segunda-feira, 30 de junho de 2014

eu tenho medo.

hoje quando entrei no café senti-me uma pessoa normal: estavam todos a falar da morte. a pensar nela.

eu não me lembro quantos anos tinha. 13. talvez 14. naquela noite partilhei o meu quarto com a minha prima. era verão. eu deitada na minha cama, ela deitada na cama que abriamos quando tinhamos visitas. a minha prima nasceu 4 meses antes de mim. ela era a minha prima e a minha melhor amiga e eu que nunca lho disse. naquela noite de verão falámos sobre os nossos amigos, a nossa avó. vimos uma telenovela: não me lembro qual. ela comeu uma maçã. adormecemos.
acordei com aquele som. tinha o meu corpo encostado à parede: estava fria. ouvi aquele som. outra vez. outra vez. eu tinha os olhos fechados quando disse à cadela para sair. aquele som: a minha cadela com soluços. outra vez. levantei-me depressa, queria dormir mais. quando olhei para baixo não vi a minha cadela: vi a minha prima. pálida. os olhos revirados tremiam. o pescoço: nunca vou esquecer o pescoço. o corpo teso. as veias escuras. ela tinha a cabeça para trás, o pescoço esticado. aquele som: ela tinha a boca aberta. baixei-me ao lado dela. chamei-a. chamei-a muitas vezes. pedi-lhe para não gozar comigo. disse-lhe que me estava a assustar. segurei-lhe a cabeça: endireitei-a. ela parou. aquele som parou. eu estava molhada. naquele momento percebi: ela estava a sufocar. ela estava a sufocar com a saliva que agora escorria nos meus braços. corri para a sala. a minha mãe dormia no chão. pedi-lhe que fosse lá depressa: disse-lhe que ela estava a sufocar. disse-lhe que ela tinha comido uma maçã. disse-lhe coisas que não me lembro. eu estava a chorar: parei no corredor para chorar. o meu corpo estava a tremer. abracei a minha irmã que era tão pequenina. abracei-a com força: no dia seguinte ela tinha o meu medo marcado no braço. a minha mãe: de camisa de dormir, ajoelhada no chão do meu quarto: ouvi o desespero crescer a cada palavra. a minha mãe a gritar por ela. a minha mãe de joelhos a abraçá-la. peguei no telefone e pedi ajuda: tantas perguntas. eles faziam tantas perguntas. eu implorei enquanto chorava. eles faziam perguntas que eu repetia alto: conseguia ouvir o medo na minha voz. a minha mãe dava-me as respostas. e depois ela gritou: ela parou de respirar. ela parou de respirar. a minha mãe chorava. repetia o nome dela.
eu tinha 13 anos. talvez 14: segurava o telefone e repetia: por favor. por favor não morras.
a minha prima não morreu naquele dia.
mas a vida dela mudou para sempre.
e a minha também.

passei parte da minha adolescência a lidar com o medo da morte. ele estava sempre lá.
depois os anos passaram e eu sentia-me melhor. mais leve. não pensava muito nela.
depois perdi-o: pimeira gravidez e eu perdi-o. aquele som na minha cabeça. outra vez. era o medo.
fui a uma psicóloga: disse-lhe que tinha outra vez medo da morte. tenho medo de todas as mortes: a morte inesperada. a prematura. a natural. a das pessoas que eu amo. a minha morte. disse-lhe que naqueles dias ele saía para comprar o pão: eu dava-lhe o nosso último beijo. uma queda. atropelado: o pão espalhado na rua. disse-lhe que tremia quando não atendia o telefone ao meu pai: a nossa última conversa. um acidente. o coração: e ele que era tão novo.
ela ajudou-me. eu aprendi a lidar com o medo: raramente atendo o telefone.
agora não estou sempre a pensar na morte. mas às vezes o medo cresce:  é irracional. às vezes o meu medo ultrapassa sorrisos e abraços e palavras: é um medo maior. faz o meu coração bater depressa. às vezes quando deito a cabeça na almofada eu só penso em tudo o que pode correr mal. às vezes sinto que os meus medos cresceram com a minha felicidade: sou mãe. tenho tudo a perder.

o meu medo está calmo agora: não me limita. faz-me apreciar mais os dias. abraçá-los mais vezes.
eu não tenho vergonha de ter medo da morte. de não ser a pessoa mais positiva e mais alegre. às vezes o meu medo faz-me rir: as coisas que eu penso. outras fazem-me sentir pequenina. fazem doer o peito. às vezes tenho outra vez 13 anos. talvez 14.

hoje quando entrei no café senti-me uma pessoa normal: estavam todos a falar da morte. a pensar nela: a morte inesperada. prematura. hoje senti que se gritasse bem alto que tenho medo da morte todos me iam entender. e eu tenho: tenho muito medo dela. 


