sábado, 11 de outubro de 2014

sou mãe: falho.

a minha mãe recortava bonecas em cartolinas e desenhava-lhes roupas para nós brincarmos. ela vendia doces para fora: na nossa cozinha uma bancada de mármore muito grande estava sempre coberta de brigadeiros e doces de ovo com caramelo e uma noz em cima. a nossa casa cheirava a chocolate e ela deixava-nos sempre rapar a tigela. no dia em que a minha irmã mais nova nasceu ela passou na minha escola para me explicar o que ia acontecer. eu tinha 6 anos e ela não queria ir sem me dizer adeus. no gira-discos ela ouvia o bolero de ravel e segurava as nossas mãos pequeninas e fazia-nos rodopiar. preparava-nos festas de anos e os bolos eram caras de palhaços com bocas feitas de pintarolas e cabelos de fios de ovos. ela nunca me deu uma palmada. ela levava para casa cães que encontrava na rua e tomava conta deles até lhes encontrar um dono. ela enchia sacos de comida e levava-me pela mão até às barracas nas traseiras da nossa casa. chamava-me verinha. ainda chama.
o meu pai viajava muito mas sempre que voltava trazia-nos chocolates muito grandes que comprava no aeroporto. um dia eu fugi da creche e fui ter com ele à fábrica onde trabalhava: ele nunca mais me levou para lá. lembro-me de estar na cama com ele e a minha irmã mais velha: ele contava-nos a história da branca de neve com vozes engraçadas. no dia em que a minha mãe foi para a maternidade ele fez-nos muitos ovos estrelados para o almoço. ele dava-nos banho e embrulhava-nos nas toalhas com um abraço. na praia levava-me ao colo até à toalha para eu não me sujar com areia. ele nunca me deu uma palmada. ele fazia puzzles comigo no chão da sala. chamava-me verita. ainda chama.
é engraçado como a nossa mente funciona: estas são as coisas de que eu me lembro. eu era pequenina: não me lembro de muito. nesses dias que eu não lembro eles faziam o melhor que conseguiam. e davam-me colo, limpavam-me as feridas, secavam-me as lágrimas, faziam-me cócegas. e eu que não me lembro de muito. 

[naquele dia eu estava com a minha irmã a fazer desenhos. não sei que idade tinha. talvez 5 porque ainda era só eu e ela. o meu pai entrou no nosso quarto com outro senhor. juntos foram ver a clarabóia que ficava lá no alto, onde nenhuma de nós chegava. o senhor ia arranjá-la. aproximei-me deles e dei ao meu pai o desenho que tinha acabado de fazer. era para ele. ele agradeceu-me e continuou a explicar ao senhor o que era preciso fazer. sentei-me a fazer outro desenho. quando a clarabóia se abriu caíu areia para o chão, estava suja. naquele momento a olhar para eles vi: o meu pai pediu desculpa ao senhor, apertou o desenho que lhe dei com as mãos e usou-o para limpar o vidro. ele fez tudo muito depressa, sem pensar. eu nunca o esqueci.]
[naquela noite eu estava sentada no chão da sala. estava escuro. tinha 6 anos. tinham passado horas desde que a minha irmã mais nova tinha começado a chorar. sentada no chão da sala eu olhava para a minha mãe: de robe comprido e um bebé muito pequenino nos braços. ela era a melhor mãe que eu podia ter: ela estava sempre lá. e nós éramos agora 3 filhas, uma casa e um casamento que nunca foi perfeito. na escuridão eu ouvia o choro da minha irmã, o choro da minha mãe que se balançava para trás e para a frente. ela estava sozinha e cansada. e zangada, ela disse: cala-te, cala-te senão atiro-te da janela. ela era a melhor mãe que eu podia ter: calma e carinhosa. e depois ela gritou. e eu nunca o esqueci.]

todos os dias tento dar o meu melhor: dou-lhes colo, limpo-lhes as feridas, seco-lhes as lágrimas, faço-lhes cócegas. esforço-me todos os dias. abraço-os e espero que eles me larguem primeiro: abraço-os o tempo que eles precisam. será que eles se vão lembrar disso? e depois desligo-me e faço coisas e digo coisas: coisas sem pensar: terei feito alguma coisa que eles não vão esquecer? eu nunca o esqueci. prometi a mim mesma fazer diferente. e um dia deitei o miguel muito pequenino na minha  cama: ele chorava. segurei-o nos meus braços durante horas enquanto ele chorava e depois deitei-o na minha cama: tão pequenino. mas a limpar as minhas lágrimas gritei bem alto: cala-te. olhei para trás e ela ali: a maria. a pequena maria a olhar para mim. e eu que estava sozinha e cansada.
ela faz-me desenhos e recorta pedaços de revista que me entrega embrulhados numa folha: é para ti. guardo-os a todos. pedaços de panfletos de supermercado que guardo durante dias: se ela me perguntar por eles mostro-lhe. ela nunca pergunta. depois deito-os no lixo, mas abro bem o saco e empurro-os lá para o fundo para ela não os ver. sinto-me sempre mal quando o faço. depois esqueço. e todas estas coisas que eu faço fazem-me pensar em nós: seres humanos. como pequenas coisas sem importância nos marcam e definem. esse é o meu maior medo: falhar. esquecer-me que eles me estão sempre a observar e falhar: mesmo ali, naquela pequena coisa. medo de ser humana: vou falhar muitas vezes. os meus pais foram os melhores pais que eu podia ter, deram-me amor, conforto, segurança. e depois um dia distrairam-se. e eu nunca o esqueci.

