segunda-feira, 30 de outubro de 2017

a festa do migas.

última fotografia com 4 anos.

no dia em que fez 5 anos fomos vê-lo na natação, depois levámos um robôt para a escola e os colegas cantaram-lhe os parabéns. à noite usámos a mesma vela num prato de pastéis de nata pequeninos e cantámos outra vez. este fim-de-semana teve a festa das obras que pediu com todos os amigos. no final do dia ele era um menino muito feliz e cansado.



quinta-feira, 26 de outubro de 2017

migas.

ontem troquei, sem querer, a comida da lancheira deles. descobri quando, ao fim do dia, enquanto lavava a loiça, o migas se sentou num banco da cozinha e disse com muita calma: mãe, hoje na minha lancheira eu tinha tomates pequeninos e pão com sementes em cima, queres falar sobre isso?



se for preciso passam o dia a implicar um com o outro e a deixar-me maluca. [mas] a semana passada ela ficou doente e faltou ao dia do torneio de futebol na escola. e ficou triste porque adora jogar à bola e porque havia medalhas para os vencedores. o migas foi e eles ganharam. e quando o fui buscar à escola lá estava ele, pequenino, transpirado, de medalha ao pescoço. e a primeira coisa que ele me disse foi: mãe, eu quero dar a minha medalha à maria. e ela adorou.


o novo assunto preferido dele é a morte. nada de muito profundo, só conclusões sobre o dia-a-dia como: migas apaga o candeeiro estás a gastar luz. conclusão: quando as pessoas morrem já não gastam luz. e outras que tais: quando as pessoas morrem já não são do benfica, nem do sporting. quando as pessoas morrem ficam casas vazias. quando uma pessoa morre já não precisa de ir passear o cão. nem gasta a bateria do telemóvel. nem usa meias. nem precisa de tomar banho se não lhe apetece.
tantas, tantas conclusões.


conclusões sobre a vida aos 4 anos.
maria: mãe, é verdade que quando as pessoas morrem vão para o céu?
eu: não sei maria.
miguel: ai sim, sim. se fores mau é que não vais, se fores mau vais para um sítio pior: vais para frança. 
 
   


hoje, a caminho da escola:
eu: estão prontos para a última semana de escola?
migas: e depois não há mais?
- depois estão de férias.
- para sempre?
- não, depois a escola começa outra vez. é sempre assim, férias e depois outra vez escola, até irem trabalhar.
migas de boca aberta: o quê? podias ter avisado.
eu: tenho quase a certeza que já expliquei isto antes.
migas: mas devias ter avisado era antes de eu nascer.



- migas amanhã é dia da mulher.
- da mulher-elástica?
- não, das mulheres todas.
- bolas. e é dia de escola?
- é pois, o dia da mulher não é feriado.
- coitadas, mas que dia horrível.


sobre o migas: a semana passada não o deixei comer bolachas em vez da sopa. em pé, encostado à mesa da cozinha, a olhar para mim, ele disse: tu és feia. parei de tirar a roupa da máquina, olhei para ele e, tal como eu, ele parecia surpreendido com aquelas palavras. ele saiu e eu chorei: foi a primeira vez. a primeira vez que ele falou assim comigo. o meu migas. esperei 10 minutos, lavei a cara e fui ter com ele: estava deitado na cama a olhar para o tecto. ajoelhei-me e disse que não estava zangada. expliquei-lhe mais uma vez os benefícios da sopa, expliquei-lhe o meu papel nisto de sermos mãe e filho. e ele chorou quando o abracei e foi comer a sopa. e eu não estava zangada mas custou ouvir aquelas palavras: a raiva que se ouviu nelas. e, como sempre, fiquei insegura, cheia de dúvidas e culpa. depois levei-os ao parque. estava lá um menino. eles apresentaram-se e começaram a brincar com ele. quando uma amiga deles chegou com uma bola eles saltaram as grades e correram para a relva para jogar. o menino ficou. o miguel chamou-o, ele respondeu: a minha mãe não me deixa sair do parque. o miguel ficou parado a olhar para o menino: sentado no escorrega, sozinho, a olhar para os pés. chamou-o outra vez e eu disse: migas o menino não pode.
então ele entrou no parque, foi ter com o menino e disse: eu prefiro brincar contigo ok?
nessa noite, antes de adormecer, o meu migas perguntou-me se mentir era sempre uma coisa má.
- porque é que perguntas rapazinho? -bem, porque hoje menti duas vezes: tu não és feia e eu preferia mesmo era ter jogado à bola


o migas aos 4 anos, em imagens e palavras.
e de repente o meu rapazinho já tem 5 anos.