terça-feira, 7 de janeiro de 2014

a decisão.

no dia 23 de dezembro de 2013 acordámos perto das 10 da manhã. ainda não tinha amanhecido quando eu disse à maria que era nesse dia que iamos no avião. disse-o antes de ela perguntar. não me lembro de muito daquele dia. não me lembro se estava frio, se chovia ou nevava. lembro-me que estávamos todos só à espera da hora de sair para o aeroporto. desfiz as camas, fechei as malas, dei-lhes douradinhos. saímos já estava a anoitecer. oslo: o silêncio. sempre o silêncio. caminhámos. andámos de autocarro. comboio. foi um longo dia: o mais longo. as malas, eles. o meu corpo, as minhas costas doíam. quando chegámos a maria e o miguel portaram-se como duas crianças que não estavam num aeroporto cheio, a enfrentar filas longas, a transpirar de calor. lembro-me de o dizer: estão-se a portar tão bem. nós fomos adultos num aeroporto cheio, com filas longas e a transpirar de calor: perdemos a paciência com quem queria sentar a maria longe de nós. perdemos a paciência com os carrinhos que não abriam e não fechavam. perdemos a paciência porque queríamos sair dali depressa. o avião: eles choraram quando descolou, choraram quando aterrou. pelo meio a maria colou autocolantes em revistas, pintou elefantes de azul, comeu bolachas de água e sal com manteiga. o miguel dormiu nos meus braços.
quando chegámos a lisboa, quando saímos daquele avião, senti-o: chovia: aquele cheiro. estava em casa. a pequena maria adormeceu enquanto esperávamos pelas nossas malas. ela não viu os abraços e os beijos, os tios e os avós, ela não viu as lágrimas e os sorrisos. ela só acordou na manhã seguinte na nossa cama: a cama dela. no rosto dela vi muitas coisas. perguntei-lhe se sabia onde estava. ela sabia: tinha um sorriso quando desceu da cama. peguei-lhe na mão e levei-a até à sala: uma árvore de natal. uma árvore de natal que o meu pai fez antes de nos ir buscar ao aeroporto. uma árvore alta e magrinha feita com restos de decoração que não combinavam. com luzes coloridas que piscavam depressa. quando a maria viu aquela árvore de natal achou-a a mais bonita de todas: era a dela. naquele momento ela olhou para mim e disse como quem explica: vês mamã, aqui é mais melhor.
era véspera de natal.
 
 
(continua)

6 comentários:

  1. ... Torno-me repetitiva, eu sei. Mas fico sempre com uma lágrima nos olhos. E com um arrepio no corpo. Porque escreves tão bem, descreves tão bem, que eu sinto-me na vossa história... :) Aguardo ansiosamente pela continuação.

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  2. Não contive a lágrima, que me encheu os olhos. Desejo que encontrem a felicidade aqui ou lá.

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  3. Nao deve ser nada fácil....não por nós mas por eles. Seja qual for a decisão o que importa é tentar, pelo menos tiram a dúvida da cabeça. Um beijinho

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  4. Fiquei curiosa com o título. A decisão. Que sejam felizes

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  5. Cairam-me as lágrimas com o "aqui é mais melhor"

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