terça-feira, 18 de novembro de 2014

a minha quinta.

fomos passar a páscoa com os meus avós. a viagem era longa. o coração do meu avô estava a recuperar. a última vez que eu o tinha visto era natal e ele estava muito magro numa cama de hospital. abril: passámos uma semana lá: eu, a minha irmã, a minha prima. comemos entremeada e chouriça assadas na lareira. bebemos vinho com coca-cola. eu tinha 16 anos. as pessoas ofereceram-nos saquinhos de amêndoas coloridas. naquele dia acordámos às 6 da manhã: iamos a favaios apanhar o autocarro para lisboa. a carreira. ele estava sentado na cama, encostado às almofadas. o meu avô chorava sempre no dia em que iamos embora. antes de sair ele chamou-me: pediu-me o aquecedor. levei-o depressa. tinha a mochila às costas. beijei-o na testa. saí.
o meu avô morreu naquela noite.
eram 5 da manhã quando ligaram para nos contar. a minha mãe e o meu pai acordaram-me. eu estava triste: perguntava-me se ele teria morrido se tivessemos ficado mais um dia. levantei-me e procurei por ela: a minha mãe. ele tinha morrido: o meu avô, o pai dela. ela estava a lavar a loiça. o dia ainda não tinha nascido: ela estava a lavar a loiça. porque é que ela não está a chorar? 
naquele dia fizemos todos juntos a mesma viagem. quando chegámos já tinha anoitecido: tudo tão diferente. subimos as escadas: eu e o meu pai, as minha irmãs, a minha mãe à frente. ela foi a primeira a entrar. nunca o esqueci: ela gritou. a minha mãe atirou-se contra a porta a chorar: ela gritava. ela tinha um casaco castanho que era muito grande: os gritos abafados pelo casaco. toquei-lhe no braço: mãe. e depois vi.
no chão da sala: o meu avô. eles tiraram aquela mesa grande onde nos sentávamos todos nos dias de festa. erámos tantos. o meu avô ficava sempre na ponta. comiamos cabrito e tripas. a minha avó fazia um doce que tinha natas, pudim boca doce e pêssego enlatado por cima. naquele sítio estava o meu avô: um caixão aberto, rodeado de flores. a minha avó sentada no sofá. as pessoas chegavam e saiam, davam-nos beijinhos e diziam que tinham muita pena. dormi algumas horas. no dia seguinte ele continuava lá: as pessoas continuavam a chegar e a sair. olhei para ele e passei-lhe a mão pelo cabelo gelado. o meu primo, sentado à minha frente. ele disse: às vezes parece que se olhar fixamente ele se mexe. ele não se mexia. ele estava só ali: no chão. nenhum de nós sabia que ele ia estar no chão.
ouvi um barulho. fui à cozinha e encontrei a minha avó: ela, de avental, a bater bifes que já estavam temperados. porque é que estás a fazer isso? ela não me respondeu.
quando o carro que ia levar o meu avô chegou alguém nos foi avisar. a minha avó na sala, de avental, ajoelhou-se no chão ao lado dele. ela agarrou um ramo de flores. depois outro. ela disse: levem isto. e depois ela gritou: levem isto, tirem isto daqui. levem-no daqui. sentada no sofá vi a minha avó a atirar as flores contra o chão a gritar: levem-no daqui. a minha querida avó.
naquela noite dormimos na cama do meu avô: eu, a minha irmã, a minha prima. a minha avó dormiu ao nosso lado numa cama pequenina que se fechava ao meio. enquanto dormiamos ouvi-a chorar.

já escrevi aqui sobre a minha relação com a morte. não é boa.
o meu medo da morte começou quando vi a minha prima deitada na minha cama: inconsciente. naquele dia pedi ao deus em quem não acredito que não a levasse.
o meu medo voltou no dia em que perdi o primeiro filho.
piorou quando perdi o segundo.
às vezes eu dizia-lhe que precisava de ir ao médico: estou sempre a pensar que vou morrer.
o medo, a ansiedade: fazem o meu corpo doer mais. não me deixam dormir. depois desaparece: passam semanas, meses. e depois vejo alguma coisa que me muda: que me faz ter medo. ontem publiquei no facebook a razão porque não quero lá voltar: quero viver numa quinta. o facebook tem-me mostrado o mundo: o mundo é demais para mim. saber algumas coisas faz-me sentir pior. luto todos os dias para me sentir calma: não vai acontecer nada. respiro fundo. agradeço pelos dias iguais. algumas pessoas escreveram-me: algumas compreendiam, algumas disseram que ver as coisas más é o que nos faz valorizar as boas. mas e quando as coisas más nos impedem de viver as boas?

