu a falar. ela aponta para as coisas e diz: copo. livro. macaco. ele repete tudo o que ela diz. ele acorda de madrugada e pede água. ele estica-me o braço e diz "dá a mão". ele fala: e eu que ainda não contei as palavras.

eu não entendo isto de estar na altura: na altura de deixar de mamar, na altura de começar a andar, de dormir na cama dela, de comer sozinha, de falar, de deixar as fraldas. e agora, com as cuecas da porquinha vestidas, está na altura de deixar a chucha. eu nao sei quem definiu isto, isto das alturas certas. na minha casa não há alturas certas: há pessoas.

Silvana Quattrocchi Montanaro. Understanding the Human Being. - See more at: http://www.howwemontessori.com/#sthash.e41smLzH.dpuf
f adults succeeded in understanding that behind the child's 'No' is the desire to be recognised as a person which is already able to resolve many problems related to him, they might be able to ask for his opinion much more often than is generally done.  - See more at: http://www.howwemontessori.com/#sthash.e41smLzH.dpuf
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naquela manhã de abril a avó disse-me tudo o que o seu neto conseguia fazer antes dos 3 anos: andava sem fralda, falava muito bem, sabia as cores, os números e as letras. eu ouvi e não lhe disse nada sobre a maria: ela andava descalça, de gatas, a rugir como um leão solto no parque. devia-lhe ter dito.
devia-lhe ter dito que a maria parte sempre a bolacha que a vizinha lhe dá e guarda metade no bolso para dar ao miguel. que ela sabe lançar um papagaio. que me pergunta todos os dias se já estou melhor das costas. que ela chama o mano de "meu miguelito". sobe o escorrega ao contrário: o escorrega grande. ela parte um ovo sem deixar cair cascas para o bolo. ela explica os desenhos animados ao irmão e no fim pergunta-lhe se percebeu. e sabe que o amor é da "cor do benfica".

ela tem 3 anos.
ela tem o tempo todo.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

abril e um filho.

