sexta-feira, 19 de setembro de 2014

hoje, um ano depois.

passou um ano: há um ano tinhamos acabado de chegar à noruega. eu, a maria, o miguel: tinhamos esperado 6 meses para ir ter com ele.
quando as pessoas me perguntam como é que foi estar em oslo respondo sempre depressa: foi horrível. mas não foi horrível. foi diferente. às vezes tenho vontade de lá voltar só para esquecer os maus momentos: para fazer as pazes com aquela cidade, para criar novas memórias.
a vida em oslo arrastava-se: os dias eram curtos, as horas intermináveis. viviamos num apartamento do patrão dele: tentámos arrendar a nossa própria casa, nunca conseguimos. nunca senti que fossemos tratados de maneira diferente a não ser quando tentávamos arrendar uma casa: não éramos noruegueses. passámos muitas horas dentro daquela casa. ele saía para trabalhar, eu ficava com eles. os dias foram ficando cada vez mais curtos: o sol chegava tímido às 9 horas e desaparecia depressa, logo depois de almoço. lembro-me de estar com eles a brincar no parque: noite escura às 3 da tarde. isso fazia-nos rir às vezes: quando demorávamos tanto tempo a despacharmo-nos para sair que quando conseguiamos já estava escuro. a maria e o miguel dormiam sestas longas, embalados pela chuva. nas primeiras semanas tive a companhia do meu pai, depois era só eu: eu ali naquela casa. eu à espera: dele que estava a trabalhar, deles que estavam a dormir. havia pouco para fazer naquela casa. sentava-me naquele sofá a olhar para a janela: ruas desertas. senti-me muito sozinha: senti-me sozinha muitas vezes. eu, a maria e o miguel dormiamos em duas camas pequenas que juntámos com uma corda. ele dormia ao lado, no chão. a casa estava vazia: as gargalhadas deles faziam eco. para sair com os dois tinha de descer 3 andares de escadas. não conhecia as ruas, estava escuro. a chuva. a neve. eles ficaram doentes muitas vezes: corri para o hospital muitas madrugadas. às vezes os dias eram fáceis e tudo nos fazia rir. às vezes não eram.
a noruega foi difícil: foi difícil o frio -tanto frio- que me congelava as mãos, que me aumentava as dores. foi difícil ver o meu pai chorar pelo skype: as saudades. foi difícil ver a maria tão triste: ela cada vez mais fechada, mais distante. ela a mudar. discutiamos muitas vezes: eu e ele. eu e ele ali: às vezes a enfrentar os dias juntos, às vezes tão longe um do outro. tive medo. eu chorava com medo do fim. eu a guardar os meus medos em silêncio para os fazer sorrir. a eles: a maria, o miguel. eu a chorar e a perguntar-lhe baixinho enquanto eles dormiam: o que é que estamos aqui a fazer? foi difícil. foi. mas depois nós juntos, os momentos felizes: o primeiro aniversário do miguel. o dia em que eu acordei e corri para os chamar: a neve que cobria tudo, nós de pijama à janela. a maria a ensinar o miguel a andar: os primeiros passos do rapazinho. ela a fazer bonecos de neve. eu e ela a comermos salsichas na rua, enroladas num cobertor: a cara dela cheia de ketchup. nós na esplanada sempre que o sol aparecia. não tirei muitas fotografias na noruega. tenho muitas deles dentro de casa, tenho poucas daquela cidade. acho que na altura me faltou a vontade de a guardar. hoje arrependo-me de não ter registado tudo: as horas que passávamos no supermercado a tentar perceber o que era cada coisa. o bife que um dia decidimos comprar e dividimos por todos: um bife custava 20 euros. as visitas do daniel, o colega de trabalho dele, que nos enchia a casa e fazia os meus filhos sorrir. ela ainda pergunta por ele. a maria a fingir que falava norueguês. as crianças a dormirem nos carrinhos à porta das creches. o gelo no chão: eu a escorregar. o português de fio de ouro ao peito que conhecemos no parque.
a noruega não foi horrível. mudou-me: dou ainda mais valor à minha família: os meus pais, as minhas irmãs. gosto de os ter por perto, de ver a minha sobrinha crescer. fez-me ter mais respeito pelos que moram longe. não é fácil. nunca é a nossa casa, o nosso sítio. dou mais valor ao que tenho, ao que me rodeia. pequenas coisas. às vezes pergunto-me como estariamos agora se lá tivessemos ficado. provavelmente estariamos bem: numa casa nossa, com amigos novos, com mais dinheiro. não seriamos mais felizes do que somos aqui. nunca. eu sei disso.
na madrugada em que fui para o aeroporto a minha mãe dormiu comigo. eu e ela na cozinha preparámos o pequeno-almoço. eu estava com medo do vôo. olhámos para o relógio: tinha de os acordar. os minutos passaram depressa. quando chegou a hora caminhei pela casa: despedi-me. o táxi chegou: já estava na hora? parou- disse a minha mãe. o relógio da tua cozinha parou.
às vezes é assim que eu penso nesta passagem pela noruega: todo o tempo que estivemos lá só existiu ali. quando voltámos: o tempo ali parado. o tempo todo no relógio da minha cozinha. estava tudo na mesma, não tinha mudado nada. e pela primeira vez isso não nos incomodou: só confortou os nossos corações.



noruega2 from vera agostinho on Vimeo.

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