ele convidava-me muitas vezes: desde que a maria nasceu que nós não iamos jantar fora. só eu e ele. em setembro ele convidou-me outra vez. ele queria ir a um restaurante em algés. a 15 minutos da nossa casa. tinhamos de andar de carro 15 minutos para lá chegar. disse-lhe que não: disse-lhe que jantava com ele se fosse mais perto. ali: pensei na morte: eu e ele dentro do carro, eles sozinhos, eles sem ninguém. os dias passaram, ele não voltou a perguntar. naquela tarde comecei a pensar em mim: os meus medos. eu sei ser mais forte do que eles. às vezes sei. naquela tarde reservei uma mesa para dois num restaurante em algés. para ele aquele jantar significou muito: foi o primeiro jantar a dois em 3 anos. para mim significou mais: naquela noite venci o medo. 

eu não preciso de coisas más para valorizar as boas: elas não me fazem abraçar os meus filhos mais vezes, nem com mais força. eu estou nessa fase: não quero saber.  não quero ver.
deixar de usar o facebook não é um desafio pessoal. eu não vou obrigar-me a manter-me longe. é a minha defesa. preciso dela agora. quero dormir melhor. quero parar de chorar por lutas que não são minhas: esquecer a dor que não me pertence. quero isso: ser forte. ler e esquecer. quero que o meu medo seja mais pequeno que a minha paz. quero falar dos meus medos. ultrapassá-los. quero parar de querer mudar o mundo. quero viver numa quinta.



15 comentários:

  1. Eu não sei dizer... aliás, sei. As lágrimas correram pelo meu rosto...

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  2. O meu querido avô Zé também chorava sempre nas despedidas... e eu sou uma lamechas como ele. E morreu faz em Janeiro 2 anos, tenho saudades, ligava-me todos os dias, era ele sempre que me avisava da mudança da hora... Ganhei medo de morrer depois de ser mãe. Não quero morrer. Tenho uma cirurgia complicada em duas semanas e tenho medo. Mas ninguém sabe, porque quando digo que tenho medo, acham que é disparate. Mas tenho. E não tenho nada boa relação com a morte. Um beijinho.

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  3. Cada um sabe de si, das suas lutas, dos seus medos e das coisas que nos fazem sentir bem...
    Se afastar-se do FB é uma forma de ser forte... so be it!
    :)

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  4. É curioso como nos revemos nas histórias alheias e ao mesmo tempo é reconfortante saber que não somos sozinhas a sentir coisas, a sentir essas coisas estranhas. A minha primeira perda marcante foi aos 12 anos, convivi de perto com a doença pouco usual e morte do meu avô e só mais recentemente percebi que foi isso que me marcou para sempre. A primeira vez que percebi essa minha relação com a morte tinha uns 15 anos, vi um episódio dos ficheiros secretos com o meu pai e seguiu-se uma conversa sobre a morte por causa da história da série. Fiquei tão mal disposta com a ideia da morte que me fartei de vomitar. A partir daí foi isso: épocas de maior medo e ansiedade com a morte, outras menos. Sempre uma relação estranha, menos boa. Até que tomei coragem e então vim viver para uma quinta no Alentejo, e estou muito melhor :) agora tenho um pequeno Pedro e sonho muitas vezes com aquilo que faz com os seus dois amores: ensiná-lo eu e estar em casa com ele porque precisa de mim, só de mim. As pessoas dizem, 'tem de se desapegar de ti' e eu penso que devem estar malucos, que este mundo está maluco. Parabéns pela sua vida!

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  5. Faz sempre aquilo que o teu coração te mandar e o que der tranquilidade ao teu espírito. Só nós sabemos do que se passa dentro de nós! Beijinhos e muitas energias positivas para recuperares a tua paz. <3

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  6. (de coração apertado, lágrimas nos olhos, um nó na gargante...) Força! ♥

