sexta-feira, 4 de abril de 2014

hoje.

está a chover outra vez.
passaram 92 dias desde que começou a chover. eu sempre gostei de chuva. ele não gosta: diz que a humidade lhe faz doer os ossos. está velho. hoje comemos sopa ao almoço e sorrimos quando ele deixou a colher saltar. o chão ficou sujo e ele ajoelhou-se para o limpar: lembrou-nos os miúdos. nenhum de nós disse nada mas lembrou-nos os miúdos.
a maria esteve cá em abril. a menina está crescida mas não fala muito. acho que não gosta de cá vir. quando era pequenina gostava, brincávamos com as panelas e ela corria a casa toda. ainda me lembro do dia em que ela nasceu: estava a chover. era parecida com ela, tinha os olhos dela. a maria estava tão feliz nesse dia. às vezes zangava-se comigo quando lhe dizia o que fazer: dizia que eu não percebia nada de bebés, que as coisas tinham mudado. se calhar mudaram. quando ela cá esteve perguntei-lhe se estava bem. se estava feliz. ela não me respondeu: passou-me a mão pelos cabelos brancos e perguntou: fazes-me um chá? eu fiz. enquanto ela o bebia ali sentada na mesa da nossa cozinha senti saudades dela: ela a pedir-me leite com chocolate: os caracóis despenteados, as mãos pequeninas. não falámos muito. perguntei-lhe se o natal podia ser aqui, ela disse que logo se via. que ia perguntar ao marido. tem uma voz meiga: ainda a tem. trouxe-me uma manta nova e uns chinelos. trouxe uns para ele também mas estavam pequenos, vai ter de os trocar. ele fica sempre feliz quando a vê, pede-lhe sempre que venha mais vezes. ela gosta muito do pai: segura-lhe as mãos para as aquecer. e diz-lhe que é complicado. que tem lá a vida dela. que trabalha muito. que é muito longe. pode ser que venha no natal. fazia-lhe aquelas rabanadas que ela gostava tanto. não deve vir, mas se viesse fazia-lhas.
ontem quando nos deitámos ele perguntou-me se me lembrava do dia em que nos beijámos pela primeira vez. nenhum de nós se lembrava. ficámos os dois no escuro de mão dada a olhar para o tecto. estamos velhos: sinto a velhice nos meus dedos. nos dedos dele. não me lembro do dia em que o beijei pela primeira vez. devia-o ter escrito num papel. 
ele está lá fora. debaixo de uma varanda a ver a chuva cair. o miguelito ligou: que lhe diga que já não pode vir hoje ver o futebol com ele. ele comprou um queijo, temperou umas azeitonas: vai ficar triste. vai dizer que não tem importância. ainda me lembro do dia em que ele levou o miguelito ao futebol pela primeira vez. lembro-me: ele era pequeno: tinha o cachecol a arrastar pelos pés enquanto caminhava para o carro. ele virou-se para trás para nos dizer adeus: eu tinha a maria ao meu colo para ela ver melhor. pode ser que venha no fim-de-semana e comam as azeitonas e o queijo. se lhe pedir pode ser que venha. gosto tanto de o ter aqui: ele fala alto e ri-se muito. ele alegra-nos, conta muitas estórias: mora um silêncio tão pesado nesta casa. às vezes peço-lhe que se sente para o ver melhor, que estou muito marreca. ele põe-se de joelhos e diz: então velhota, estou bonito? é a cara do pai quando era novo. parece que tem uma namorada nova. o pai diz que esta também não dura, que fala demais. eu já desisti de ter mais netos. já estou velha. amanhã quando ele ligar vou-lhe pedir que venha no domingo. todos os dias liga o meu migas. todos os meses nos manda um cheque: tenho-os a todos guardados numa caixa: tem uma letra tão bonita ele. no dia em que o ensinei a escrever miguel ele chorou zangado porque não conseguia fazer um g. devia ter 4 anos. sim, talvez 4 anos. a maria estava lá ao pé de nós e dizia: não chores miguelito, vais conseguir. foi sempre tão amiga dele a minha maria. ai que saudades que eu tenho dela. de a adormecer ao meu colo, de os abraçar aos dois de uma só vez. todas as noites quando me deito sinto saudades deles. ele também. eu sei que ele também sente. há uns dias encontrei-o a chorar: estava a dar aquela música muito antiga que ele lhes cantava. a dos aviões.
às vezes ainda nos abraçamos.
a chuva: parou.


