terça-feira, 24 de fevereiro de 2015

texto perdidos.

 1.

a minha avó fez ontem 91 anos.
fui visitá-la: cantei-lhe os parabéns ao ouvido. passei a minha mão pelos cabelos crespos dela: brancos em cima, loiros por baixo. disse-lhe que a maria e o miguel estavam lá fora. que tinha ido com eles à ginástica: a maria já sabe fazer bem as cambalhotas. contei-lhe coisas: sabias que o sócrates está preso. que está frio na rua. [será que me ouve?] que o miguel está constipado. a maria também.
[quando eu era pequenina passava dias em casa dela. ela nunca pegava em mim ao colo, me enchia de beijos ou me lia estórias de princesas. essa não era ela: nunca esperei isso dela. ela tinha uma gargalhada que me fazia rir. gozava com todos, implicava com tudo. nas festas cochichava aos meus ouvidos: que a outra era assim e assado. e ria-se dela de braços cruzados. o meu pai chamava-lhe a avó irra. fazia-nos bolo de cola-cola e arroz doce. tirava a placa para nos fazer rir. quando a maria nasceu passei a visitá-la menos vezes. ela começou a esquecer as coisas. os anos tornaram os abraços dela mais apertados, mais longos: estás magrinha, dizia. ela nunca me esqueceu, ela perguntava-me: de quem são estes miúdos? é a maria, o miguel. ela dizia: não tenhas mais nenhum. e ria-se muito alto: ela teve 6. depois ela perguntava-me outra vez: é a maria, o miguel. às vezes falávamos ao telefone e ela dizia-me que o angélico não tinha morrido: vi-o hoje na televisão. ela arrancou-me tantos sorrisos.]
contei-lhe coisas e depois elas entraram: lavaram-na, trocaram os lençóis, ajeitaram-lhe os braços. ela era só mais uma: ela era a minha avó que me fazia bolo de coca-cola. quando elas sairam eu chorei. peguei na mão dela e beijei-a: ela apertou-me os dedos. a força toda naquela mão. será que me ouve? e ali, naquele quarto de hospital, disse coisas que ela nunca me ouviu dizer. disse-lhe que ela tinha sido uma boa avó. que eu gostava muito dela. agradeci-lhe, pedi desculpa: beijei-a na testa. a minha avó: o corpo inerte, a cabeça pesada, um gemido constante, boca aberta, olhos fechados: aquela não era ela. encostei os meus lábios ao ouvido dela: disse-lhe para não ter medo. avó, não tenhas medo: não tenhas medo. ela apertou a minha mão. eu chorei.
ontem a minha avó fez 91 anos e eu cantei-lhe os parabéns.
não sei se ela me ouviu.

[ e hoje quando estava ali parada, com os pés na terra que cobria gente e o vento gelado a bater-me na cara: hoje enquanto todos choravam e remoíam, a cada pá que se enchia de terra, isto que é a condição humana, ouvi-a: o som da sua gargalhada. ela, que se ria de todos, a rir-se de nós. aquele som era o único na minha cabeça: aquela gargalhada.
vou guardá-la para sempre avó.]

2.

nunca lhe ensinei as letras. nem sequer o "a", o "e", o "i", o "o" ou o "u". às vezes ela pergunta: o que é que diz aqui? e eu leio, sem explicar. ela abre os livros e finge que está a ler. e eu ouço, sem corrigir. nunca lhe ensinei as letras: ela tem 3 anos. às vezes as vizinhas perguntam se ela já vai à escola: já sabes escrever o teu nome? e eu penso: ela tem 3 anos. aprendi as letras quando fui para a escola. não antes. nem sequer o "a", o "e", o "i", o "o", ou o "u". a minha mãe nunca me ensinou as letras. ensinou-me coisas que não esqueço: as letras guardou-as a todas. e quando eu fui para a escola a professora ensinou-me as letras. ensinou-me a ler e a escrever. a escrever o meu nome. eu tinha 6 anos. guardo a minha professora no coração: mesmo quando ela não nos sorria eu olhava para ela com respeito, admiração: ela ensinou-me as letras. para mim ela era especial: só uma professora podia ensinar as letras. um dia ela fez-me escrever o L maiúsculo vezes sem conta: às vezes olho para eles, escritos a lápis, cheios de curvas. nos dias de greve ela ensinava-nos as letras no jardim, sentada no chão. quando chegava a casa eu mostrava à minha mãe as letras que a professora me tinha ensinado. sempre gostei delas: as letras.
ontem a maria pediu-me: podes-me ensinar a escrever o meu nome? sorri. disse-lhe que isso era uma coisa muito importante: tens a certeza que queres aprender hoje? ela tinha a certeza. e eu ensinei. hoje ela continuou a praticar: mostrou-me maria muitas vezes. e eu, orgulhosa, dou-lhe os parabéns, digo que está perfeito, dou-lhe um abraço. e depois olho para o papel que tenho nas mãos: as letras que eu não guardei. digo-lhe: agora vai brincar. ela tem 3 anos. eu tinha 6. quero guardar as letras. e as vizinhas têm pressa, e o mundo tem pressa e eu a querer guardar as letras. quero guardá-las: mesmo que todos os outros meninos já saibam todas as letras, mesmo que ela demore mais tempo para fazer o L perfeito. quero que ela me mostre todos os dias as coisas novas que aprendeu: o mundo sem pressa num caderno de linhas. quero que ela guarde no coração: o primeiro dia de escola, todas as letras, a professora que as ensinou.
agora ela tem 3 anos: se ela não me pedir, posso guardá-las.