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  7. Desde que conheci a página do facebook e o blog foram raras as vezes que não fui espreitar. Comecei a acompanhar o vosso dia-a-dia quase diariamente, quando falhava vinha ao blog e via de uma assentada as fotos lindas que descrevem uma vida simples no bom sentido, bonita e sincera. Confesso que me serve de inspiração para realizar projetos com a minha filha. Há pouco tempo comecei a ler a “vossa vida” à minha filha de 2 anos, leio-lhe as imagens e ela todas as noites pede a Maia e o Miguéu, como se de uma história se tratasse, ela gosta genuinamente de os ver e fala deles como se os conhecesse na vida real, associa os seus filhos realidade dela, como por exemplo numa foto em que a Maria está a tratar do panda, a minha filha sempre que pega no boneco panda aponta e diz " Maia, Panda, dói-dói". A Vera tem realmente um impacto positivo na minha vida e no meu dia-a-dia e isso reflecte-se na minha família. Quando hoje fui espreitar a pág. do facebook como tem sido habitual, depressa me lembrei de ter lido que ia viver para uma quinta, vim logo ao blog e deparei-me com “a minha quinta” que li e pensei no que escreveu, reflecti nesta frase "eu não preciso de coisas más para valorizar as boas" esta frase, hoje, fez-me decidir que também quero viver numa quinta, que não quero mais ver coisas más para valorizar as boas, não me apetece chorar por outras princesas Leonor(es) ou príncipes, pelas desgraças e tristezas dos outros para me sentir agradecida. Também quero poder sentir-me feliz sem me sentir mal por isso. Quero passar essa felicidade à minha filha sem ter de sentir peso na consciência e no coração por outros não terem a sorte dela, por isso desde que li que a Vera não ia tão cedo voltar à pág. no facebook comecei a desvincular-me das páginas que me foram aparecendo pelo caminho e que esmagavam. Pouco a pouco vou deixar aquele mundo para seguir o que realmente me acrescenta algo de positivo. Gosto muito do blog do que representam e por isso continuarei a seguir-vos. Desculpe o testamento. Beijinhos ai para casa mesmo sem vos conhecer 

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  8. Sei que morrem pessoas, crianças diariamente mas conhecer-lhes os rostos, ficam para sempre nos nossos corações. Também tento fugir e compreendo.
    Esta quinta é um bom lugar! Obrigada

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  9. Minha querida Verinha, numca deixes de escrever por favor, beijinhos para todos aí em casa e um especial para ti.

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  10. O medo faz parte da vida, vencê-lo é a conquista dos fortes, os outros que não conhecem o medo, não sabem como custa lutar, também não conhecem a força que esta luta dá. Mas não se deixe abater por ele, se não sempre, vença-o as vezes suficientes.
    ~CC~

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    1. Como compreendo !
      Abraço apertado .

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  11. A Vera é tão, tão corajosa, tão, tão forte. Fui uma das que escrevi no facebook que tinha pena que por lá deixasse de passar, porque a Vera, e toda essa forma bonita de estar e ser é uma parte boa destas novas formas de comunicar, e da qual o facebook faz parte. Mas não faz sentido algum, forçarmo-nos em relação aquilo que nos faz mal. A Vera dá luz. Inspira. Por isso, cá estarei para acompanhar aqui. Através de pombo correio...mas como der mais jeito à Vera, não ao resto do mundo :) <3

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  12. Também não tenho uma boa relação com essa "coisa" a que chamamos morte! Com esse acontecimento. Li o post e chorei. Lembrei-me do dia que perdi o meu avô... tenho todas as emoções daquele dia em mim.. o cheiro de velas, de flores, os beijos..tudo... as suas palavras são tão cheias de sentimento, e apesar da tristeza, também concordo que transparece coragem! Uma verdadeira coragem! Faz bem falar, escrever, dividir.. Há sempre alguém que nos dirá uma palavra que conforta, não apaga a tristeza, mas conforta... um dia, há muitos anos atrás, devia ser tão pequena e ouvi na televisão que existe uma tribo que celebra a morte.. desejei tanto teletransportar-me para lá... só pensava que dessa forma evitaria tanto sofrimento que está sempre presente nesta palavra.. desejo-lhe muita força.. beijinho

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  13. Já tinha lido uma publicação anterior sobre a morte e o medo e fiquei de coração apertado na altura e acabei por não explorar o resto do seu espaço... Hoje voltei ao blog depois de o ver partilhado pela Lénia, e comecei a ver página a página desde o início até chegar aqui. E pelas fotos que vi, sem dúvida que não precisa "de coisas más para valorizar as boas". E garanto-lhe que quando se escreve assim, quando se deixa quem lê de lágrimas nos olhos e com um nó na garganta de tal forma que chega a doer, se escreve de forma muito verdadeira, bonita e de coração. Adorei e vou passar a seguir este espaço que é seu, dele, da Maria e do Miguel mas também um pouco de quem vos lê. Parabéns pela "sua quinta" ;)

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  14. Também tenho esse medo. Desde que sou Mãe. Medo de uma doença e de morrer.
    E de facto, vemos coisas no facebook que enfatizam esse pânico. Que nos desiludem, porque o Mundo no qual tentamos viver da melhor forma é o mesmo que nos deixa apavorada com crueldades inimaginaveis!

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