quarta-feira, 12 de fevereiro de 2014

o convite.

recebi um convite: para escrever um texto sobre os nossos dias, sobre a rotina, sobre a nossa vida. o convite é de uma mãe como eu, que escreve num blogue. ela enviou-me exemplos de outras mães: dias normais de mães como eu, que vivem para os filhos. no final do convite ela escreveu: envie com o texto uma foto sua sozinha ou com as crianças. 
no dia em que eu recebi este convite fiquei triste. neste dia: quando li o que ela escreveu. eu percebi naquele momento. eu não tinha nenhuma fotografia: eu e os meus dois filhos. um de cada lado: a sorrir para a lente: só eu e eles. fiquei triste porque percebi como isto me mudou, isto de ser mãe. tiro muitas fotografias aos meus filhos: todos os dias. no banho, a dormir, na rua, sentados, a brincar, com o pai, a cara deles. e ele diz: agora tu. e eu digo que não: agora não. e em cada fotografia que eu não apareço eu vejo uma desculpa. eles na praia: e eu demasiado magra e os meus ossos a verem-se e o meu biquíni muito largo. eles no parque: e eu com uma t-shirt dele suja de iogurte e o cabelo sujo e apanhado de qualquer maneira porque caiu todo depois da gravidez e agora cresce e fica todo espetado. nos anos dela: e eu que não quero sorrir porque amamentei durante 29 meses e os meus dentes ficaram fracos e aquele bem lá atrás caíu e se eu estou feliz e sorrio vê-se um buraco. nos anos dele: cabelos brancos. na neve da noruega: roupas velhas. no nosso sofá: feia. desculpas. um dia eles vão ver as fotografias: eu nunca estive lá. não me vão ver com eles na praia. nem no parque. eu não tenho uma fotografia com ela no dia em que ela fez 2 anos. não tenho uma com ele no dia em que ele fez 1: eu não tenho uma fotografia com o meu filho ao meu colo no dia do seu primeiro aniversário.
eu não fui sempre assim. tenho muitas fotografias de quando estava grávida da maria. algumas dos primeiros meses: a dormir com ela, a dar-lhe banho, ela a sorrir comigo para uma lente. tenho poucas dos meses em que esperei pelo miguel. tenho ainda menos deste primeiro ano com ele. são cada vez mais eles, cada vez menos eu. nas fotografias e na vida. 
mas um dia eu vou querer ver: eu que era tão nova a segurar a mão do miguel enquanto andavamos pela praia. eu que tinha um sorriso tão bonito ao lado da maria no dia em que fez 3 anos. eu que usava o que se vestia na altura a levar o miguel pela primeira vez à creche. eu que era tão gira e magrinha a comer um gelado com a maria. eu com os meus dois filhos que agora já estão crescidos: sentados, um de cada lado, a olhar para a lente.
um dia eu vou ser velha: as memórias vão ser a minha companhia, vão trazer-me sorrisos. um dia eu vou querer lembrar-me. eu vou dizer as coisas que a minha mãe diz quando vê fotografias da minha infância: coisas que ela diz a sorrir.
preciso de parar de arranjar desculpas. mudar o que está errado: soltar o cabelo, comprar uma camisola para usar no meu aniversário, comer se quero engordar, sorrir sem ter vergonha, cuidar de mim, aceitar: aceitar-me. 
no dia em que recebi um convite procurei durante horas por uma fotografia: eu e eles. descobri 3: uma na maternidade, uma no jardim zoológico, uma no sofá. este ano: hoje, hoje é isto que eu quero: quero parar de me achar feia, quero uma fotografia com um de cada lado. quero estar a sorrir. 
quero fazer parte das nossas vidas.
por isso obrigada: pelo convite.
eu aceito.




 
 



17 comentários:

  1. Querida mãe Menina,

    "conheci-te" através da JAD [Jardim de Algodão Doce] e, como seria de esperar o click contigo e com a tua maneira de viver os dias e os transpores para a escrita prenderam-me.
    apaixonei-me! ...
    identifiquei-me. não me identifiquei e quis ser (mais) como tu...
    Gostei tanto que vou ficar e quero que saibas: és muito bonita menina. Não fiques pelas 3 fotografias a 3... eu nem sei se tenho 3 fotografias a três. mas este teu texto pôs-me a pensar. tenho de afastar os meus defeitos auto-impostos da objectiva da câmara fotográfica, porque sou eu que me auto-excluo. quase não temos fotos a 5. e eu quase não apareço em fotos deles. com eles. por vergonha... eu e eles merecemos mais.
    Obrigada pela chamada à razão.
    Beijo doce
    mãeee S.

