sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

o dia em que ele não voltou para trás.

eram 4 da manhã.
na nossa cama: à minha esquerda o miguel. a maria à direita. ele.
o miguel, inquieto, começou a chorar. abri os olhos: ele vomitava. estava pálido. nos últimos dias a febre tinha voltado. mais alta, mais vezes. levantei-me e acendi a luz. a maria abriu os olhos com dificuldade e ajoelhou-se na cama. disse-lhe: está tudo bem, o mano tem um dói-dói. o miguel: quieto. deitado. ele em pé perguntou-me o que eu queria fazer. não sabia. olhámos para eles: a maria passava-lhe as mãos pela cabeça: vai passar miguelito, dizia. ela tem sido mais teimosa: continua doce. sorrimos timidamente um para o outro: aquela imagem. a ternura dela. a calma. os dois na nossa cama.
peguei no miguel. outra vez: a minha roupa vomitada. ele, pálido, fechava os olhos. gemia. disse: vou com ele ao hospital. juntei fraldas, roupa e papéis num saco. o miguel ao colo dele. beijei a maria. disse que voltava depressa. tirei o miguel dos braços do pai e saí. ele ficou à porta em silêncio.
faltavam 13 horas para se ir embora.
no hospital fizemos exames. análises. ouvimos a chuva. esperámos horas. nas horas que esperámos ainda não sabíamos se ele tinha de lá ficar: vamos esperar para ver como reage, disse ela. continuava a chover quando ele adormeceu tranquilo. continuava a chover quando lhe liguei e disse que íamos para casa. o dia já estava a nascer: deitei o miguel na nossa cama já vazia. na minha cabeça tinha todas as recomendações e nomes de medicamentos. tinha as palavras quadro inicial de pneumonia. tinha o medo de ficar sozinha.
as horas passaram depressa. ele brincou com ela. ele chorou muitas vezes a vê-la brincar. ele abraçou o miguel e fez-lhe cócegas. fê-lo sorrir e soltar gargalhadas. e depois estava na hora. quando a hora chegou o miguel dormia: ele beijou-o na testa. ele explicou à maria que ía buscar tudo o que lá deixámos: roupas, brinquedos. ele não lhe disse que tinha de trabalhar mais um mês: ele disse que voltava depressa. ela ouviu, sorria. tinha um sorriso triste, como se sorrisse para o confortar. ela abraçou-o muitas vezes. ele olhou para mim com o rosto cheio de lágrimas: não quero ir. coloquei as minhas mãos na cara dele: então não vás. são só coisas. disse-lhe que tinhamos trazido tudo o que era importante. que estávamos juntos. disse-lhe para não ir. eu queria que ele ficasse por ele: ele queria ir por nós. pela segurança que um mês de trabalho lá nos vai trazer.
pegou na mala vazia e saíu. a maria disse-lhe adeus da janela.
quando a hora do vôo chegou a maria e o miguel dormiam de mãos dadas atrás de mim: eu estava à janela à espera dele. estava à espera que ele não tivesse ido. que tivesse ficado. ele não voltou.
quando eles acordaram erámos outra vez os três.
de todas as decisões que tomámos nestes últimos meses esta é a de que mais me arrependo: esta de acharmos que um mês não ía ser difícil. mas é. é difícil porque são dias perdidos por um sonho que já falhou. é difícil sentir que estamos a perder tempo. é difícil quando ela pergunta por ele. quando pergunta se ele já não vem. quando pergunta se ele se zangou com ela. quando vi que estava a chorar em silêncio enquanto adormecíamos. quando lhe perguntei a razão: porque a menina estrela-do-mar já não tem papás e a maía também não tem papá. é difícil. quando eles choram de madrugada e eu não sei porquê. quando fico insegura. quando ela começou a gritar que doía e eu corri para o hospital: laringite. otite. quando eu me sinto pequenina e incapaz. quando tenho medo e estou cansada. quando penso que ele está lá: naquela casa onde um dia estivemos todos. quando percebo na voz dele que está a chorar. ele lá: o silêncio que lá existe. e eu aqui: canto o balão do joão. danço as músicas dos caricas. mudo lençóis vomitados. as minhas costas que doem. dou-lhes antibióticos e xarope de cenoura. lavo a louça de madrugada. levo-os ao parque e a ver os pombos. como bolinhos de plástico e bebo chá a fingir. dou-lhes salsichas porque é mais rápido. banhos. construo castelos com legos. leio o livro da anita vezes sem conta. canto para adormecerem. e quando já não consigo mais e perco a paciência e digo parem quietos e choro e ela me pergunta se estou triste eu digo-lhe que sim. e ela diz-me sempre o que eu lhe digo a ela: não faz mal estar triste.
e no final do dia eu ainda tenho sempre: à minha esquerda o miguel. a maria à direita.