esta noite sonhei: era velha. estava a chorar. ele estava à minha frente: perguntei-lhe:
porque é que eles não nos vêm ver?
acordei com saudades dos meus filhos.
e eles lá estavam: a maria: sentada com os joelhos em cima da cama, caracóis despenteados, mãos pequeninas. perguntou: já podemos beber leitinho com chocolate? o miguel, de chucha na boca, a sacudir as pernas para se destapar, a bater palmas. ele, de costas, a dormir. demos o primeiro beijo no chiado, numa noite quente de agosto.
levantei-me: estava a chover outra vez.



29 comentários:

  1. Se escrevesse um livro, eu comprava-o, e lia-o de fio a pavio :)

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  2. Tão bonito, menina. Sonhos que ajudam a dar (ainda) mais valor ao presente. Gosto muito desta lucidez.

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  3. Cada palavra que escreves é linda. Confundiu-me este texto inicialmente. Depois pensei "não está boa ela. Qué que lhe deu para pensar nisto?". Depois, no fim, achei que era "apenas" só mais um texto maravilhoso :D Aposto que nunca sentirás saudades dos teus filhos, eles não o permitirão

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  4. Fiquei com saudades dos filhos que ainda não tenho.

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  5. Baralhei-me no início, só no início.

    Gostei, muito.

    www.margaridaflordaminhavida.blogspot.pt

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  6. Devias escrever para os outros sempre. É um grande prazer ler-te.

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  7. Muito bom. Adorei ler. Um beijinho Vera.

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  8. Obrigada por nos lembrares o que é realmente importante. Continua a escrever, se faz favor! Um beijinho:)

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  9. Já não sei como vim aqui ter... Comecei a ler há pouco tempo, mas já fiquei.
    E este texto..., este texto.... lágrimas nos olhos, a aplaudir de pé. clap, clap, clap.

    Obrigada.

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  10. Tão bonito. Obrigada pela partilha e por me fazeres focar, uma vez mais, no meu presente.
    Um beijinho*

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  11. tambem vim ca parar e vou voltar

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  12. choro sempre. impressionante. choro sempre, sempre.

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  13. Aproveitar o presente sempre :) lindo texto

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  14. Só te descobri hoje, sem querer, porque decidi seguir um link, mas já devorei grande parte do blog, e já me escorreram várias lágrimas de posts diferentes! É sempre um prazer descobrir algo assim que nos surpreende e nos transmite sentimento... muito bonito este blog, vou seguir de perto, atenta ;-)

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  15. Lindo!!! Gosto tanto de ler o que escreve, faz-nos dar mais valor ao que temos.

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  16. Obrigada por este texto. Com ele envelheci também e regressei ainda com mais vontade de viver com os meus filhos um dia de cada vez.

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  17. Trouxe-me uma idade que ainda não tenho e deixou-me com lágrimas nos olhos. Perfeito de tão real!

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  18. Simplesmente maravilhoso!!

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  19. Não tenho palavras! Este continua a ser o cantinho mais verdadeiro que conheço... São palavras que nos puxam à realidade. Um dia eles serão do mundo e nós vamos sentir tantas saudades de os ter debaixo das nossas asas.

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  20. Que texto lindo. Fiquei com lágrimas nos olhos... Maravilhoso!

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  21. <3 Lindo! :) As minhas hormonas quase que me fazem chorar, mas tento controlá-las. :)
    Adoro os teus textos. Inspiram-me muito para apreciar o presente.

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  22. também eu, depois de ler isto (e de correrem uma lagrimitas..) fiquei com saudades da minha filha, que está aqui ao meu lado, a sorrir-me enquanto me faz bolinhos de plasticina... não quero que os anos passem assim... ela ontem disse-me que queria ficar comigo para sempre, eu disse que sim, para sempre, vai ser assim, não vai? ;) adoro tudo o que escreve, não me canso de o repetir.. <3

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  23. Eu tenho sempre saudades da minha mãe. Ela não mora longe, todos os dias falamos ao telefone e todos os dias ela liga para falar com o neto de 2 anos desde que ele nasce, todas as sextas a vejo e todas as sextas ela fica com o neto mas tenho sempre saudades dela. Eu e o meu marido não gostamos nada que ela não venha, pelo menos uma semana, passar férias connosco.

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