16 comentários:

  1. Sem palavras... Um grande beijinho.

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  2. Fiquei sem ar. Texto assustadoramente bonito. Também tenho medo.

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  3. bem deve ser muito complicado teres visto a tua prima assim..

    para quem não lidou de perto com a morte ou com alguma situação extrema,só nos lembranos que não somos invencíveis nestas alturas :(

    kisses***

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  4. :( não sei o k é lidar com essa experiência, mas lembro-me que pelos meus 4/5 anos o dia em k morreu a minha avó paterna, foi um choque eu dormia como todas as noites, alegre e feliz, mas aquela noite era ainda mais especial, pois o meu irmão mais novo dormir comigo em lá em casa da minha madrinha, de manhã acordei com os risos altos e constantes, chamei o meu irmão toda contente no colchão ao lado, a dizer "anda mano estão a contar piadas", era um hábito contar piadas, rir, brinca todos felizes, subimos a escadaria e demos com todos a chorar mesmo mto, pensei que estariam a chorar de tanto rir, perguntei toda sorridente a todos os meus primos, que tinham idade mto perto da do meu pai, qual era a piada, tb queria chorar de tanto rir, mas aí a minha mãe veio buscar-me, levou-me à cama onde estava deitada a minha avó, fiquei pensativa, a perguntar várias vezes à minha mãe porque estava ela a dormir com tanto riso, aí a minha mãe disse que ela estava a dormir um sono que ia leva-la para o céu, que lhe desse um beijinho de despedida pois não ia voltar a ver a avó, avó que passava os dias sentada a ver-me brincar com os meus primos, com os braços no colo com os seus poucos cabelinhos loiros curto com pequenos caracóis, pele branquinha sempre sorridente, e carinhosa com os netos e bisnetos, eu fiz o que minha mãe disse, fiquei em choque, senti a minha avó gelada, senti tanto frio, tanto, mas tanto, que comecei a olhar cada pormenor na minha avó, a posição das mãos sobrepostas no peito,mto direita, ainda mais branca do que o costume os olhos fechados e sem o sorriso que a caracterizava. Os meus pais acabaram por levar-me a mim e ao meu irmão embora para casa dos avós maternos, o meu pai na altura só tinha mota, íamos os 4 nela o meu irmão no colo da minha mãe e eu em cima do depósito de gasolina a casa dos avós era a 10 minutos, foi tempo suficiente para eu sair do choque e começar a chorar, chorei desesperadamente, por mto tempo, meu pai começou a andar mais rápido para poder perceber o que se passava comigo, chegamos e eu não conseguia sair daquele estado, não havia colo que me acalmasse. Entre o dia feliz que tinha tido com o meu irmão mais novo, a noite que passamos juntos tão raras que eram, até acordar naquela manhã toda feliz e sorrir, porque todos estavam felizes como eu, até aquele momento, momento em cima da mota, momento em que a percebi o que tinha realmente acontecido, a Morte, nunca tinha visto ninguém assim foi desesperante e realmente o medo de que todos iam morrer a minha volta era horrível, pensei nisso por mtos anos, os meus pais lamentaram terem-me levado a despedir-me da avó, o meu irmão não foi era mais novo e ficou para trás, eu fui porque passava todos os dias com ela, queriam que me despedisse, para depois não sentir saudades sem entender o que se passou com avó. Não os culpo eles nunca imaginaram que eu iria reagir assim, que fosse entender que o ir para o céu era a Morte, nunca mais fui a um funeral, nem ao cemitério, nunca me sentia bem quando falavam desses assuntos. O meu choque foi diferente do teu, com certeza que sim, mas eu era tão pequenina, nunca mais vou esquecer aquele dia, está gravado na minha memória até hoje, ao ler a tua história de vida, veio a lembrança imediata daquela manhã, as lágrimas caem até agora. Já à mtos anos que não pensava naquela manhã. Força querida não devemos viver com medo, mas sim aproveitar cada dia com quem amamos o mais possível. Aprendi a conviver com este sentimento, a deixá-lo bem guardado num cantinho, ainda bem que tb conseguiu.

