quinta-feira, 4 de dezembro de 2014

a árvore esquecida.

levei a maria ao sítio onde guardamos as coisas que já não precisamos. coisas que não usamos, coisas que já não queremos. fui lá procurar um cd antigo e levei-a comigo. ela gosta de lá ir. quando entrámos ela viu-a logo: mamã olha: uma árvore de natal. desmanchada, no chão, enfiada num saco demasiado pequeno. ela perguntou-me porque é que aquela árvore estava ali: era da tia mas a tia já não a quer. porquê?- insistiu ela.  ela comprou outra, uma maior, mais bonita. já não precisa desta.
esta é feia?- perguntou ela, de sobrancelha franzida, a observá-la.  não é feia maria, mas a tia já não precisa dela. 
voltámos para casa e ela continuou a falar nela: a árvore de natal ali esquecida. às vezes digo ao miguel que não pode tirar as bolas da árvore porque ela fica triste. e aquela não fica triste ali sem bolas, perguntou ela. percebi a ansiedade dela: uma árvore de natal ali esquecida, sem bolas nem luzes. uma árvore que ninguém quer. e depois eles dormiram e eu fui buscar a árvore. também trouxe as bolas que não combinavam, as luzes que piscam demais, a fita que já não se usa. trouxe tudo. e enquanto eles dormiam salvei-lhe a árvore esquecida: tão magrinha e torta. a árvore que ninguém queria ali no quarto deles. quando a maria acordou perguntou logo: é aquela? e depois a felicidade dela: ela estava tão feliz. continuava a perguntar porque é que a tia já não a queria. ela disse: eu gosto mais desta. a árvore preferida dela: uma árvore que ninguém queria cheia de coisas que ninguém gosta. e tão bonita: olho para ela com os olhos da maria: ela é tão bonita.
a maria continuou ali ao pé dela: tem estrelas e corações e prendas pequeninas. eu, ali no quarto, a apanhar brinquedos do chão: tens muita sorte maria, duas árvores de natal. há meninos que não têm nenhuma. primeiro ela sorriu e disse um não arrastado. a sério, a mãe não está a brincar. expliquei-lhe o valor das coisas: o que custa uma árvore de natal. transformei o valor de uma árvore em iogurtes, arroz, douradinhos e bolachas. ela compreendeu. mas na cabeça dela não fazia sentido: um menino sem árvore de natal é como uma árvore de natal por montar, uma árvore- tão bonita- que ninguém quer. e eu, mãe, falho nisto. às vezes falho e sei que estou a falhar e continuo. estávamos a fazer a carta para o pai natal. o miguel quer um hipopótamo, um rinoceronte, um homem aranha. a maria: uma escavadora. só uma escavadora? sim. não queres mais nada? uma boneca? jogos? -perguntei.
eu quero uma escavadora. e mais maria? ela em silêncio, eu a fazer perguntas. e depois ela disse: uma escavadora e pensos com bonecos. eu a falhar: a maria quer uma escavadora e pensos rápidos com bonecos. ela vai ficar feliz com uma escavadora e eu a insistir, eu a querer que ela pedisse mais uma coisa, eu a falhar. queria ser diferente às vezes: não lhe dar mais do que ela pede, do que ela precisa. queria ser capaz de lhe dar só uma escavadora. às vezes falho, outras vezes recuso presentes: coisas que eles não precisam, coisas que eu não lhes poderia dar. sou eu a tentar, a aprender: a falhar umas, a acertar outras. é este mundo cheio de coisas que não precisamos que às vezes me ganha. e eu que  continuo a aprender com eles: aquela árvore é tão bonita. devia ter comprado só uma escavadora.

 

[a maria, sentada no chão, a baloiçar a estrelinha pendurada ouve-me a explicar o valor das coisas para os pais do menino que não tem árvore de natal e diz baixinho, como quem pensa alto: podiamos-lhe dar esta. e podemos. podemos dar esta árvore tão bonita a um menino que não tenha nenhuma.]

12 comentários:

  1. :) ♥ A tua Maria é uma menina muito especial mesmo... :)

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  2. A Maria é uma menina muito, muito especial.
    E estás de parabésn por isso!
    Um beijinho enorme*

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  3. Mais uma vez, fiquei de lágrima no olho.
    As crianças têm tanto para ensinar aos adultos...

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  4. A tua Maria é uma menina especial <3 <3

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  5. tens uma filha linda, linda.

    Adoro o teu blog, a tua criatividade, a tua familia e o vosso bom coração.

    Um beijinho enorme e bom natal =)

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  6. Tens uma princesa com um coração gigante e um príncipe que vai sempre tomar conta dela ♡

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  7. Adoro as tuas palavras. Parabéns por partilhares estas mensagens que nos fazem aprender muito

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  8. A falhar? No way!!! Os filhos são, a grande maioria, reflexo dos pais!

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  9. Gostava de um dia ensinar estas coisas ao meu bebé. Um dia gostava de ser como tu.

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  10. Oh Verinha... grande mãe que tu és!

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  11. Depois dessa linda atitude da Doce Maria, como podes sequer pensar q estas a falhar?!? Não te conheço pessoalmente, mas só me apetece chamar-te tonta!!! Eu ainda só tenho o Miguel com 22 meses e já começo a achar q sou melhor pessoa por causa dele... Os miúdos são o nosso reflexo e isso quer dizer muito sobre nós... Eu tenho aprendido tanto com o meu!
    Beijinhos gigantes da costa alentejana, Xana

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  12. Não percebo porque diz tantas vezes que está a falhar. Deixe-se levar. Não tem mal nenhum querer dar-lhe mais qualquer coisa para além da escavadora se para si é um prazer (salutar, normal) dar-lhe mais qualquer coisa para além da escavadora. bj :)

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