quarta-feira, 12 de março de 2014

a minha dor.

quando eu era pequenina chorava muitas vezes com dores. a dor era sempre na minha perna direita. a minha mãe levava-me para o hospital e eles diziam sempre o mesmo: eu estava a crescer. naquela altura eu sentia a dor a ceder com uma medicação que era forte demais e sentia-me feliz: eu ia ser muito alta. as minhas dores eram as mais fortes. maiores que as de todos os amigos com quem eu brincava. com o tempo eu percebi que não ia afinal ser assim: eu era a mais baixa de todos. um bocadinho mais de metro e meio e tantas dores.
descobri agora a razão: descobri porque chorei tantas vezes.
muitos conhecem esta parte da história: licenciei-me em jornalismo, fiz estágios não remunerados, vi o meu sonho de criança a fugir-me das mãos: não ia ser uma jornalista, fiquei deprimida, deitei-me na cama, não comi durante dias, chorei: estava a chorar quando pedi à minha mãe para dizer à minha avó que eu queria ir para ao pé dela. e no dia seguinte lá fui: pálida, com os ossos salientes a arrastar uma mala que pesava demasiado. fiquei lá muitos dias. a minha avó contou-me histórias de moçambique, fez-me sopa com carne e massa, recordámos o meu avô. naquela aldeia transmontana vi-me em cada canto: eu pequenina a brincar com os meus primos, a colher amoras, a dar cascas à burra: a minha infância. eu cheia de sonhos. foi ali que eu comecei a aceitar que talvez eu nunca viria a ser uma jornalista. mas a minha avó disse que eu podia ser feliz a ser outra coisa. e eu acreditei. quando voltei a lisboa comprei o jornal. abri nos classificados: um anúncio com fundo amarelo destacava-se dos outros. no dia seguinte eu era já uma empregada de mesa. durante muito tempo eu não disse aos meus colegas que tinha estudado jornalismo: só queria esquecer. decidi naquela altura que se eu ia ser empregada de mesa ia fazê-lo com toda a dedicação, empenho e energia. dei àquele restaurante o mesmo que daria se ele fosse meu. trabalhei muito e isso fazia-me sentir bem. ao fim de um ano comecei a ter dores na coluna. as dores nunca mais desapareceram.
no princípio associei ao esforço físico. fiz análises, exames. nada. fiz fisioterapia, acupunctura. nada. um dia fui a um médico, o melhor dos médicos diziam. ele disse que eu tinha fibromialgia. li tudo o que encontrei: nunca acreditei no diagnóstico do melhor dos médicos.
os anos passaram, uns dias melhores que outros. e a maria nasceu. depois o miguel. e depois tudo piorou. fui a um reumatologista: mais exames, mais análises. e descobri esta semana: depois de todos estes anos: eu nasci assim. tenho uma deficiência de nascença: fusão da sacroilíaca. 
nos últimos seis anos vivo com dores diárias. habituei-me a elas. às vezes até me esqueço que as pessoas que estão ao meu redor vivem sem dores. não gosto muito de falar delas. algumas pessoas nem acreditam que eu as sinto: vejo na cara delas. vejo no tom quando me perguntam: andas muito ansiosa? e depois apoio as mãos nas costas: as pessoas dizem sempre: a mim hoje também me dói. às vezes sorrio. a dor nas minhas costas vive comigo todos os dias. todos os dias quando eu acordo é difícil. a rigidez matinal está nos meus braços, no meu pescoço. dói quando o visto. quando penteio a maria. dói quando estico os lençóis. quando dobro uma toalha. quando descasco uma maçã. quando lavo os meus cabelos. quando lhes pego ao colo. quando fico muito tempo sentada. quando ando demais.
o médico disse que a minha dor é crónica: ela não vai desaparecer. fevereiro não foi um bom mês: as minhas articulações também começaram a doer: os meus joelhos, os meus punhos, os meus tornozelos, os meus cotovelos, os meus dedos. escrever isto faz os meus dedos doer. o meu pescoço está sempre rijo. a minha coluna: parece que se vai partir ao meio. a minha cabeça.
eu perguntei ao médico o que devia fazer. ele sugeriu praticar desporto. receitou-me analgésicos: dois de 8 em 8 horas. trouxe muitas receitas. perguntei-lhe se não os deveria tomar se a dor não estivesse muito forte: se fosse suportável. tem de aprender a viver sem dor. ele disse que eu não preciso ter dores. ele disse agora vamos ensiná-la a viver sem dores. eu adoro a minha vida: os meus filhos, ele, isto de estar a aprender a ser mãe, isto de querer ser melhor por eles, de encontrar a felicidade nas pequenas coisas, nos sorrisos deles. eu tenho bons dias. a dor está sempre lá, mas eu tenho bons dias. é difícil imaginar que eles podem melhorar. que eu posso um dia sentir-me livre disto. eu que já não me lembro como é viver sem ela.
sem esta dor estúpida.

15 comentários:

  1. Impressionante. Nunca tinha conhecido ninguém com as mesmas dores que eu.
    Sempre tive dores de pernas. Dores fortes que não consigo explicar se são musculares, ossos, o que é, mas dói e muito. Quando era pequena eram dores de crescimento. Os anos passaram e as dores mantém-se. Hoje tenho 22 anos e contínuo a ter estas "dores de crescimento" nas pernas. Presumo que com esta idade já não esteja a crescer, mas os médicos também não me sabem dizer o que é.
    Nunca senti essas dores de costas, mas as de pernas continuam. E quando aparecem, tenho que parar tudo o que estou a fazer porque são mesmo insuportáveis.

