a maria não sabe as cores.
às vezes acerta e o verde é verde. para ela não há amarelo nem azul: há a "cor do sol" e a "cor do céu". nunca se lembra da palavra branco nem da palavra preto. eu não sei porque é que a maria não sabe as cores. pintamos com lápis de cor, fazemos bolos de plasticina colorida: eu digo-lhe o nome das cores e ela repete. no dia seguinte o amarelo é a "cor do sol".
a maria sabe contar até 10 mas salta sempre o 7.
um dois três quatro cinco seis oito nove dez. digo sempre: esqueceste-te do 7. ela sorri e diz "e sete".
nunca lhe ensinei uma letra.
numa manhã do mês de abril: eu, uma ama, uma avó. estávamos no parque. a maria subia uma corda, o miguel brincava com carrinhos. perguntaram-me a idade deles. ele tem ano e meio. a maria está quase a fazer 3 anos. já não tem idade para usar fralda: aquela avó que eu não conhecia disse-me que a maria já não tinha idade para estar de fralda. já me o tinham dito antes: a mim, a ela: está mais que na altura. diziam-me mesmo sem eu perguntar.
o ano passado: a maria tinha acabado de fazer 2 anos. alguém me disse: agora está na altura de deixar as fraldas. ela tinha pouco mais de 2 anos e foi fácil e rápido. e pronto: ela usava cuecas e todos lhe deram os parabéns. alguns meses depois fomos para a noruega e a maria, insegura, chorava e pedia-me para usar fralda. arrumei as cuecas num saco, nunca lhe pedi para as voltar a usar.
este ano: dois dias depois de fazer 3 anos a maria disse-me "amanhã quero vestir estas cuecas da porquinha peppa". perguntei-lhe se tinha a certeza, ela disse que sim. e pede sempre que tem vontade, acorda-me de madrugada porque não quer fazer na fralda, não precisa de aplausos nem de incentivos. ela tomou a primeira grande decisão dela. e está feliz.
o ano passado foi fácil e rápido: mas um dia ela teve um acidente no parque e chorou de vergonha à frente de todos os meninos. um dia ela sujou o tapete, o chão, a roupa. ela chorou sempre que falhou. um dia eu quase desisti ao vê-la chorar.
devia ter desistido.
há dois meses levei o miguel ao pediatra: ele escreveu "menos de 5 palavras". os avós diziam que ele tinha de falar, desenrolar a língua. não diz nada? e ele que não dizia nada.
eu nunca insisti: nunca me sentei à frente do miguel e repeti a mesma palavra vezes sem conta: de-va-ga-ri-nho. talvez a culpa fosse minha. eu falava com ele como uma pessoa fala com outra pessoa. hoje: a maria diz que o miguel já aprendeu a falar. ela aponta para as coisas e diz: copo. livro. macaco. ele repete tudo o que ela diz. ele acorda de madrugada e pede água. ele estica-me o braço e diz "dá a mão". ele fala: e eu que ainda não contei as palavras.
eu não entendo isto de estar na altura: na altura de deixar de mamar, na altura de começar a andar, de dormir na cama dela, de comer sozinha, de falar, de deixar as fraldas. e agora, com as cuecas da porquinha vestidas, está na altura de deixar a chucha. eu nao sei quem definiu isto, isto das alturas certas. na minha casa não há alturas certas: há pessoas.
Silvana Quattrocchi Montanaro. Understanding the Human Being. - See
more at: http://www.howwemontessori.com/#sthash.e41smLzH.dpuf
f
adults succeeded in understanding that behind the child's 'No' is the
desire to be recognised as a person which is already able to resolve
many problems related to him, they might be able to ask for his opinion
much more often than is generally done. - See more at: http://www.howwemontessori.com/#sthash.e41smLzH.dpuf
f
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naquela manhã de abril a avó disse-me tudo o que o seu neto conseguia fazer antes dos 3 anos: andava sem fralda, falava muito bem, sabia as cores, os números e as letras. eu ouvi e não lhe disse nada sobre a maria: ela andava descalça, de gatas, a rugir como um leão solto no parque. devia-lhe ter dito.
devia-lhe ter dito que a maria parte sempre a bolacha que a vizinha lhe dá e guarda metade no bolso para dar ao miguel. que ela sabe lançar um papagaio. que me pergunta todos os dias se já estou melhor das costas. que ela chama o mano de "meu miguelito". sobe o escorrega ao contrário: o escorrega grande. ela parte um ovo sem deixar cair cascas para o bolo. ela explica os desenhos animados ao irmão e no fim pergunta-lhe se percebeu. e sabe que o amor é da "cor do benfica".
ela tem 3 anos.
ela tem o tempo todo.