 

14 comentários:

  1. Dou por mim a torcer para que este mês passe depressa.
    Dou por mim de lágrimas nos olhos quando leio as vossas histórias e torço para que estes dias passem a voar e para que nem o Miguel nem a Maria fiquem doentes, pelo menos nos próximos 30 dias.
    Dou por mim a pensar que não tarda já estão outra vez juntos e a recordar este Janeiro sem sentirem o quanto doeu.
    Não faz mal estar triste. Vai passar.
    Não posso fazer grande coisa para animar. Fica aqui um abracinho virtual muito grande para os 4.

    ResponderEliminar
  2. Já tentei comentar no outro post e não consegui...Ora cá vai novamente.
    O que interessa é que estejam felizes , ou a caminho de estarem felizes.

    Mas deixe-me dizer que as crianças aceitam como natural aquilo que lhes é aprsentado como natural.
    Ou seja, se a Mãe estivesse mais serena...também a Maria estaria mais serena (isso de já não ter pai deve ter sido muito doloroso)
    Tenha coragem, a meta está à vista. Está a ser uma fase dura, mas o fim está à vista. Mantenha-se corajosa pelos seus filhos! Vai correr bem, continue a ser valente!!!

    ResponderEliminar
  3. «é difícil porque são dias perdidos por um sonho que já falhou» ?!?
    Não concordo. O sonho não falhou: foi substituído por outro, decidido com o coração.
    Força! O novo sonho está quase a começar: a passagem de um para outro são estes dias dolorosos.
    «Se consegues sonhar, consegues fazê-lo.» Walt Disney

    ResponderEliminar
  4. Gosto tanto de te ler. Torço por vocês.

    sara

    ResponderEliminar
  5. Este mês vai passar, tudo passa e as feridas vão sarar. Já falta pouco. Que é muito, mas vai acabar. É o que interessa. Que o regresso dele te traga um início (adiado) de um ano muito feliz. Adoro ler-te e torço para que tudo corra bem. Um beijinho

    ResponderEliminar
  6. Leio isto e penso: faltam 4 dias para ir embora. E só queria que alguém me dissesse, então não vás.

    ResponderEliminar
  7. Ele vai voltar. Para a vossa nova vida, aquela em que têm tudo o que precisam: um ao outro, a Maria e o Miguel.

    Torço por vocês.

    ResponderEliminar
  8. Sinto tanto as tuas palavras que dou quase sempre por mim a chorar. Espero que daqui para a frente as coisas melhorem para voltarmos a sorrir.
    Muitos beijinhos e as melhoras para o Miguel

    ResponderEliminar
  9. As coisas importantes estão cá, e por isso não é um sonho perdido, pelo contrário, são vocês a abdicar de uma ideia para serem felizes.bj

    ResponderEliminar
  10. Vou torcer para que passe o mais rápido possível. A sorte vai sorrir-vos, tenho a CERTEZA. Força super mãe :) És muito, muito grande

    ResponderEliminar
  11. Este mês vai passar muito depressa, acredita.
    Vocês merecem

    ResponderEliminar
  12. dou por mim a ler isto com lágrimas nos olhos.
    Força, muita força. um mês vai passar num instante e depois vão ter uma vida a frente.
    Beijinhos de coragem*

    ResponderEliminar
  13. calma, tudo isto vai passar ... calma ...

    ResponderEliminar