21 comentários:

  1. É um pouco cruel as nossas falhas enquanto pais ficarem assim registadas mas o que é certo é que ninguém é perfeito e ninguém é só Amor em todos os momentos. Os pais também falham e cometem erros e temos que aprender a viver com isso. Na minha curta vida como mãe, já gritei mas arrependo-me sempre. Infelizmente não dá para voltar atrás, apenas pedir desculpa, explicar que não se faz e tentar fazer melhor. Tentar sempre fazer o melhor!

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  2. Faz parte de ser mãe, sem dúvida. Também tenho esse medo e ao ler estas linhas, emocionei-me. Faremos o nosso melhor. Obrigada pela partilha.

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  3. Vera, gosto sempre tanto de te ler. Encontro-me tanto nas tuas partilhas e angústias. Todos os dias penso que poderia ter feito ainda melhor, que grito demais, que falho tanto... e abraço-os vezes sem conta e estou lá sempre, e desejo tanto que eles se lembrem disso. É uma luta interior.Constante. Tantas vezes que eu me oiço a dizer coisas que não devia, tantas vezes que queria não ter dito, não ter feito. Obrigada por partilhares tanto.
    Espreita as minhas promessas para o dia que começa:
    http://vivertodososdiasaqui.blogspot.pt/2014/09/promessas-para-o-dia-que-comeca.html

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  4. Simplesmente Lindo! Sem palavras...

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  5. parei um pouco o trabalho que estava a fazer para vir cuscar os blogs que sigo e ... o meu espanto quando estou a estudar o assunto deste post, o não querermos errar no que os nossos pais erraram, o termos essa pressão em cima enquanto pais. é normal, é com maioria das pessoas, é o medo de falhar como algumas vezes nos falharam. não penses demasiado nisso, dás em maluca.

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  6. Interessante. levei palmadas e gritos certamente, e no entanto não me recordo de nenhum desses momentos que me tivessem magoado, lembro-me sim das tardes sentadas à porta de casa, a minha mãe a ensinar-nos a coser ou a fazer malha, ela fazia para as nossas bonecas. Lembro-me do amor que nos deram, apesar de levarmos palmadas e gritos qd mereciamos. Falhar é humano, falhar é normal, o importante é amar... acima de tudo e acho que isso não falta d'um todo à Maria e ao Miguel.

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  7. Já te disse isto várias vezes. Eu adoro a tua mãe. De todas as mães das minhas amigas era a minha favorita... Tu falhas e eu falho e agora percebemos melhor as falhas dos nossos pais.. A tua escrita transporta me para a minha infância.. Simples e bonita.. Parabéns.. És uma excelente mãe.

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  8. ..e não sei para onde foi o comentário que acabei de fazer!!
    Adorei e arrepiei! Obrigada! Fechei os olhos e vi-me pequenina com pais maravilhosos mas que tb falharam! E ve-,me mãe de duas pequenas princesas mas o cansaço do dia a dia fazme distrair da vida e tantas vezes falhar!! E queria tanto prometer não falhar!

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  9. Como é habitual, trazes à luz algo que muitos de nós (mães e pais) por vezes queremos que fique guardado lá no fundo da memória e do coração... somos humanos e por vezes, quando a pressão é demais, reagimos impulsivamente e arrependemos-nos no minuto seguinte! Quero acreditar que, apesar de podermos ficar com alguns desses registos de infância na nossa memória, aquilo de que nos lembramos mais é dos bons momentos e do carinho com que fomos tratados... comigo é assim! E tendo-te a ti como exemplo, os teus pais fizeram um excelente trabalho, tal como tu tens feito com os teus pequeninos! Todos nós falhamos de vez em quando... e reconhecê-lo é meio caminho andado! :)

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  10. Que lindo :) ... o medo de falhar é assim intrinseco a quem é mãe ou pai... eu acho ... porque começou no segundo que a primeira de três saiu de mim...
    Muito lindo

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  11. É mesmo assim, é pena que a dor nos marque mais que a felicidade! Mas não podemos controlar tudo, ser perfeitos, falhamos. Isto que diz acontece-me também com os meus alunos, quase sempre acho que estou bem mas ao longo da vida já lhes disse coisas infelizes, negativas e eles recordam-nas, registam-nas. Mas os mimos também ficam lá, invisíveis como segunda pele mas a constituí-la.
    ~CC~

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  12. Fantástico texto, dá vontade de fechar os olhos e recordar o passado!

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  13. E nunca esqueceu e um dia, quando cresceu e foi mãe, percebeu e perdoo. Também grito, e falho e logo a seguir fico a pensar que não era preciso, que havia outros caminhos. Mas às vezes somos apenas humanos. Um dia, espero que eles percebam que...apesar das muitas asneiras, dos muitos disparates, que os amo acima de tudo, e me perdoem por todos os outros momentos. Obrigada, venho aqui tantas vezes para ser melhor mãe.

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  14. Obrigada... Só lhe posso agradecer...

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  15. Tão bem escrito e tão verdade!

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  16. é tão verdade...
    são as pequenas coisas, mesmo essas!

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  17. Falho tantas vezes...

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  18. Das melhores coisas que já li.
    E por isso, obrigada.

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  19. Um texto maravilhoso... que espelha a essência de um ser humano maravilhoso. Obrigada por partilhar. Obrigada por escrever. Muito obrigada!

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