sexta-feira, 22 de agosto de 2014

a árvore.

vamos cedo para o parque. uma senhora aparece. todos os dias ela apanha as folhas do chão. às vezes deita-as no lixo, às vezes guarda-as no saco. fala sozinha. eles param a olhar para ela. a maria pergunta-me sempre: porque é que a senhora está a fazer aquilo? respondo sempre: não sei. depois a senhora olha para eles que, assustados, correm depressa. escondem-se debaixo do escorrega. ontem a maria não correu: ontem ela ficou ali parada, colada à grade, com as mãos cerradas. ela perguntou: porque é que estás a fazer isso? a senhora, curvada a apanhar folhas, endireitou-se, olhou para a maria e disse: porque esta é a minha árvore. ela contou à maria que há muitos anos- há tantos, tantos anos- a escolheu num canteiro e a levou na mão. que a viu crescer lá em casa dela. que depois a plantou ali. ela disse à maria que apanhava as folhas velhas e caídas para ela estar sempre bonita. que falava com ela para ela não se sentir sozinha. que às vezes o vento soprava e as folhas diziam-lhe adeus. a maria, de testa franzida, ouviu tudo muito atenta. quando a senhora se foi embora ela disse-lhe adeus. e depois olhou para cima e gritou: árvore nós ficamos aqui mais um 'cadinho.


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