abril está a acabar. 
há um ano abril parecia não ter fim: foi o mês em que ele foi para a noruega. eu com os dois: o miguel quase a fazer 6 meses, a maria quase a fazer 2 anos. naquele primeiro sábado sem ele eu descobri. eu não tinha pensado nisso até àquele dia: até ao dia em que sozinha me sentei a ver os meus filhos a brincar. estava enjoada. naquele momento eu soube: estava grávida. 
naquela noite eu chorei enquanto eles dormiam. liguei-lhe enquanto chorava: disse que não queria. disse que não ia aguentar: eu, o miguel quase a fazer 6 meses, a maria quase a fazer 2 anos, um bebé na minha barriga. naquela noite chorámos os dois, longe um do outro. no dia seguinte quando acordei eu sabia: eu ia ter outro filho. eu não estava a chorar quando lhe disse que iamos conseguir, que ia tudo correr bem: iamos ter outro filho. e depois abril: eu a aprender a estar sozinha com os dois, eu a dar banhos. eu a dar colo. eu a fazer o jantar, o almoço. a subir as escadas: primeiro ela, depois ele, depois o carrinho. eu a levá-los ao parque, a ir às compras. eu com saudades dele. e o miguel fez 6 meses. e eu tinha um bebé na minha barriga. e limpei a casa, e soprei balões e comprei um bolo. e abril continuou. e eu levei-os ao médico. adormeci-os ao colo. mostrei-lhe a barriga pelo skype. tomei comprimidos para o enjoo. acariciei o filho que carregava. guardei segredo.
e depois abril chegou ao fim.
no dia 2 de maio pedi ao meu pai para me levar ao médico. quando entrei no consultório senti-o. deitei-me: tremia de frio. conseguia ouvir as gargalhadas da maria lá fora. o médico sentou-se ao meu lado, fez-me perguntas: eu sozinha. e depois aquela imagem: eu vi os braços, as pernas, o nariz. e havia apenas silêncio quando eu disse: o coração não está a bater. o médico olhou para mim e eu já sabia. repeti só para me ouvir: o coração não está a bater. naquele dia não havia ninguém para me apertar a mão: eu pela primeira vez ali sozinha.
levantei-me e disse que estava bem. esperei em pé pelo relatório. apertei a mão do médico. uma gargalhada da maria: sentei-me numa cadeira e chorei. chorei pelo meu filho. culpei-me: disse que a culpa era minha. que era por eu ter dito que não queria. chorei enquanto aquele médico me disse que acontece, que ainda era muito pequenino, que só tinha 3 centímetros, do tamanho de uma uva. chorei e depois levantei-me. limpei as lágrimas e saí: ao fundo da sala: a maria, o miguel, o meu pai. sorri e disse que estava tudo bem. que podiamos ir para casa.
no dia seguinte limpei a casa, soprei balões e comprei um bolo: a maria fazia 2 anos. naquele dia eu chorei muitas vezes. chorei sempre que me lembrei. e cantámos os parabéns e eu chorei à janela. alguém me meteu a mão no ombro: tens de estar feliz por eles. as pessoas queriam que eu estivesse feliz mas ele estava longe e o coração tinha parado.
guardei-o dentro de mim por mais uns dias.
naquela noite: o meu corpo contorcia-se com a dor. eu já a conhecia: era igual à dor do primeiro filho que perdi. no meio da maria e do miguel gemi baixinho para não os acordar. mordi a almofada. levantei-me vezes sem conta: caminhei no escuro. chutei balões cor-de-rosa: a maria já tinha 2 anos. dobrei-me. lavei-me. o sangue: esfreguei-me com força. nunca olhei para baixo. passava das 4 da manhã quando deitada na cama, com as mãos a apertar o meu útero, eu dei de mamar ao miguel. fechei os olhos com força. chorei. chorei o tempo todo. na manhã seguinte levei os meus filhos ao parque.
passou quase um ano.
às vezes esqueço-me. não falamos sobre isso. nunca falamos sobre isso.
às vezes, deitada no escuro, com um filho de cada lado levanto a minha mão: faço com os meus dedos: um, dois, três centímetros.
às vezes esqueço-me.
às vezes sinto que as coisas sobre as quais não falamos é que me fazem doer o corpo.
às vezes eu choro quando vejo uvas. 
pedi-lhe para escrever sobre isto: sinto que quando escrevo me dói menos. escrever ajuda-me a aceitar. pedi-lhe porque sinto que às vezes só eu é que me lembro: ele merece ser falado.
às vezes as pessoas dizem que eu devia sorrir mais: às vezes não me apetece. os meus filhos fazem-me sorrir.
o ano passado foi difícil. foi um longo mês de abril. e pelo meio o miguel fez 6 meses e a maria fez 2 anos. e ele aprendeu a dar gargalhadas, a gatinhar, a andar e a dizer mamã. e ela andou de avião, viu a neve, aprendeu a dizer os números e a cantar o balão do joão. eu sorri muitas vezes.
mas não quero esquecer: mudou-me. eu ali sozinha.
o miguel fez 18 meses na quinta.
a maria faz 3 anos no sábado.
ele tinha 9 semanas e 4 dias.
e um narizinho lindo.

sexta-feira, 4 de abril de 2014

hoje.

