terça-feira, 6 de agosto de 2013

miguel.

foi um acidente. foi triste. inesperado. pouco depois de a maria nascer houve um acidente. ele nunca a conheceu. era tio dele. ele adorava-o e admirava-o: chorava revoltado. era tio avô da maria. era novo demais. chamava-se miguel.
quando descobri que estava outra vez grávida decidi que não queria saber se era um menino ou uma menina. pedi-lhe e ele aceitou a ideia. um dia perguntou-me que nome ia ter. se fosse menino. se fosse menina. queres chamá-lo miguel, perguntei.
ele não pensou na resposta. só disse que sim.


no dia em que o miguel nasceu sabíamos o nome dele. não tinhamos nome para a menina. estava deitada, estávamos sozinhos. o bebé ia nascer e foram todos tratar de tudo e nós ficámos sozinhos. ele disse: precisamos de um nome. se for uma menina não pode nascer sem ter um nome.
eu disse-lhe para não se preocupar: se for uma menina quando lhe virmos o rosto vemos um nome.
acho que sabia. no meu coração eu sabia: era um menino. era o miguel.
a minha mãe veio visitar-nos no domingo. entregou-me os meus diários. os meus diários: quando eu era criança, adolescente. escrevia tudo: relatos de dias comuns, momentos de profunda fúria contra as minha irmãs, as minhas paixões. o meu primeiro diário é encantador como são todos os diários de uma menina de 9 anos. repleto de corações. um cheirinho doce. à noite com a maria eu li os meus diários. e depois vi.

1996. fui para o algarve com a minha irmã e os amigos dela. havia um que se chamava miguel. tinha uma paixão por ele. tinha acabado de fazer 14 anos: era uma menina. escrevi:

"hoje enquanto esperávamos pelo autocarro uma cigana leu-me as mãos. eu deixei porque tive medo dela. ela disse muitas coisas mas a única que eu decorei foi quando ela disse que via um homem importante na minha vida e que se chamava miguel. ela acertou e eu nem acreditei fiquei tão feliz e cheia de medo ao mesmo tempo. agora só falta o miguel apaixonar-se por mim também."

ele nunca se apaixonou por mim.
fui infeliz por alguns meses.
não sabia na altura que a cigana estava certa. havia um miguel.
só tinha de esperar que ele nascesse.

4 comentários:

  1. Opá, que texto tão mimoso! Gostei muito!

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  2. E é lindo este Miguel da tua vida :)

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  3. O que me arrepiei a ler este teu post... :)

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  4. Engraçado, passou-se algo semelhante comigo...
    Quando era pequenina andava na escola com duas meninas ciganas. Elas estavam a aprender a ler as mãos com as avós e eu pedi-lhes para lerem a minha. Uma disse-me que o amor da minha vida começava por "P" e a outra insistia que era por "D". Eu fiquei triste porque o rapaz que gostava tinha um nome que começava pela letra "F". Nunca esqueci esse momento.
    O meu marido chama-se Pedro. O meu filho chama-se Diogo.

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