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  2. Tem toda a razão! Apoiada!

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  3. Aos poucos recuperas a tua vida enquanto mulher. Eu demorei uns meses a recuperar a minha, mas o facto de trabalhar fora de casa ajudou a sentir-me mais eu.
    Agora estou de esperanças outra vez e já sei o que aí vem...

    É uma delicia ver os teus filhos a viver um amor de irmãos tão lindo. Espero, também, ter os meus a dormir agarradinhos, a tomar banho juntos, a serem irmãos. Vão ter uns 28 meses de diferença.

    Vou querer ler os teus textos, pois o blog é apaixonante. Tens o dom da escrita e é muito bom que seja reconhecido.

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  4. Texto maravilhoso! :) Faz muito bem em elevar a auto-estima e, pelas fotografias, parece-me tão bonita!

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  5. Este podia ser um post escrito por mim... vamos mudar isto, e feias, despenteadas ou mal vestidas, temos de ter fotografias com eles, porque um dia também irão gostar de ver-nos sem ser por detrás da máquina fotogtafica.

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  6. Mas tu não és nada feia, muito pelo contrário. Tudo o que descreves que te faz sentir pior tem a grande explicação ÉS MÂE...contudo deves parar de arranjar desculpas, sim deves cuidar ao máximo de ti e tirar muitas, muitas fotos porque infelizmente nem tudo fica registado na nossa memória. Um beijo e quero/gostava de ver fotos vossas

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  7. Você é linda, nunca se esqueça disso! está a passar uma fase menos simpática, estamos tod@s, mas continua linda...

    Beijos da cidade das acácias,

    Ruiva

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  8. És uma mãe tão bonita que eu acho que deves mesmo tirar mais e mais e mais fotos. As fotos que aqui colocaste estás mesmo bonita querida, acredita em ti.

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  9. Olá! Encontrei o blogue hoje e comecei a seguir porque gostei muito do que li... e queria dizer que não há motivos para se sentir feia ou arranjar desculpa, adorei a última foto!

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  10. Acho que faz muito bem.
    Ser mãe é maravilhoso, mas ser mulher tb. é.
    Conheci o seu blog há uns dias, e tenho adorado o que escreve.
    Beijinho
    Patrícia

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  11. Nunca é tarde para mudarmos o que achamos que ainda não está como queremos :)
    A última foto está um doce :)

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  12. idem, só com uma diferença: em vez de magreza, escondo os quilitos a mais...

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  13. És linda, isso sim :)
    Um grande, grande beijinho <3

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  14. As fotografias são (d)as melhores recordações que podemos ter! Ainda vais a tempo ;)
    Bjs

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  15. (... Nem vale a pena comentar que eu fico sempre aqui de lágrima no olho.)

    Mas ainda bem que se deu este click. Ainda bem que te apercebeste disto e que tens agora a vontade de mudar, de investires também em ti, de estares também presente (claro que eles sabem que estás presente... mas por que não estar presente de vez em quando do outro lado da lente? :)), de fazeres parte destas fotografias tão bonitas que vocês têm e que certamente vão gostar tanto de ver daqui a uns anos... :) Eles também vão adorar ver-te! Um grande beijinho!

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  16. Descobri há pouco o teu blogue e estou a gostar tanto, tanto. Nós também fomos para fora e regressámos. Identifico-me muito com este post, em particular (eu, e muitas outras mães, certamente), também tenho de arranjar maneira de aparecer em mais fotografias e não ficar apagar as que tenho, com as desculpas do costume.

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  17. És linda, como mãe, enquanto mulher!!!
    Emocionas-me muitas vezes e tens o dom de colocares no papel coisas que poderia ter sido eu a escrever! Fazes-me rir das minhas próprias frustrações e (re)lembras-me a cada post o que é amar um filho. Podes ter poucas fotos com os teus filhos, mas estás sempre presente, do outro lado da camera, a velar por eles. E, permite-me que te diga, as três que tens são simplesmente lindas!! Demonstrativos perfeitos desse sentimento maior que nos dilata o coração!!

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