quarta-feira, 30 de abril de 2014

abril e um filho.

abril está a acabar. 
há um ano abril parecia não ter fim: foi o mês em que ele foi para a noruega. eu com os dois: o miguel quase a fazer 6 meses, a maria quase a fazer 2 anos. naquele primeiro sábado sem ele eu descobri. eu não tinha pensado nisso até àquele dia: até ao dia em que sozinha me sentei a ver os meus filhos a brincar. estava enjoada. naquele momento eu soube: estava grávida. 
naquela noite eu chorei enquanto eles dormiam. liguei-lhe enquanto chorava: disse que não queria. disse que não ia aguentar: eu, o miguel quase a fazer 6 meses, a maria quase a fazer 2 anos, um bebé na minha barriga. naquela noite chorámos os dois, longe um do outro. no dia seguinte quando acordei eu sabia: eu ia ter outro filho. eu não estava a chorar quando lhe disse que iamos conseguir, que ia tudo correr bem: iamos ter outro filho. e depois abril: eu a aprender a estar sozinha com os dois, eu a dar banhos. eu a dar colo. eu a fazer o jantar, o almoço. a subir as escadas: primeiro ela, depois ele, depois o carrinho. eu a levá-los ao parque, a ir às compras. eu com saudades dele. e o miguel fez 6 meses. e eu tinha um bebé na minha barriga. e limpei a casa, e soprei balões e comprei um bolo. e abril continuou. e eu levei-os ao médico. adormeci-os ao colo. mostrei-lhe a barriga pelo skype. tomei comprimidos para o enjoo. acariciei o filho que carregava. guardei segredo.
e depois abril chegou ao fim.
no dia 2 de maio pedi ao meu pai para me levar ao médico. quando entrei no consultório senti-o. deitei-me: tremia de frio. conseguia ouvir as gargalhadas da maria lá fora. o médico sentou-se ao meu lado, fez-me perguntas: eu sozinha. e depois aquela imagem: eu vi os braços, as pernas, o nariz. e havia apenas silêncio quando eu disse: o coração não está a bater. o médico olhou para mim e eu já sabia. repeti só para me ouvir: o coração não está a bater. naquele dia não havia ninguém para me apertar a mão: eu pela primeira vez ali sozinha.
levantei-me e disse que estava bem. esperei em pé pelo relatório. apertei a mão do médico. uma gargalhada da maria: sentei-me numa cadeira e chorei. chorei pelo meu filho. culpei-me: disse que a culpa era minha. que era por eu ter dito que não queria. chorei enquanto aquele médico me disse que acontece, que ainda era muito pequenino, que só tinha 3 centímetros, do tamanho de uma uva. chorei e depois levantei-me. limpei as lágrimas e saí: ao fundo da sala: a maria, o miguel, o meu pai. sorri e disse que estava tudo bem. que podiamos ir para casa.
no dia seguinte limpei a casa, soprei balões e comprei um bolo: a maria fazia 2 anos. naquele dia eu chorei muitas vezes. chorei sempre que me lembrei. e cantámos os parabéns e eu chorei à janela. alguém me meteu a mão no ombro: tens de estar feliz por eles. as pessoas queriam que eu estivesse feliz mas ele estava longe e o coração tinha parado.
guardei-o dentro de mim por mais uns dias.
naquela noite: o meu corpo contorcia-se com a dor. eu já a conhecia: era igual à dor do primeiro filho que perdi. no meio da maria e do miguel gemi baixinho para não os acordar. mordi a almofada. levantei-me vezes sem conta: caminhei no escuro. chutei balões cor-de-rosa: a maria já tinha 2 anos. dobrei-me. lavei-me. o sangue: esfreguei-me com força. nunca olhei para baixo. passava das 4 da manhã quando deitada na cama, com as mãos a apertar o meu útero, eu dei de mamar ao miguel. fechei os olhos com força. chorei. chorei o tempo todo. na manhã seguinte levei os meus filhos ao parque.
passou quase um ano.
às vezes esqueço-me. não falamos sobre isso. nunca falamos sobre isso.
às vezes, deitada no escuro, com um filho de cada lado levanto a minha mão: faço com os meus dedos: um, dois, três centímetros.
às vezes esqueço-me.
às vezes sinto que as coisas sobre as quais não falamos é que me fazem doer o corpo.
às vezes eu choro quando vejo uvas. 
pedi-lhe para escrever sobre isto: sinto que quando escrevo me dói menos. escrever ajuda-me a aceitar. pedi-lhe porque sinto que às vezes só eu é que me lembro: ele merece ser falado.
às vezes as pessoas dizem que eu devia sorrir mais: às vezes não me apetece. os meus filhos fazem-me sorrir.
o ano passado foi difícil. foi um longo mês de abril. e pelo meio o miguel fez 6 meses e a maria fez 2 anos. e ele aprendeu a dar gargalhadas, a gatinhar, a andar e a dizer mamã. e ela andou de avião, viu a neve, aprendeu a dizer os números e a cantar o balão do joão. eu sorri muitas vezes.
mas não quero esquecer: mudou-me. eu ali sozinha.
o miguel fez 18 meses na quinta.
a maria faz 3 anos no sábado.
ele tinha 9 semanas e 4 dias.
e um narizinho lindo.

quarta-feira, 9 de abril de 2014

estes dias.

 
pode um coração ficar mais cheio?
pode.


um novo sobrinho, no doce mês de setembro.