está a chover outra vez.
passaram 92 dias desde que começou a chover. eu sempre gostei de chuva. ele não gosta: diz que a humidade lhe faz doer os ossos. está velho. hoje comemos sopa ao almoço e sorrimos quando ele deixou a colher saltar. o chão ficou sujo e ele ajoelhou-se para o limpar: lembrou-nos os miúdos. nenhum de nós disse nada mas lembrou-nos os miúdos.
a maria esteve cá em abril. a menina está crescida mas não fala muito. acho que não gosta de cá vir. quando era pequenina gostava, brincávamos com as panelas e ela corria a casa toda. ainda me lembro do dia em que ela nasceu: estava a chover. era parecida com ela, tinha os olhos dela. a maria estava tão feliz nesse dia. às vezes zangava-se comigo quando lhe dizia o que fazer: dizia que eu não percebia nada de bebés, que as coisas tinham mudado. se calhar mudaram. quando ela cá esteve perguntei-lhe se estava bem. se estava feliz. ela não me respondeu: passou-me a mão pelos cabelos brancos e perguntou: fazes-me um chá? eu fiz. enquanto ela o bebia ali sentada na mesa da nossa cozinha senti saudades dela: ela a pedir-me leite com chocolate: os caracóis despenteados, as mãos pequeninas. não falámos muito. perguntei-lhe se o natal podia ser aqui, ela disse que logo se via. que ia perguntar ao marido. tem uma voz meiga: ainda a tem. trouxe-me uma manta nova e uns chinelos. trouxe uns para ele também mas estavam pequenos, vai ter de os trocar. ele fica sempre feliz quando a vê, pede-lhe sempre que venha mais vezes. ela gosta muito do pai: segura-lhe as mãos para as aquecer. e diz-lhe que é complicado. que tem lá a vida dela. que trabalha muito. que é muito longe. pode ser que venha no natal. fazia-lhe aquelas rabanadas que ela gostava tanto. não deve vir, mas se viesse fazia-lhas.
ontem quando nos deitámos ele perguntou-me se me lembrava do dia em que nos beijámos pela primeira vez. nenhum de nós se lembrava. ficámos os dois no escuro de mão dada a olhar para o tecto. estamos velhos: sinto a velhice nos meus dedos. nos dedos dele. não me lembro do dia em que o beijei pela primeira vez. devia-o ter escrito num papel. 
ele está lá fora. debaixo de uma varanda a ver a chuva cair. o miguelito ligou: que lhe diga que já não pode vir hoje ver o futebol com ele. ele comprou um queijo, temperou umas azeitonas: vai ficar triste. vai dizer que não tem importância. ainda me lembro do dia em que ele levou o miguelito ao futebol pela primeira vez. lembro-me: ele era pequeno: tinha o cachecol a arrastar pelos pés enquanto caminhava para o carro. ele virou-se para trás para nos dizer adeus: eu tinha a maria ao meu colo para ela ver melhor. pode ser que venha no fim-de-semana e comam as azeitonas e o queijo. se lhe pedir pode ser que venha. gosto tanto de o ter aqui: ele fala alto e ri-se muito. ele alegra-nos, conta muitas estórias: mora um silêncio tão pesado nesta casa. às vezes peço-lhe que se sente para o ver melhor, que estou muito marreca. ele põe-se de joelhos e diz: então velhota, estou bonito? é a cara do pai quando era novo. parece que tem uma namorada nova. o pai diz que esta também não dura, que fala demais. eu já desisti de ter mais netos. já estou velha. amanhã quando ele ligar vou-lhe pedir que venha no domingo. todos os dias liga o meu migas. todos os meses nos manda um cheque: tenho-os a todos guardados numa caixa: tem uma letra tão bonita ele. no dia em que o ensinei a escrever miguel ele chorou zangado porque não conseguia fazer um g. devia ter 4 anos. sim, talvez 4 anos. a maria estava lá ao pé de nós e dizia: não chores miguelito, vais conseguir. foi sempre tão amiga dele a minha maria. ai que saudades que eu tenho dela. de a adormecer ao meu colo, de os abraçar aos dois de uma só vez. todas as noites quando me deito sinto saudades deles. ele também. eu sei que ele também sente. há uns dias encontrei-o a chorar: estava a dar aquela música muito antiga que ele lhes cantava. a dos aviões.
às vezes ainda nos abraçamos.
a chuva: parou.


esta noite sonhei: era velha. estava a chorar. ele estava à minha frente: perguntei-lhe:
porque é que eles não nos vêm ver?
acordei com saudades dos meus filhos.
e eles lá estavam: a maria: sentada com os joelhos em cima da cama, caracóis despenteados, mãos pequeninas. perguntou: já podemos beber leitinho com chocolate? o miguel, de chucha na boca, a sacudir as pernas para se destapar, a bater palmas. ele, de costas, a dormir. demos o primeiro beijo no chiado, numa noite quente de agosto.
levantei-me: estava a chover outra vez.



sexta-feira, 28 de março de 2014

profissão: doméstica.