    Bjinhos Cris

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  5. PORRA! (desculpem) absolutamente brutal, parabéns por esta partilha.

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  6. eu tb... MUITO!

    Muito, mas mesmo muito grata pela partilha

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  7. Desde que fui mãe, eu também.

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  8. Eu tento não pensar nela.
    Sei que existe e me espera.
    Desde que sou mãe não quero morrer.
    Tenho medo de lhes fazer falta.
    Tento não pensar.
    vidademulheraos40.blogspot.com.

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  9. Obrigado por me fazer sentir também uma pessoa normal. Muitos parabéns pela forma como escreve.

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  10. No ano passado descobri um caroço no peito,e descobri também que o meu maior medo é morrer. À 3 semanas o meu pai teve um acidente de mota,ainda está no hospital,quase que morri com medo que ele morresse.
    O meu maior medo é a morte,também estou quase sempre a pensar nela,tenho tanto mas tanto medo da morte...

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  11. eu também e só tenho 22 anos. tenho muito medo, as vezes sinto que tenho tanto medo que paraliso. as vezes assim do nada faço esses filmes. estamos todos no carro o pneu fura e morremos. ou a minha irmã está a andar por cima de um muro e cai. até a mais infíma hipótese de morte me faz ter medo da morte. Mas quando fui efectivamente confrontada com ela, acabei por perceber que não temos que ter medo. E embora ainda tenha, também tenho aprendido a viver com esse medo. e há dias em que sabe bem saber que há quem seja como eu, conforta o coração. ao menos não estou sozinha nestes medos

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  12. Fez-me chorar...também tenho medo.
    Por isso acho que é tão importante festejarmos sempre que possível, partilharmos os momentos com os outros e guardarmos recordações felizes.
    Costumo ser muito optimista e alegre, mas desde que o meu pai pôs um pacemaker sinto-me um pouco diferente. Tenho mais medo.

    Boa noite*

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  13. Como eu a entendo...a mim a vida foi-me retirando aqueles que mais amava aos bocadinhos, 1º pai de pois mãe...
    Esta última morreu á 5 anos e só de há 6 meses para cá é que superei os medos da PERDA, de pensar em filhos e logo em seguida vir o medo de os perder, do meu marido estar a surfar até de noite e eu fazer logo um filme...agora estou como você, mais cala, serena, a saber lidar com o que perdi e com o que possa perder.
    A vida é uma passagem e todos mas todos sem excepção teremos de lidar com a morte...é o destino de cada um!!

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  14. Olá, não sei se este teu post serviu para exorcizares um pouco esse medo que te acompanha. A mim, fez-me sentir mais acompanhada, não só porque partilho contigo todos os receios que descreveste mas também porque o teu blogue é uma excelente companhia. Excelentes textos, bonitas fotografias, afectos deliciosos. Parabéns!

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  15. Quando eu tinha 11 anos a minha avó estava a lutar contra um cancro. Palavra terrível. Acompanhei todo o processo e sofri sempre em silêncio. Passei a ter muito medo de morrer e que ela morresse. Eu já sentia nódulos nas maminhas e tudo. Eu tinha medo de deixar de ouvir o meu coração bater. Tinha mesmo medo. Mas nunca disse a ninguém. Quando a minha avó morreu, eu já estava deitada. Mas ouvi o telefonema. A voz do meu irmão triste ao receber a notícia. Não disse nada. Fingi que estava a dormir, mas tremi como varas verdes. Na manhã seguinte, não disse nada. Não chorei. Não soube o que dizer à minha mãe nem a ninguém. Simplesmente disfarcei e aposto que todos acharam estranho. Mas por dentro estava destroçada... A morte é um assunto que deixou de me assustar. Ou assustar tanto. E ainda bem, pois naquela altura eu vivia presa com medo dela.

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  16. li este blog, pela primeira vez, no texto "nós temos tudo" e fiquei com aquele nó na garganta que nos faz sufocar por instantes... não resisti e tive que ler este texto e outros tantos. muitos! e este... demasiado forte!
    fiquei viciada. mesmo!
    muitos parabéns pelas palavras. pelos filhos lindos. e obrigada pela inspiração!
    vou ficar aqui coladinha sempre à espera de novidades.

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