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    1. Boa noite se poder me ajudar tenho muitas dores preciso falar com alguém como eu o meu email é sanndy00@hotmail.com são zeros no mail Obrigada aguardo

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  2. Então toca lá a aprender a viver sem dores. :)

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  3. Um abraço grande...que não provoque dores... e pense positivo, o estudo da dor está a avançar e pode haver cada vez mais melhoria das condições de vida de quem sofre de dores crónicas (silenciosas mas permanentes). E quando passarem as dores vai ser um espectáculo! Boa sorte e tudo de bom...e a melhorar. Um beijinho de quem a lê.

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  4. tb sei o que é viver com a dor... no meu caso desde os meus 12 anos por ai, com um escoliose, uma coluna torta como uma estrada na serra... enfim... mas recuso-me a passar a vida medicada. Há dias piores que outros...

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  5. Eu chamo a essas dores ''fibromialgia'' será....?

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  6. Olá, Menina,

    também vivo com dor, devido a endometriose
    revi-me em muitas palavras do teu texto

    não acredito que as coisas nos aconteçam com determinado propósito, que façam parte de um plano qualquer do Universo, porém penso que o melhor para esta passagem é tentarmos fazer ads coisas que nos acontecem aprendizagens para sermos mais felizes
    viver com endometriose trouxe-me também a desilusão da incompreensão de terceiros a quem também "dói o dedo" mas também em ensinou a estar melhor e mais empaticamente com os outros
    tenho revisto as minahs relações, nem por isso creio o corte delas como a solução, passei a "nivelar" as coisas; há pessoas que servem para um fino e há outras que servem para um fino e confidências
    afunilar as relações no sentido de cortar relações pode deixar-nos ainda mais sós, e não está escrito em lado algum que todas as pessoas com quem rimos têm de ocupar as primeiras fileiras do nosso coração

    desejo-te muita sorte nesta nova vida sem dor, o teu médico parece ser um Médico com M grande
    é desses também que precisamos na endometriose, em tudo
    não faz mal ter uma dorzita de vez em quando? certo. mas faz muito mal viver com dor como se seja algo normal e sim, por vezes até pensamos que anda aí tudo a transportar dores físicas e não é verdade e temos o direito inalienável a recorrer às medicinas para vivermos sem dor, mais completas e disponíveis para os que amamos

    o que mais me transtorna é esta sensação de parecer uma pessoa instável aos outros, pois uns dias ando muito sorridente e outros sorumbática, mas não é porque ande chateada... é porque estou com dores e fica difícil exibir um rosto com uma expressão leve

    uma vez mais, boa sorte, Menina
    fico a torcer para ler um post um dias destes sobre a boa surpresa de viver sem dores

    Um abraço,
    Cipreste

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  7. rapariga, és forte e vais conseguir suportar.Os nossos filhos ajudam, basta olhar para eles.
    Nos dias piores, agarra-te a essa sensação única que só nós mães conhecemos.
    Tenho um lema de vida "o sonho comanda a vida", vive com eles, mesmo que não se concretizem, ao menos alimentam-nos a alma.

    não te conheço mas envio-te o meu abraço apertado cheio de força.

    Paula

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  8. Uma escoliose grave, um joelho remendado, enxaquecas que duram duas semanas, etc. Mas são dores com as quais me habituei a viver. Fazem parte da minha história. Há comprimidos para as parar e fazer-nos sorrir de novo sem dor? Então, bora lá, vencer as coisas que nos deitam abaixo. Com ânimo e garra. Por nós e por quem gosta de nós.

    Uma vez mais obrigada pela partilha honesta das tuas emoções.

    Um abraço,
    Rute

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  9. Olá,
    sigo o teu blog à muito e hoje decidi comentar :)

    Tenho visto alguns estudos ligam algumas doenças auto-imunes e alguns sintomas de outra forma inexplicaveis à intolerância ao gluten.

    http://eatlocalgrown.com/article/11266-wheat-gluten-the-culprit-for-so-many-ills.html

    Há bastante informação sobre este assunto, especialmente em inglês, pode ser que ajude :)

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  10. Não vale a pena viver com dores físicas se há solução para elas.
    Não vale a pena desistir de um sonho.
    Como dizia o Walt Disney: "If you can dream it, you can do it".

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  11. Nem imagino o que será viver diariamente com dores... mas se há uma forma de as atenuar, (mesmo que seja com medicação) força!! Imagina o que será poderes fazer todas as coisas que já fazes com os teus filhos, sem teres a presença constante de algo que não te deixa bem! Se já agora sorris com eles com essa tortura constante, imagina sem essas dores!
    Espero sinceramente que tudo se resolva pelo melhor!
    Beijinhos

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  12. Menina,
    leio-te com emoção e encantamento a cada dia, de forma silenciosa. Mas, como parceira nesta aventura de viver com dores crónicas e permanentes, conheço as descrições. conheço a descrença de muitos dos que nos rodeiam. conheço o não querer falar muito sobre as dores. as minhas dores não são o que me definem. mas são algo que me condiciona a cada dia ... viver com a dor por companheira diária é um grande desafio. acredito que consegues. acredito que eu vou aprendendo a conseguir.
    Com ou sem medicação espero que a cada dia os sorrisos superem os esgares de dor que negamos.
    Beijos de uma fibromiálgica com outros pozinhos potenciadores de dor crónica,
    S

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  13. Olá, tenho o mesmo problema. As dores não são tantas como as que descreves, nem há tanto tempo. Agravaram-se com o nascimento dos filhos e vão aumentando ao longo dos anos. Tento mexer-me...o que realmente me faz sentir bem é a hidroginastica. e de manhã água o mais quente que consigo para começar o dia melhor. Um Beijinho e desejo-vos muitas felicidades :)

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  14. Tenho dores crónicas fico assustada de pensar que são todos os dias e que todos os dias tenho que tomar algo para as dores .

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