há uma guerra no mundo que eu não conhecia: é entre mães que trabalham e mães a tempo inteiro. está por todo o lado.
nunca fez parte dos meus planos ser mãe a tempo inteiro. aconteceu. aconteceu no dia em que eu e ele olhámos para ela e não fomos capazes: tinha 5 meses. nesse dia eu disse ao meu patrão que não ia voltar: ia ser mãe a tempo inteiro. financeiramente ia ser mais difícil para nós, emocionalmente mais fácil. passaram quase 3 anos.
às vezes sinto que tenho de pedir desculpa à minha mãe. ela foi mãe a tempo inteiro. ela estava lá sempre. para nos fazer bolos, desinfectar as feridas, comprar gelados, pentear os nossos cabelos. e eu às vezes tinha vergonha: dizia baixinho quando perguntavam na escola. a minha mãe é doméstica. escrevia em letras pequeninas: doméstica. naqueles dias as mães que ficavam em casa eram domésticas. a mãe da raquel era médica. a da sandra usava saltos altos, era advogada. a minha estava lá sempre: descalça, sentada no pátio a fazer-nos colares de pompons. 
as pessoas dizem que eu devia voltar a trabalhar. que me fazia bem. que tenho de sair de casa, ganhar o meu dinheiro, pensar mais em mim. nunca respondo: desisti de explicar. eu gosto disto. isto de ser mãe a tempo inteiro. isto de ser doméstica. percebo que não é para toda a gente, que para algumas mães pode ser cansativo, frustrante, desmotivador. percebo isso. percebo isso porque às vezes é: cansativo, frustrante, desmotivador. mas a maioria das vezes é bom. é tão bom: estar sempre aqui. fazer-lhes bolos, desinfectar-lhes as feridas, comprar-lhes gelados, pentear-lhes os cabelos.
não o trocava por nada: o prazer de ver um ser humano nascer, crescer: cada descoberta, cada conquista. vi-as todas. eu estive lá sempre. agradeço a sorte que tenho: estes anos com eles, todos os dias, todo o dia. no fim do dia, quando deito a cabeça na almofada sinto-me bem. realizada. também tenho esse direito: de me sentir realizada.
por isso esta guerra que há no mundo eu não percebo: entre mães que trabalham e são sempre acusadas de passar pouco tempo com os filhos e mães que ficam em casa e são sempre subestimadas por quem trabalha. digo-o com orgulho: quando me perguntam digo: sou mãe, estou em casa com os meus filhos. e às vezes ele chega a casa e eles correm à nossa volta e gritam e eu olho para ele e respiro fundo e digo que tivemos um dia difícil:  houve birras, leite entornado, ninguém comeu a sopa, não consegui estender a roupa, ela bateu com a cabeça, não almocei. e depois calo-me. calo-me porque na minha cabeça ele teve um dia pior: porque eu também vi a maria a desenhar uma flor. vi o miguel a acordar da sesta e a esfregar os olhos enquanto sorria. vi-a a dançar de mão dada com ele e a darem gargalhadas muito alto. adormeci-a nos meu braços. ouvi-o dizer balão pela primeira vez. ouvi-a a perguntar-lhe: miguelito gostas de mim? abracei-a quando ela escorregou e bateu com a cabeça. ouvi-a dizer obrigada mamã. calo-me porque fizemos um bolo juntos e comemos uma fatia enquanto ainda estava quente. porque levei-os à janela para verem a chuva e eles estenderam as mãos. eles estavam felizes a sentir a chuva. calo-me porque lhes dei banho, enrolei-os numa toalha e levei-os, um de cada vez, encostados ao meu peito para cima da nossa cama. fiz tudo devagar: tinhamos todo o tempo ali, na nossa casa. calo-me: na minha cabeça ele teve um dia muito pior. na minha cabeça de doméstica. na cabeça de quem gosta disto de ser mãe a tempo inteiro. conto-lhe todas estas coisas e ele sorri: sei que ele gostava de cá estar. sei que ele não aguenta mais de três dias sem trabalhar. não somos iguais.
as mães não são iguais.
e eu admiro-as: as mães que trabalham. as mães que estão longe dos filhos a trabalhar para lhes dar o que eles precisam. o que elas querem conquistar: as que o fazem por eles, por elas. as que perdem momentos: momentos que elas não sabem que perderam. as que saem de casa e deixam os filhos ainda a dormir: as que não os vêem despertar devagarinho. as que comem sanduíches de perú desfiado em frente ao computador enquanto trabalham depressa para sairem mais cedo: as que não fazem o avião todos os dias ao almoço. as que chegam cansadas e têm de fazer tudo depressa: as que não passaram a tarde no parque a subir o escorrega num dia de sol. as que deitam a cabeça na almofada e sentem que passaram naquele dia pouco tempo com seus filhos: eu estive lá sempre. para mim elas são as maiores. digo-o sem problemas: eu tenho dias difíceis. trabalho muito: limpo, aspiro, carrego, passo: mas as mães que têm de trabalhar para mim são as maiores. os pais.
um dia serei uma. o meu coração vai estar pequenino nesse dia.

mãe: outra vez.
fi-lo outra vez: disse que as que mães que trabalham são mais fortes do que nós. mas vês todas as coisas que elas perdem? leste aquilo que dizia que elas têm filhos para os verem a dormir? são as maiores. eu sei que tu me entendes: tu que estavas lá sempre.
e sei que algumas delas também acham que nós, domésticas, somos as maiores.


terça-feira, 18 de março de 2014

os meus 32.