 3.

quando chamamos o miguel ele responde logo: o que é? ele corre até nós e repete: o que é? quando chamamos a maria ela nunca responde. a maior parte das vezes ela está só a fazer as coisas dela, concentrada. sou -e ele concorda- mais paciente que o pai. ele insiste, chama-a muitas vezes: não me ouviste a chamar? às vezes, ao lado dele, digo-lhe: espera. e ela aparece. às vezes quando ele a chama eu estou ao lado dela e vejo que ela está só a acabar: um gesto, um pensamento, uma palavra. e ele chama outra vez e eu digo: ela já está a ir. e um dia li um texto sobre crianças da idade deles, dizia: quando chamar o seu filho conte devagar até 10. mostrei-lhe e disse-lhe que ia começar a contar, disse-lhe para ele contar também. dizia que a criança só precisa de tempo para parar e processar a informação. e decidi partilhar isto com vocês porque é tão simples e funciona. aqui em casa funcionou. chamo: maria. conto até 10. devagar. ela responde: o que é? digo: maria chega aqui. conto 10 crocodilos. ela aparece: o que é? às vezes temos de repetir, mas é raro. antes em 5 segundos já a estavamos a chamar outra vez: 5 segundos não chega. todos os dias aprendo com eles. contar até 10 também me ajuda a mim a ser mais paciente, a viver mais devagar. ao ritmo deles, como deviamos viver todos.

8 comentários:

  1. Os teus textos são sempre tão emotivos, adoro-os assim como às milhentas fotos que tiras!
    Já pensaste em escrever um livro? Imagino que sejam muitas as pessoas que, como eu, devoram as tuas palavras. Tens uma maneira tão própria de escrever, tão tua tão de todos ao mesmo tempo, porque de uma maneira ou de outra reconhece-mo-nos sempre em algo daquilo que escreves...
    Se escreveres serei a primeira da fila! :)

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  2. Acho que nunca comentei. Mas sou visita assídua deste cantinho de que gosto muito. Hoje não pude deixar de felicitar quem escreve assim. Adoro adoro adoro! O texto sobre a avó fez-me chorar. Eu já não tenho avós. E tenho tantas saudades deles!! Obrigada por estes textos que nos enchem a alma. E pelas fotos desses meninos tão alegres, tão bonitos, tão engraçados! Muito obrigada.

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  3. Sem dúvida... Deviamos todos viver mais devagar!

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  4. os teus meninos são abençoados por terem uma mãe assim. Parabéns.

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  5. Queria só dizer-te que adoro o teu blog. Desculpa tratar-te por tu, mas sinto que já te conheço, a ti e à tua família maravilhosa. Obrigada pela partilha, pelas imagens lindas, pelas ideias, por tudo.
    Tenho dois filhos, um de 17 e outro de 7 anos. Hoje fizeste-me parar e pensar, não costumo esperar quando chamo o meu mais pequeno. A partir de hoje vou começar a contar até 10. Sempre. Tens razão, temos que aprender a viver mais devagar. Um beijo enorme.

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  6. Não te conheço pessoalmente mas posso dizer que te admiro. muito.

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  7. Adoro o teu blog!!!
    Já o li de cima a baixo e é apaixonante!!
    Escreves tão bem, fotografas tão bem e a tua criatividade vai tão longe!
    Parabéns pela Maria e pelo Miguel são lindos e gostava de um dia quando for mãe ser como tu :)
    Um beijinho e continua a deliciar-nos com tudo isto <3

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  8. Subscrevo todos os comentários. :)

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