sexta-feira, 23 de maio de 2014

a vizinha, o velho, o homem do saco.

ela tem cabelos brancos. usa batas aos quadradinhos. mexe-se devagarinho. mora na cave do prédio ao lado: a vizinha. às vezes quando estendo a roupa vejo-a no terraço: pergunta sempre pelos meninos. diz-me sempre que quando precisar posso lá deixá-los, ela toma conta deles. sabe o nome da maria e do miguel. quando nos cruzamos com ela na rua ela pergunta sempre à maria: posso levar o mano para a minha casa? eu sorrio e espero pela resposta. ela diz sempre que não. diz muito baixinho que não. e depois seguimos caminho e a maria olha muitas vezes para trás.
e às vezes o miguel não quer comer e atira o prato de massa para o chão, espalha o papel higiénico pela sala, grita muito alto quando lhe quero mudar a fralda, levanta a mão à maria, rasga os livros dela, trepa a mesa. e eu digo-lhe: às vezes digo: menino mais uma dessas e vais para a casa da vizinha. às vezes eu não o digo com um sorriso. ele sorri sempre, diz que sim com a cabeça. a maria fica calada.

hoje quando acordámos estava a chover. as minhas dores: os meus pés, o meu cotovelo direito, os meus punhos. estiquei um rolo de papel no chão, tirei-lhes as meias, cobri-lhes os pés de tinta. queria fazer alguma coisa por eles: queria esquecer as minhas dores. eles correram pelo papel deixando pegadas coloridas para trás. gritaram e deram gargalhadas sempre que escorregaram e ficaram cobertos de tinta. a maria tinha uma pinta na testa. sentada no chão comecei a pintar com os meus dedos. estava longe: a sentir a tinta a escorregar, a desafiar a dor no meu dedo. quando olhei para o lado vi: o miguel na sala a olhar para a televisão com os pés no tapete. gritei: não gritei com ele. dei um grito. gritei porque me tinha esquecido de fechar aquela porta e ele lá estava com os pés em cima daquele tapete que já tinha nódoas de plasticina, de leite com chocolate, de canetas de feltro. quando eu gritei a maria gritou também. quando eu, ainda sentada, disse: vem para aqui migas, a maria disse também, muito aflita, vem para aqui migas. eu repeti duas vezes: vem para aqui. de repente ele virou-se para trepar o sofá: ele, coberto de tinta. levantei-me num salto, corri até ele, peguei-lhe ao colo. durante todo esse tempo a maria não parou de gritar. quando me virei para ela e pousei o miguel em cima do papel perguntei-lhe porque é que ela estava a gritar: vi naquele momento: ela não me estava a imitar, ela não estava a brincar: ela estava assustada. peguei-lhe nos braços cobertos de tinta e perguntei-lhe: o que é que se passa. ela chorava. perguntei-lhe outra vez. disse: tens de me dizer. ela soluçava quando me disse com as lágrimas a escorrer-lhe pelo rosto: eu não quero que o mano vá para a vizinha.
o meu coração ficou em pedaços.
não senti dores no meu corpo: naquele momento as palavras dela fizeram-me sentir a pior mãe. a minha dor era tão pequena. olhei-a nos olhos. disse-lhe que nunca o faria: nunca vou fazer isso. pedi-lhe desculpas por todas as vezes que o disse. prometi nunca mais o repetir. sempre que penso naqueles gritos de pânico: ela a pensar que o miguel estava a fazer a maior asneira de todas. ela a pensar que eu estava muito zangada e o ia castigar. eu não sou assim: eu não os castigo porque eles me pintam o sofá ou as paredes. ou porque me rasgam os livros. às vezes ele diz-me que eu devia ter mais gosto pela nossa casa, que não os devia deixar mexer porque eles estragam. eu não me podia importar menos. mas mesmo assim ela pensou que eu o ia castigar: o meu coração ali: em pedaços. abracei a maria com muita força.

em pé, encostada à parede, a olhar para os dois a pintarem os braços um do outro senti-me triste. senti-me orgulhosa. humilde. triste por tê-la um dia feito sentir tanto medo. orgulhosa pelo amor tão bonito que ela sente pelo irmão. humilde: a minha filha de 3 anos acabara de me ensinar uma lição. todos os dias em tudo o que eu faço: faço-o porque quero que eles se sintam amados. seguros. felizes. mas ela tem emoções e medos: não os vou voltar a subestimar. não vou assustá-los, vou respeitá-los.
vou ser melhor: da próxima vez eu vou dizer à vizinha que ela não o pode levar. nunca.
prometo maria.

