quinta-feira, 7 de novembro de 2013

o menino da cara vermelha.

na véspera.

40 graus.
ela estava sentada ao meu colo. despida: tinha o corpo quente e vermelho.
as lágrimas escorriam-lhe pelas bochechas rosadas. o gelado que a enfermeira lhe deu escorria-lhe pela mão. tinha chorado muito. soluçava. comia gelado. soluçava. quando acabou encostou-se a mim: o corpo quente e vermelho. gemia. contei-lhe uma história. havia um papagaio em forma de borboleta que voava bem alto no céu. estávamos fechadas naquela sala desde que entrámos no hospital: era pequena e escura.
o médico entrou. desculpei-me por não falar norueguês: outra vez. estava tudo normal. todos os exames. todas as análises. era talvez só mais uma doença que os miúdos têm: para voltar com mais sintomas. fomos para casa. ela ao meu colo enrolada numa manta. soluçava.

no dia seguinte voltámos. sentadas na sala de espera: cheia. havia gente crescida de olhos fechados. havia um menino que vomitava para um saco. uma senhora grávida que chorava muito. um menino com um penso que lhe cobria o olho. um menino que achei já ter visto antes com a cara vermelha da febre. naquela sala de espera não se ouvia uma palavra. no silêncio ouviam-se todas as doenças.
a maria chorou o caminho todo até ao hospital. continuava a chorar na sala de espera: estava assustada. tinha medo de passar por tudo outra vez. sentada ao meu colo mexia numa garrafa de água vazia.
um médico entrou. disse uma palavra e todas as pessoas se viraram. olhavam para ele à espera. percebi que ele ia dizer alguma coisa. percebi que não iria entender uma palavra. outra vez. estava cansada e desanimada. o menino da cara vermelha da febre sorria para a maria. o médico começou a falar: depressa. gesticulava.
com a cara cheia de lágrimas ela perguntou: o que está dizer mamã. sorri. mudei a voz e disse depressa: meninos e meninas hoje vamos fazer um jogo. quem ganhar come uma salsicha no fim. estas são as regras do jogo: só podem chorar duas vezes. se chorarem mais perdem pontos. se tirarem macacos do nariz perdem pontos. a maria é a mais corajosa já tem muitos pontos. está a ganhar o jogo e já ganhou um gelado. o menino que tem o olho tapado está em segundo lugar. tu aí estás a tirar um macaquinho perdeste um ponto. já não ganhas salsicha.
a maria olhava para mim e para o médico: sorria espantada. algumas pessoas ao meu lado sorriam também: perceberam que tudo o que eu estava a dizer era para a fazer sorrir. não compreendi uma palavra.
quando ele parou de falar e saíu da sala não havia mais lágrimas na cara da maria. perguntou: não podo tirar macacos? sorriu. levantou-se: de pijama e pantufas foi em direcção ao menino que sorria para ela. entregou-lhe a garrafa de água vazia. ele agarrou-a. juntos foram deitar a garrafa no lixo. ele corria e ria-se. ela corria atrás dele. ria-se quando ele se ria. fiquei a observá-los e a pensar que não podia desanimar por não compreender o que as pessoas diziam. naquele momento estava feliz por ela ter parado de chorar: por ter sido capaz de superar o meu desânimo e fazê-la sorrir. depois olhei outra vez para o menino da cara vermelha da febre que brincava com ela: achava que já o tinha visto antes. depois vi: a cara dele. era igual. lembrava-me o giosuè. o menino d'a vida é bela. o menino despertou a minha memória para transformar aquele momento: torná-lo num jogo.
é assim que a mente humana funciona. e é assim como o pai guido que eu quero levar mais este início de vida: com mais humor. preocupar-me menos. desculpar-me menos. transformar as dificuldades num jogo que os faça sorrir. a eles e a mim.
e quando chegámos a casa dei-lhe uma salsicha.



5 comentários:

  1. Tu és um exemplo... uma lufada de ar fresco para quem te lê, uma ajuda preciosa para vermos a vida com outros olhos, os olhos do AMOR que tu expressas tão bem!

    um abraço apertadinho de uma mãe que aprende todos os dias contigo

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  2. SUPER MÃE !!!!!
    É a única palavra que me vem á cabeça ao ler este texto...que sorte têm os filhotes por terem uma Super Mãe :)
    As melhoras da Maria

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  3. É a primeira vez que comento no seu blog mas já há algum tempo que a acompanho (primeiro com as suas aventuras como empregada de mesa). Escreve lindamente e neste momento identifico-me muito com os seus posts porque também eu sai de Portugal em Junho e vim morar para os EUA, ainda grávida. Agora tenho uma menina nas minhas mãos e também eu conto os dias por vezes. Os dias para que ela possa brincar com os primos, ser mimada pelos tios, envolvida pelos avós. Mas sei também (por ela, por mim e pelo meu marido) que tenho que começar a viver mais os dias, os segundos (às vezes os nanosegundos).
    As melhoras para a Maria e as maiores das felicidades para vocês. Não costumo de todo comentar algo privado para mim mais, mais uma vez, a sua escrita assim o ditou.
    Um abraço,
    Sónia

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  4. Não me lembro como cheguei a este blog, sei que me tornei visita diária desde que o descobri. E hoje não pude deixar de comentar: primeiro porque tive um pai como o seu, não havia situação ou local onde ele não estivesse, caso eu necessitasse...Infelizmente só restam as memórias porque adormeceu há 2 anos e não voltou a acordar. Depois pela estratégia junto da sua filha, recorrendo ao que aprendeu com o pai do filme "A vida é bela"...E o que resultou num campo de concentração surtiu efeito também num hospital norueguês! Acrescento que fui professora de Inglês durante quase 40 anos (tenho 59...) e que muitos dos meus alunos conhecem hoje a frase "Buon Giorno, principessa" porque o viram e exploraram nalgum momento do ano lectivo. Há 3 anos visitei os países nórdicos e a Noruega foi o país onde estive mais tempo. E o que aprendi com o meu guia, espanhol que viveu 19 anos em Bergen, vem-me muito à cabeça quando nos queixamos da falta de sol ou quando os pais não levam os meninos à rua porque está um pouco frio...Desejo-lhe toda a sorte nesse lugar tão diferente mas que pode ser um bom lugar para os seus filhos crescerem...Um abraço de Lisboa!

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  5. Buongiorno principessa(s) :)

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