fiz 32 anos.
nunca fui uma daquelas pessoas que adora fazer anos. também não sou uma daquelas pessoas que detesta. este ano não fomos muito longe: decidi poupar o meu corpo de longos passeios pelo zoo, corridas à beira-mar, almoços confusos em restaurantes. passámos a manhã no parque: levei tintas e pincéis, andámos de escorrega, levámos brinquedos. comemos queijo e tangerinas. o sol aqueceu-nos a todos. almoçámos frango assado com batatas fritas de pacote e soprámos as velas ao fim da tarde: a maria foi comigo escolher o bolo. chocolate. foi um bom dia: é sempre um bom dia quando estamos todos. todos bem. o meu pai, a minha mãe, a minha irmã mais velha, a minha irmã mais nova. ter a minha família junta neste dia faz-me sempre sentir pequenina outra vez. e depois ele. os meus filhos: a maria a comer azeitonas ao colo da avó. o miguel a roubar beijos à prima.
fiquei cansada. às nove da noite estava deitada na minha cama. o miguel dormia ao meu lado. imitei o som de todos os animais que sei para o adormecer. ele adora o macaco.
a maria estava com o pai na cozinha. ela passou o dia a comer mas apetecia-lhe massa: muita muita. deitada na cama ouvi as risadas dela. o riso dela faz-me sorrir.
encostei a minha cabeça à almofada e pensei em outros dias como aquele: dias em que fiz mais um ano. dias em que era muito pequenina e a minha mãe nos fazia bolos cheios de pintarolas para levar para a escola. às vezes tinha vergonha: todos iam olhar para mim naquele dia. eu fui uma miúda calma: tive uma vida simples. ia buscar o pão ao senhor viriato. brincava na rua até anoitecer. jogava ao elástico e à macaca. não dizia a ninguém por que estava triste. gostava de escrever nos meus diários e andar descalça. não mudei muito. continuo a guardar as minhas tristezas para mim e a andar descalça mesmo quando está demasiado frio.
um dia tenho de me lembrar de agradecer aos meus pais por aqueles dias em que eu era pequenina e eles me deixavam ser assim. crescer assim. foram bons dias. estes também são.
fiz 32 anos.
não pedi nenhum desejo quando soprei as velas.
o que mais podia eu pedir? 


                                                                             


quarta-feira, 12 de março de 2014

a minha dor.