12 comentários:

  1. Emocionei-me, senti como se fosse eu com a minha filha!! às vezes dizemos coisas sem querer, sai-nos pela boca fora e nem temos noção do impacto que tem nas suas cabecinhas e nos seus corações.

    Parabéns pela escrita!!
    Beijinhos

    beijinhos

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  2. Não consigo acabar de ler estes textos sem ficar com os olhos a brilhar. Maravilhosamente humanos.

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  3. O que é uma casa sem sorrisos? sem marcas de pessoas, de emoções e da vida? as paredes que interessam mantém-se através de momentos, não como aquelas que aparecem nas revistas de decoração.

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  4. No meio disto tudo, que culpa tem a vizinha?
    É quem me parece estar a ser mais desrespeitada. :-(

    Faz lembrar os paizinhos que dizem aos filhos que "se te portas mal levo-te ao doutor e ele dá-te uma pica"... E que quando vão ao médico, fazem uma fita enorme porque os pais lhes ensinaram que os médicos fazem mal. E depois, em adultos, bem sabemos como tantos preservam tantos preconceitos...

    Boa sorte.

    P.S.: Já agora, podia permitir comentários anónimos no blog. Nem todos os estranhos são más pessoas. :-)

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    1. tem razão, a vizinha não tem culpa nenhuma. é amorosa e assumo o erro.

      até hoje não deixei nenhum comentário por publicar, anónimo ou não. às vezes posso demorar um bocadinho a aceitá-los porque não venho aqui todos os dias. obrigada!

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  5. Gosto imenso da forma como escreve :)

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  6. Como sempre, maravilhoso. Maravilhosamente real e humano.

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  7. Ai... ler-te é das melhores coisas que há!
    Eu tenho cuidado com o que digo à minha filha. Se uma pessoa mais velha diz algo do tipo: "olha que vem lá o papão"... eu aviso-logo que isso não é para dizer! Um dia disse-lhe, se não te portas bem vais já para a cama. O meu marido alertou-me e bem: "se lhe dizes isso, ela vai deixar de querer ir dormir porque vê nisso um castigo".
    Aprendemos todos os dias. Ás vezes derivado talvez à minhas dores, ao stress da vida de mãe que trabalha fora, e trabalha em casa, passo-me... sou mais agressiva com as coisas. Há dias que ela se chateia com os brinquedos e os atira ao chão... fico com receio se tive assim alguma atitude de grande falta de paciência e se ela aprendeu comigo...
    Um grande beijo.

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  8. Como é que eu só descobri este blog hoje? Gosto tanto. Obrigada!

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  9. Essa sensibilidade que tem como mãe e como pessoa é inspirador para muitas outras mães, e os seus filhos só podem aprender e crescer com isso, porque onde existe consciência naquilo que fazemos aprendemos com os erros e tornamo-nos melhores. Se um dia for mãe, vou lembrar-me desta lição! Obrigada por partilhar as suas experiências! :)

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  10. a relação da tua maria com o teu miguel faz.me lembrar a minha infância com o meu irmão. mais novo.
    mais um texto que me fez derreter. e sonhar. adoro! :)

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  11. Cheguei aqui ontem e tenho estado a deliciar-me com as tuas palavras, com os teus retratos de instantes comuns e, por isso mesmo, maravilhosos. Estou certa que vou percorrer tudo até ao primeiro post e, mais certa estou, de que vou aprender tanto.
    Obrigado. Vim para ficar.
    P.S.- também tenho um Miguel pequeno, segundo filho, cheio de energia e vontades difíceis a quem chamo Migas.

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