segunda-feira, 23 de setembro de 2013

o segundo dia.

chegámos na quinta-feira.
quinta-feira foi o dia em que demos beijos em atraso, abraços apertados. quinta-feira foi o primeiro dia.
e depois veio o segundo.
o segundo dia foi difícil para todos.
eu: os meus banhos eram curtos. fechava-os comigo na casa-de-banho e lavava-me. e cantava. e fazia cúcú. não havia tempo para mais. em frente ao espelho pequeno penteava-me. despachava-me.
no segundo dia: entendi as pessoas. diziam-me estás muito magra. diziam-me tens de comer. no segundo dia vi num espelho que me deixou ver: eu. um buraco entre o meu peito mirrado. as minhas costelas magras. as minhas ancas. os ossos. nunca me senti tão feia como me senti no segundo dia. foram muitos dias a tomar conta deles. dias em que não comi porque estavam doentes. em que comi mal porque não havia tempo. no segundo dia eu chorei.
ele: as saudades deixaram-no muitas vezes triste. infeliz. sentia que a distância estava a mudá-lo, estava a deprimi-lo. no dia em que chegámos ele tinha a felicidade no rosto. na voz. nas perguntas que nos fez. nos abraços que nos deu. nos olhos. mas a distância e o tempo: a solidão: no segundo dia nós éramos muitos. éramos o barulho que ele já não ouvia. éramos os brinquedos espalhados que ele já não apanhava. éramos as birras. éramos o choro. as fraldas. as papas. os banhos. no segundo dia ele estava a voltar a ser o que nós éramos. e é difícil, é muita coisa, é confuso. ele sentiu-se assim. no segundo dia ele chorou.
a maria: fomos a um parque novo. ela brincou, correu. às vezes ela ficava calada. às vezes ela só queria o meu colo. às vezes ela perguntava pelo parque da macaca. o outro. os meninos. ela não percebeu o que a menina lhe dizia. eu não a consegui ajudar. eu senti: ela sentia-se perdida. sentiu saudades. sentiu-se frustrada. no segundo dia peguei-a nos meus braços: ela chorou.
o miguel: nos dias quentes vestia-lhe uma camisola fresca: ele chorava. no segundo dia vesti-lhe a roupa interior. as calças. as camisolas. o casaco. as luvas. o gorro. ele chorou o tempo todo. na rua o frio sossegou-o. ele não viu os pombos. ele não palrou. ele estava quieto. às vezes distante. às vezes diferente. no segundo dia o miguel chorou um choro diferente.

e depois veio o terceiro dia: e foi melhor.
o quarto dia foi bom. calmo.

vivemos um dia de cada vez. sem pressas.
porque é o tempo que nos vai trazer a força que precisamos para enfrentar os segundos dias.


11 comentários:

  1. Ler-te deixa-me sempre emocionada... muito. Os segundos dias existem ai e aqui, mas depois vão existir muitos quartos dias. Sejam muito felizes os quatro!

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  2. ou como disse alguém "tudo o que precisamos é muito amor e muita calma." ♥

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  3. Que a força nunca vos falte. Gosto muito de vos saber, de vos conhecer de vos ler. E torço muito para que tudo vos corra pelo melhor

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  4. Um dia de cada vez. A adaptação leva o seu tempo, mas o importante é estarem todos juntos, só assim faz sentido, só assim são felizes.
    Desejo-vos tudo de bom :)

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  5. Sigo o teu blog desde o início.
    Não porquê, ou talvez saiba, sinto aquilo que escreves. Já chorei alguma vezes com as tuas lágrimas. Ontem à noite adormeci com o coração apertado e com o pensamento em vocês. Não vos conheço, mas quero-vos muito bem. Desejo-vos muitos, todos, os dias felizes, com gargalhadas e muitos mimos.
    A adaptação deve ser muito difícil, mas estão juntos. Agora já podes baixar as armas, que tens o teu marido ao teu lado que luta, também, por ti.
    És uma mulher cheia de coragem, mas agora recebe o colinho que tanto desejaste.

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  6. "porque é o tempo que nos vai trazer a força que precisamos para enfrentar os segundos dias"

    hoje, era tudo o que eu precisava. De ler estas palavras escritas por alguém estranho, que se encaixam tão bem, hoje em mim, para calar os medos dos segundos dias. Obrigada

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  7. Olá. Parabéns pela forma como escreve, é surpreendente!
    Este blog tornou-se um bocadinho a visão do meu futuro... eu e o meu marido estamos desempregados, temos duas filhas quase da idade da Maria e do Miguel (2,5 anos e 4 meses) e, para a semana, o meu marido vai para Londres. Logo que arranje casa, vamos nós... Ele vai ser "carne para canhão", trabalhar como louco na restauração (é isso que nos dizem) e nós vamos ficar por aqui, a sobreviver!!! A dor de pensar nisso, a angústia de ir embora, a saudade da ausência que se anuncia nas próximas semanas... tudo isso faz com as minhas lágrimas caiam... as dificuldades que vamos ter que enfrentar! Leio este blog e vejo o nosso futuro e, até espero que seja esse o nosso futuro, pois apesar das dificuldades parece-me que estão a conseguir superar. Só espero ter a sua força para também conseguir ultrapassar isto.
    Desejo-vos, do fundo do coração, as maiores felicidades. espero que tudo corra bem com a sua família e com a minha ;) E, sobretudo, agradeço-lhe o que escreve, agradeço-lhe partilhar o que se passa quando uma família decide imigrar, agradeço-lhe por me "avisar" do que vem ai... agradeço-lhe por escrever!
    Acredito que o amor que vai correr tudo bem... que vamos conseguir ser felizes e fazer a nossa família feliz. Acredito que esta dor é a necessária para evitar uma ferida maior se ficarmos num país que nos tira tudo, incluindo as asas dos nossos filhos. Por isso, força... estamos a torcer por vocês!!!

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  8. Muita força!
    E o importante é que estão juntos :)

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  9. obrigada a todos pelas palavras, pelo apoio. beijinhos

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  10. Desejo-vos muita força e que nunca vos falte a coragem e o amor.

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  11. A gravidez faz com que fiquemos sensiveis. Eu sei disso. Mas lembro-me de ti desde à muito tempo..não eras mãe. Eras tu. Única, original, amiga, e simples. Divertida e fiel. Boa pessoa. Eras minha amiga. Apesar da distância guardei-te sempre no coração. os momentos que passamos juntas. Identifiquei-me contigo pois de todas nós, amigas da Secundária, eras a única mãe como eu. De dois. Como eu. Revia-me em ti. Sabia os desafios que passavas. Eras uma inspiração pela tua dedicação a tua familia. O facebook, das únicas coisas boas que tem, é aproximar pessoas que deixaram o tempo e as circunstãncias afastá-las. E começei a seguir o teu blog. Um pedaço de ti. Li, com satisfação e emoção as tuas palavras simples e honestas. Soube que ias emigrar. Pensei muito em ti. Em vocês. Também penso nisso para mim, e penso: Eles tiveram a coragem..a união..para o fazer. Quem me dera! Leio emocionada tudo o que escreves. E não é só por estar grávida. É porque gosto de ti. É porque admiro a vossa coragem. É porque me revejo, um pouco, em ti. Sabees que te desejo o melhor do mundo. Como já disseram..aproveita os mimos e o colinho. Agora, és tu que também precisas, um pouco..ou muito! Beijo grande daqui à Noruega!

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