quando eu era pequenina chorava muitas vezes com dores. a dor era sempre na minha perna direita. a minha mãe levava-me para o hospital e eles diziam sempre o mesmo: eu estava a crescer. naquela altura eu sentia a dor a ceder com uma medicação que era forte demais e sentia-me feliz: eu ia ser muito alta. as minhas dores eram as mais fortes. maiores que as de todos os amigos com quem eu brincava. com o tempo eu percebi que não ia afinal ser assim: eu era a mais baixa de todos. um bocadinho mais de metro e meio e tantas dores.
descobri agora a razão: descobri porque chorei tantas vezes.
muitos conhecem esta parte da história: licenciei-me em jornalismo, fiz estágios não remunerados, vi o meu sonho de criança a fugir-me das mãos: não ia ser uma jornalista, fiquei deprimida, deitei-me na cama, não comi durante dias, chorei: estava a chorar quando pedi à minha mãe para dizer à minha avó que eu queria ir para ao pé dela. e no dia seguinte lá fui: pálida, com os ossos salientes a arrastar uma mala que pesava demasiado. fiquei lá muitos dias. a minha avó contou-me histórias de moçambique, fez-me sopa com carne e massa, recordámos o meu avô. naquela aldeia transmontana vi-me em cada canto: eu pequenina a brincar com os meus primos, a colher amoras, a dar cascas à burra: a minha infância. eu cheia de sonhos. foi ali que eu comecei a aceitar que talvez eu nunca viria a ser uma jornalista. mas a minha avó disse que eu podia ser feliz a ser outra coisa. e eu acreditei. quando voltei a lisboa comprei o jornal. abri nos classificados: um anúncio com fundo amarelo destacava-se dos outros. no dia seguinte eu era já uma empregada de mesa. durante muito tempo eu não disse aos meus colegas que tinha estudado jornalismo: só queria esquecer. decidi naquela altura que se eu ia ser empregada de mesa ia fazê-lo com toda a dedicação, empenho e energia. dei àquele restaurante o mesmo que daria se ele fosse meu. trabalhei muito e isso fazia-me sentir bem. ao fim de um ano comecei a ter dores na coluna. as dores nunca mais desapareceram.
no princípio associei ao esforço físico. fiz análises, exames. nada. fiz fisioterapia, acupunctura. nada. um dia fui a um médico, o melhor dos médicos diziam. ele disse que eu tinha fibromialgia. li tudo o que encontrei: nunca acreditei no diagnóstico do melhor dos médicos.
os anos passaram, uns dias melhores que outros. e a maria nasceu. depois o miguel. e depois tudo piorou. fui a um reumatologista: mais exames, mais análises. e descobri esta semana: depois de todos estes anos: eu nasci assim. tenho uma deficiência de nascença: fusão da sacroilíaca. 
nos últimos seis anos vivo com dores diárias. habituei-me a elas. às vezes até me esqueço que as pessoas que estão ao meu redor vivem sem dores. não gosto muito de falar delas. algumas pessoas nem acreditam que eu as sinto: vejo na cara delas. vejo no tom quando me perguntam: andas muito ansiosa? e depois apoio as mãos nas costas: as pessoas dizem sempre: a mim hoje também me dói. às vezes sorrio. a dor nas minhas costas vive comigo todos os dias. todos os dias quando eu acordo é difícil. a rigidez matinal está nos meus braços, no meu pescoço. dói quando o visto. quando penteio a maria. dói quando estico os lençóis. quando dobro uma toalha. quando descasco uma maçã. quando lavo os meus cabelos. quando lhes pego ao colo. quando fico muito tempo sentada. quando ando demais.
o médico disse que a minha dor é crónica: ela não vai desaparecer. fevereiro não foi um bom mês: as minhas articulações também começaram a doer: os meus joelhos, os meus punhos, os meus tornozelos, os meus cotovelos, os meus dedos. escrever isto faz os meus dedos doer. o meu pescoço está sempre rijo. a minha coluna: parece que se vai partir ao meio. a minha cabeça.
eu perguntei ao médico o que devia fazer. ele sugeriu praticar desporto. receitou-me analgésicos: dois de 8 em 8 horas. trouxe muitas receitas. perguntei-lhe se não os deveria tomar se a dor não estivesse muito forte: se fosse suportável. tem de aprender a viver sem dor. ele disse que eu não preciso ter dores. ele disse agora vamos ensiná-la a viver sem dores. eu adoro a minha vida: os meus filhos, ele, isto de estar a aprender a ser mãe, isto de querer ser melhor por eles, de encontrar a felicidade nas pequenas coisas, nos sorrisos deles. eu tenho bons dias. a dor está sempre lá, mas eu tenho bons dias. é difícil imaginar que eles podem melhorar. que eu posso um dia sentir-me livre disto. eu que já não me lembro como é viver sem ela.
sem esta dor estúpida.

quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

o convite.

