quarta-feira, 30 de outubro de 2013

as crianças que eu vejo.

está frio: 2 graus.
o parque está cheio. as crianças brincam: no escorrega, nos baloiços, na areia húmida. enchem baldes com pás e fazem castelos. o parque está cheio: quando está sol. frio. quando chove. no dia em que nevou e havia gelo. o tempo pouco importa. os pais são descontraídos: deixam-nos explorar. andar à chuva. cair. aprender sozinhos. nunca vi um grito. uma palmada. uma repreensão. descontraídos: bebem cafés.
as crianças vestem fatos quentes e coloridos. vejo meninos que ainda estão a aprender a andar em cima de pequenas trotinetes: correm as ruas sem capacete. quando os mais pequeninos caem demoram para se levantar: parecem pequenas tartarugas. no parque não há meninas pequeninas de colares, nem laços grandes no cabelo. usam cachecóis, luvas, gorros. nunca vi uma menina de vestido. no parque usam fatos que se limpam com um pano. fatos que chegam a casa cheios de lama: fatos para sujar. quando estou sentada a ver os meninos brincar vejo: crianças a serem crianças. as meninas não parecem senhoras pequeninas. os meninos saltam em cima de montes de folhas amarelas. secas. vejo meninos com mais roupa, com menos liberdade para correr, saltar: e parecem mais soltos. serenos. felizes. não sei: não sei porque é que aqui as crianças parecem mais felizes.
mas vejo.
talvez seja o que os rodeia.
pais que não estão desempregados. pais que têm tempo.
pais que estão felizes. tranquilos. que os rodeiam de serenidade.
professores que podem ensinar. que não estão longe de casa. que brincam na rua. que os rodeiam de serenidade.
talvez sejam só os meus olhos.
mas aqui vejo: crianças mais sujas e mais felizes







terça-feira, 29 de outubro de 2013

os dias e a escola.

os dias em oslo passam depressa.
a noite chega cedo.
na minha cabeça passou já muito tempo desde que chegámos. parei de contar os dias.
em casa a maria está a voltar a ser a menina bem disposta e alegre que era. ela canta, dança, grita. ela imita as pessoas que falam numa língua que ela não conhece. ela depois diz: fala putuguês pá. e ri-se. as gargalhadas que dá quando estamos em casa fazem-me esquecer que já passaram muitos dias desde que ela não brinca com outros meninos. parei de contar os dias.
temos tentado que ela ganhe a confiança que precisa: temos ido a uma creche aberta. numa creche aberta os meninos que não vão à creche encontram-se para brincar. os pais ficam. observam. cantam e brincam com eles. nestas creches abertas não há meninos da idade da maria. há muitos meninos da idade do miguel. mesmo assim ela gosta de ir lá. pede para voltar. quando lá estamos ela é calma e tímida. brinca sozinha. às vezes vejo um sorriso disfarçado. quando estamos em casa ela fala de todas as coisas que fez e que viu. fala com alegria. diz: a maria foi à escola. 
os dias em oslo passam depressa.
mas a vida é vagarosa.
tudo é calmo e silencioso. quando eles correm e gritam pela casa: tudo é calmo e silencioso.
cada dia parece uma conquista. preciso de parar de os contar.
41.


da nossa janela: 16h20.


1 ano.

o meu rapazinho fez um ano.
é difícil de acreditar que já tenha passado um ano. 
o segundo filho: não tive tanto tempo para apreciar cada movimento. para observá-lo quando dormia. não tive tanto tempo como gostaria. acho que essa é uma das diferenças: uma das razões porque o primeiro ano da maria me pareceu um ano. uma das razões porque o primeiro ano do miguel me pareceu pouco. rápido.
o miguel: chamo-o miguelito. migas. a maioria das vezes chamo-o rapazinho. ele é o meu rapazinho.
quando as pessoas o conhecem dizem o mesmo: que bebé simpático. foi sempre assim: sorridente, bem-disposto. tranquilo. desenrascado. doce. ele é o bebé mais fácil de se adormecer: deito-o. digo dorme. passo-lhe a mão na cabeça: ele dorme. o meu rapazinho dorme comigo desde o dia em que nasceu. às vezes abraçado a mim. às vezes abraçado à maria. ele é apaixonado pela maria. ele gosta de dançar. ele gosta balões. ele gosta de água. a primeira palavra: água. 



o meu rapazinho fez um ano. foi uma festa diferente. simples. cheia de balões e carinho. ele teve um bom dia. houve momentos naquele dia em que me senti triste por ele: por estar longe de mais abraços, de mais amor. depois olhava para ele e percebia: ele estava feliz. como sempre. como todos os dias.




 
parabéns rapazinho
parabéns miguel.





segunda-feira, 14 de outubro de 2013

sorrisos e salsichas.

estávamos só as duas: sentadas ao balcão a partilhar um cachorro e batatas. ela estava feliz. eu também.








sexta-feira, 11 de outubro de 2013

quarta-feira, 9 de outubro de 2013

terça-feira, 8 de outubro de 2013

eu, ela e oslo.

estamos todos bem.

já passaram 20 dias desde que chegámos. o tempo em oslo passa depressa. sinto que cheguei ontem. estas semanas têm sido de adaptação. sinto-me mais calma a cada dia, mas sempre que deito a cabeça na almofada ainda me pergunto se fizemos bem. se é isto que nos vai fazer mais felizes.
para mim está a ser mais difícil do que imaginava: é um mundo novo. nunca fui uma pessoa de espírito aventureiro. gosto de me sentir em casa. segura. talvez se este país me fosse mais familiar: a comida, a língua, o dinheiro, o frio. é difícil andar pelas ruas e saber que estamos longe. que não pertencemos aqui. talvez um dia.

na madrugada em que a maria e o miguel foram para as urgências pensei-o pela primeira vez: eles enrolados em mantas a chorar: pensei: quem me dera estar em casa.

a primeira semana foi a mais difícil para a maria. às vezes durante o dia ela desaparecia: encontrei-a sempre no mesmo canto. sentada. pensativa. às vezes falava com ela, chamava-a para brincar. às vezes deixava-a ficar. não faz mal ficar triste.
na primeira semana chorava sem dizer porquê. quando lhe dei os parabéns porque comeu tudo perguntou-me se podia ir brincar com a inês. de manhã quando saímos de casa perguntou-me se podiamos ir ao outro parque. pedia-me bongos, cerelac. perguntou-me se já não tinha triciclo. perguntou-me se podia fazer desenhos com a tia. a primeira semana foi a mais difícil para a maria.

na noite em que ela viu uma fotografia do quarto dela disse-o pela primeira vez: perguntou: já podemos ir para casa?

passaram 20 dias. agora ela já não diz que esta é a casa do pai: é a casa da maria. no parque já não se isola tanto. às vezes imita os meninos a falar e ri-se. corre com os meninos mas ainda não tenta falar com eles. pede muitas vezes para brincar com o mano. apanha folhas e pedras. no parque os meus filhos são os únicos que ficam felizes quando aparece um pombo: lembra-lhes.

eu sei que este é um país onde as crianças crescem mais soltas. felizes. eu sei que o tempo nos vai ajudar a ser assim. mais soltas, mais felizes. eu e ela.

um dia.