recebi um convite: para escrever um texto sobre os nossos dias, sobre a rotina, sobre a nossa vida. o convite é de uma mãe como eu, que escreve num blogue. ela enviou-me exemplos de outras mães: dias normais de mães como eu, que vivem para os filhos. no final do convite ela escreveu: envie com o texto uma foto sua sozinha ou com as crianças. 
no dia em que eu recebi este convite fiquei triste. neste dia: quando li o que ela escreveu. eu percebi naquele momento. eu não tinha nenhuma fotografia: eu e os meus dois filhos. um de cada lado: a sorrir para a lente: só eu e eles. fiquei triste porque percebi como isto me mudou, isto de ser mãe. tiro muitas fotografias aos meus filhos: todos os dias. no banho, a dormir, na rua, sentados, a brincar, com o pai, a cara deles. e ele diz: agora tu. e eu digo que não: agora não. e em cada fotografia que eu não apareço eu vejo uma desculpa. eles na praia: e eu demasiado magra e os meus ossos a verem-se e o meu biquíni muito largo. eles no parque: e eu com uma t-shirt dele suja de iogurte e o cabelo sujo e apanhado de qualquer maneira porque caiu todo depois da gravidez e agora cresce e fica todo espetado. nos anos dela: e eu que não quero sorrir porque amamentei durante 29 meses e os meus dentes ficaram fracos e aquele bem lá atrás caíu e se eu estou feliz e sorrio vê-se um buraco. nos anos dele: cabelos brancos. na neve da noruega: roupas velhas. no nosso sofá: feia. desculpas. um dia eles vão ver as fotografias: eu nunca estive lá. não me vão ver com eles na praia. nem no parque. eu não tenho uma fotografia com ela no dia em que ela fez 2 anos. não tenho uma com ele no dia em que ele fez 1: eu não tenho uma fotografia com o meu filho ao meu colo no dia do seu primeiro aniversário.
eu não fui sempre assim. tenho muitas fotografias de quando estava grávida da maria. algumas dos primeiros meses: a dormir com ela, a dar-lhe banho, ela a sorrir comigo para uma lente. tenho poucas dos meses em que esperei pelo miguel. tenho ainda menos deste primeiro ano com ele. são cada vez mais eles, cada vez menos eu. nas fotografias e na vida. 
mas um dia eu vou querer ver: eu que era tão nova a segurar a mão do miguel enquanto andavamos pela praia. eu que tinha um sorriso tão bonito ao lado da maria no dia em que fez 3 anos. eu que usava o que se vestia na altura a levar o miguel pela primeira vez à creche. eu que era tão gira e magrinha a comer um gelado com a maria. eu com os meus dois filhos que agora já estão crescidos: sentados, um de cada lado, a olhar para a lente.
um dia eu vou ser velha: as memórias vão ser a minha companhia, vão trazer-me sorrisos. um dia eu vou querer lembrar-me. eu vou dizer as coisas que a minha mãe diz quando vê fotografias da minha infância: coisas que ela diz a sorrir.
preciso de parar de arranjar desculpas. mudar o que está errado: soltar o cabelo, comprar uma camisola para usar no meu aniversário, comer se quero engordar, sorrir sem ter vergonha, cuidar de mim, aceitar: aceitar-me. 
no dia em que recebi um convite procurei durante horas por uma fotografia: eu e eles. descobri 3: uma na maternidade, uma no jardim zoológico, uma no sofá. este ano: hoje, hoje é isto que eu quero: quero parar de me achar feia, quero uma fotografia com um de cada lado. quero estar a sorrir. 
quero fazer parte das nossas vidas.
por isso obrigada: pelo convite.
eu aceito.




 
 



quarta-feira, 29 de janeiro de 2014

a mãe que eu sou.

não sei que tipo de mãe sou eu.
há dias que são dias normais. há dias em que tudo o que faço me fazem duvidar daquilo que estou para aqui a fazer. nos dias que são dias normais, em que eles acordam e comem e brincam e depois dormem eu às vezes sento-me: sento-me e vejo aquela reportagem sobre mães que têm filhos que não fazem o que elas querem, sento-me e leio aquela revista que diz que os filhos não devem dormir na cama dos pais e a outra que diz que as birras são saudáveis. sento-me e navego pela internet e leio as 7 atitudes dos pais que vão impedir que os filhos se tornem líderes. as 5 que vão fazer com que eles se tornem fedelhos. as 10 que os vão tornar em vítimas de bullying. no dia seguinte eles acordam e comem e brincam e depois dormem. e durante esse tempo todo eu tenho todas essas coisas que li a rodarem na minha cabeça. e a maria cai, chora e eu vou a correr: socorri-a demasiado depressa: ela nunca será uma líder. e enquanto eu lavo os dentes o miguel consegue abrir a torneira do bidé e eu bato palminhas efusivamente. falhei novamente: um elogio e ele nem sequer fez nada de especial. agora vai ser insolente porque não sei trabalhar a auto-estima dele. e a torneira era só levantar, nem sequer era preciso rodá-la. depois eles almoçam e eu deixo-os comer com a mão e brincar e fingir que os bróculos são árvores. e nem sequer como com eles: deixo-os à minha frente a ver o kipper, o cão enquanto emparelho as meias e me culpo por ser uma péssima péssima mãe: ainda ontem li que nada disto se fazia.  para piorar a maria não comeu os bróculos e eu não a obriguei: disse só come uma vez. e depois disse 'tá bem não comas pronto: não insisti, não levei a minha avante, não lhe mostrei quem manda aqui: ela vai-se tornar numa fedelha e lá se foi a minha autoridade. e penso nisto tudo enquanto de joelhos apanho os restos de tomate que o miguel cuspiu para o chão.
depois eles brincam com legos, panelas pequeninas e tupperwares que levaram da cozinha sem a minha permissão e eu fico ali a comer os bróculos frios da maria e um bocadinho de massa que o miguel deixou enquanto faço uma lista mental com a loiça que tenho para lavar, as fraldas para trocar, estender a roupa e fazer as camas. e depois vou fazendo tudo enquanto os espreito de 2 em 2 minutos. e o miguel puxa o cabelo à maria: e eu digo que ele é pequenino e não sabe a força que tem. e o miguel tira as panelas à maria: deixa-o estar só um bocadinho para ele não chorar enquanto a mamã lava a loiça. e ela lá fica sentada a olhar para ele: e depois eu que ainda estava a pensar que a devia ter obrigado a comer os bróculos lembro-me que acabei de quebrar duas regras fundamentais de uma lista qualquer que li e agora a maria vai ser vítima de bullying só porque eu queria acabar de lavar os pratos.
ao fim de um desses dias em que eu estou sempre a falhar as regras todas que decorei na véspera começo outra vez a ficar preocupada: estamos a chegar ao fim do dia e mais uma vez a maria não fez uma birra. com o miguel estou tranquila porque chorou para sair do banho e até esperneou um bocadinho e depois ainda se atirou ao chão quando eu não o deixei brincar com o piaçaba. agora ela nada. passam-se meses e não faz uma birra. quase 3 anos e nunca esperneou, nem se atirou ao chão do pingo doce quando lhe digo que não lhe dou bolachas maria com a cara da hello kitty. começo a ficar preocupada se a mimo demais. ainda ontem li que fazer birras é sinal de inteligência e ela nada. continua ali calma e tranquila a brincar como se nada fosse. esta semana não conseguia enfiar o cabelo na cabeça da pinypon e eu achei que ia ficar frustrada e fazer uma birra: atirou com a boneca ao chão, meteu as mãos à cintura e foi para o quarto. quando lá fui disse que estava chateada. perguntou se a ajudava. não gritou, nem chorou durante meia hora. fiquei frustrada.
e chega à noite e eu só dei banho a um porque me dói muito as costas. lá se foi a importância da rotina e agora eles vão ser crianças com problemas de aprendizagem. já devia saber, estou fartinha de ler sobre isso. depois fui à casa-de-banho e foram todos atrás de mim: vesti o pijama, lavei os dentes, contei os meus cabelos brancos outra vez. ele molhou o chão todo, ela fez uma torre de papel higiénico. o miguel chorou porque não queria largar o bidé: eu dei-lhe dois chocapics para ele vir para a sala. chocolate a uma criança de 15 meses: vai ser obeso. já passava da hora de dormir: ele adormeceu ao meu colo enquanto a maria via a cinderela. televisão antes de dormir, bolas! vou deitá-lo na cama e só depois a ela, que já tem 2 anos e mais de meio e ainda adormece ao meu colo enquanto canto e lhe passo a mão nos cabelos. tudo errado.
e depois lá fico eu: sozinha na sala que tem o chão cheio de brinquedos que eu não os obriguei a arrumar logo a seguir a os terem usado. é nessa altura que me sento no sofá a pensar em todas as coisas que ficaram por fazer e nas regras que não consegui cumprir: mando-lhe uma mensagem. digo-lhe que venha depressa que eu não consigo fazer isto sozinha. que faço tudo mal. choro porque falhei e eles vão-se tornar em adultos falhados por minha causa, choro porque estou cansada.
o dia seguinte é um dia normal. na véspera não enchi a minha cabeça de dicas para ser a mãe perfeita que não vou nunca conseguir ser. mas nesse dia lembro-me que não a obrigo a comer bróculos porque um dia gritei com ela para os comer e jurei que nunca mais gritava com a minha filha: lembro-me que nesse dia chorámos as duas porque eu disse come! e eu lhe pedi desculpa e prometi que não gritava mais. e nesse dia o miguel não chora para sair do banho porque o deixo ficar mais tempo, sem pressas para cumprir horários. lembro-me que não a mandei arrumar os brinquedos porque quando cheguei à sala e lhe perguntei o que estava a fazer ela disse: estou a ajudar-te mamã: ela estava a varrer com uma vassoura mais alta do que ela. ela não limpou nada, mas estava a ajudar-me. e passa o dia e o miguel não puxa o cabelo à maria. e ela chora um bocadinho porque não gosta de secar o cabelo e eu digo-lhe: maria não faças birras.
nesse dia ela come o esparregado. ele não come chocapic. eu não me culpo de nada: escolho os meus desafios. à noite deito-me. leio: que tipo de mãe é você? olho para eles: dormem os dois encostados a mim: na minha cama. devia estar cada um na sua cama: li isso em algum lado.
fecho a revista e aninho-me a eles.
e é ali, quentinha, no meio dos meus filhos que penso: devo ser uma péssima, péssima mãe.